07h00 - segunda, 29/04/2019

H.

H.

Na aldeia de Santa Clara-a-Velha, de manhã muito cedo quando as pessoas ainda não voltaram do desaparecer do dia anterior, percorro as ruas a indagar o porquê de ficar. Parece forçado, mas é uma pergunta que ponho sempre que volto da cidade. Porquê ficar numa aldeia? Que relação haverá entre ficar e a barragem de Santa Clara? Porquê ficar num lugar onde as oportunidades são mínimas, senão ausentes, onde um certo pessimismo parece enevoar constantemente os pensamentos? Se uns chegam e encontram o lugar vazio dos que partiram, e se são mais os que partem do que os que chegam, porque continua ainda a existir esta equação de dever e haver? Pensar apenas nos que chegam traz uma ideia de renovação, de renascimento, de ciclo natural, faz parte da natureza, mas não faz parte necessariamente de ser humano. O Homem pretende atingir um estado de conforto para si próprio que pode passar pela destruição da natureza e da sua própria humanidade se assim o desejar e lhe for permitido.
Porquê ficar?
Ouvindo à minha volta, em conversas dispersas, a resposta permeia esse assunto, às vezes só implícita nos silêncios ou nos olhares sem destino. Não é difícil de entender. Um amor à terra esconde muitas vezes a impossibilidade de ser outra coisa que não isso. Os que partem também podem dizer que a amam, essa terra que os viu crescer, e nunca mais voltar, engolidos por uma elaboração de felicidade legitima. Os que construíram uma vida, como se costuma dizer, em função de negócios, terras para administrar, casamentos com um filho ou uma filha da terra, têm todas as razões para permanecer. O Homem precisa de um lugar para criar raízes, para deixar testemunho. Para continuar a existir para além do seu ciclo. Tanto faz que seja aqui ou noutro lugar.
Ficar hoje é opcional. Houve uma altura em que não foi. A sobrevivência impõe as migrações.
Debaixo das águas desta barragem há mais de uma centena de casas, um desenvolvimento para um bem comum, que sacrificou algumas vidas pessoais, que viram interrompidas as suas histórias familiares. Que reconstruíram as suas vidas num outro lugar, que guardaram memórias, que perderam e ganharam. Quando a cota das águas desce é preciso ter cuidado ao navegar para não bater em alguma parede, dizem.
Já não é a mesma pequena traineira que atravessava o rio para levar as pessoas de uma margem à outra, a mesma traineira que às vezes encalhava e era uma festa. Antes da traineira só se podia atravessar de mula e às vezes não, porque o caudal era forte e bravo e podia-se ficar semanas a adiar todos os compromissos que esperavam do outro lado.
Tudo isto só acontece num plano nostálgico que poderia continuar a existir no entanto, mas não é preciso. E ficar, é preciso? Há projectos. Gostaria de contornar a barragem, levar meses a concluir esse projecto, cartografar todos os deslizes, captar todos os murmúrios da água, construir abrigos temporários, parar o barco no meio da barragem numa noite sem lua, até os meus olhos se habituarem à escuridão. Ter a serenidade para aprender a pescar. Compreender as estações.
Mas os que transitam, os que passam, e levam consigo pedaços deste lugar? Aqueles para quem isto tudo, como dizia o poeta, é apenas uma estação no seu caminho? Os que são idênticos na diferença de serem apenas temporariamente estranhos, os que têm um espaço escondido numa margem, os que vão de barco para casa, os que construíram um espaço de acolhimento mas que se refugiaram dentro de si próprios, os que montam uma tenda por uma noite e secam a roupa de manhã nas cordas da piscina, os que estacionam a caravana virada para acordar com horizonte, e todos os que dão um nome diferente a esta massa de água de acordo com a sua maneira de sentir, os estrangeiros que são agora os imigrantes, e os que sempre foram de cá e nunca foram de lá? Porque ficam? Porque voltam para ficar? Porque ficam alguns uns instantes e porque querem outros levar aqui o resto da vida? O silêncio comprometedor à procura da resposta à pergunta: quando foi a última vez que foi à barragem? Às vezes só um defensivo: porquê?
Ficar é simbólico da água. Uma fonte de vida, um meio de purificação momentâneo, um centro de regenerescência. Desenhar na água é uma ilusão, mas existe. Enquanto tiro uma fotografia a uma plataforma no meio da água, algo que recuso saber o porquê dessa estrutura, para mim é um pequeno palco, porque é assim que o desejo ver, por detrás de mim uma voz: It´s beautiful, isn´t it? Respondo que sim, só podia ser. Como não?
O meu momento, quando me sento aqui a olhar para esta paisagem, é na luz da manhã, aquele prateado na água, compreende? Poderia ter acrescentado.
Não há nada de estranho aqui. Percebo o que ela quer dizer e como reposta sei que não é preciso dizer quase nada. O ficar podia ser só isto. Uma relação de encontro entre uma procura e uma oferta. Um momento de casualidade fenomenológica. Simples na sua complexidade.
Eu sei porque permaneço. Se disser gosto de estar aqui, desta proximidade da água, desta geografia, outras vozes mais constantes dirão a sorrir: primeiro estranha-se e depois entranha-se, não é?
do coração desmentem sempre tudo.


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Data: 27/03/2020
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