07h00 - sexta, 12/07/2019

E se houvesse novo derrame
de crude na costa de Odemira?

E se houvesse novo derrame de crude na costa de Odemira?

Na madrugada de 19 de Julho de 1989 a praia do Almograve e algumas zonas a norte e a sul do areal "tingiram-se" de negro. Eram os efeitos do acidente com o navio petroleiro "Marão" ocorrido cinco dias antes no Porto de Sines, durante uma manobra de acostagem ao cais petroli?fero. O embate da embarcação na cabec?a do molhe danificou dois tanques de carga e cerca de 4.500 toneladas de crude caíram ao mar, chegando posteriormente à costa do concelho de Odemira.
Os trabalhos de limpeza duraram semanas, envolvendo centenas de pessoas, a empresa proprietária do navio acabou por ter de pagar uma indemnização de cerca de 70 mil contos (140 mil euros ao câmbio actual) à Câmara de Odemira e, com o passar do tempo, tudo voltou à normalidade. Mas poderá chegar o dia em que a tragédia se repetirá… E será que, nesse dia, haverá capacidade de resposta para travar que o crude (ou outro material) se alastre pelo mar e chegue àquela que é, para muitos, a mais bela costa da Europa?
"Essa é uma questão que nos preocupa, porque 30 anos depois deveria haver melhores condições para poder actuar no caso de uma tragédia daquela natureza. Mas a verdade é que não estamos seguros disso", admite ao "SW" o presidente da Câmara de Odemira. "Não há meios operacionais na região que estejam devidamente preparados para uma situação daquelas. Trinta anos depois [do 'Marão'], continuamos com a sensação de que foi prometido muito na altura, mas não se fez quase nada", acrescenta José Alberto Guerreiro.
O autarca odemirense reconhece que, ao nível do Porto de Sines, a capacidade de resposta a ocorrências desta natureza melhorou imenso desde 1989 (com exemplos práticos bem recentes). O pior, diz, é mesmo fora da área de jurisdição do porto, onde "não há meios efectivos, nem pessoal preparado". "E no país também não conhecemos nenhuma equipa especialmente preparada para esse efeito e acorrer a uma situação destas", diz.
O derrame do "Marão" causou estragos incalculáveis à economia local e ao ambiente na zona do Almograve. O Verão turístico já não foi o que se esperava, a actividade pesqueira caiu a pique e, meses depois, ainda havia vestígios de crude em algumas zonas mais recônditas da orla costeira.
"Foi um Verão perdido e houve, de facto, muitos prejuízos. Não só económicos, mas também ambientais", observa o presidente da Câmara Municipal, sustentando que a repetição de uma situação destas deitaria por terra o trabalho que tem vindo a ser realizado pelo Município e pelos agentes económicos locais na promoção e valorização do território.
"Não podemos andar a promover as melhores praias e depois, de repente, termos das piores", diz José Alberto Guerreiro, para logo acrescentar: "Esta situação que vivemos há 30 anos felizmente não voltou a repetir-se, mas não temos a certeza que ela não possa voltar a acontecer. E o nosso receio é que, 30 anos depois, em qualquer um destes dias possa acontecer uma situação destas. Gostaríamos de estar melhor preparados para reagir".
Para o autarca odemirense, esta é uma responsabilidade que deve caber ao Estado, através do Ministério do Mar. Mas José Alberto Guerreiro vai mais longe e advoga a "obrigação" de também a União Europeia estar atenta a esta questão e disponibilizar fundos para a mesma. "Afinal de contas estamos a falar de uma orla costeira que é, ela própria, fronteira marítima da Europa", argumenta o presidente da Câmara de Odemira.


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