07h00 - quinta, 05/12/2019

Eduardo Dâmaso, o jornalista
que não esquece Odemira

Eduardo Dâmaso, o jornalista que não esquece Odemira

Eduardo Dâmaso é natural de Odemira e esteve recentemente na "terra-natal" a apresentar o seu novo livro, Corrupção, que aborda alguns dos casos mediáticos de corrupção investigados em Portugal. Antes, o actual director da revista "Sábado" falou ao "SW" sobre o seu ovo livro, a carreira de jornalista e as suas memórias de Odemira. "Aprendi muito por onde andei. Sobretudo em Coimbra, onde vivi anos fascinantes de estudo e convívio. Mas o que vivi em Odemira ficou gravado para sempre", garante.

Acaba de lançar "Corrupção", apresentado no passado dia 23 de Novembro em Odemira. Em que medida é este um livro sobre o estado a que o Estado chegou?
Este livro é um contributo pessoal e cívico para a discussão pública de um crime que provoca um grave dano na economia nacional e distorce princípios essenciais e consagrados na própria Constituição, como a igualdade entre portugueses perante a lei e o Estado ou a livre e sã concorrência entre empresas. Sim, é verdade que, em certa medida, é um livro sobre o estado a que o Estado chegou. Assenta numa lógica de investigação jornalística, na medida em que procura entender a realidade da corrupção de uma forma um pouco mais profunda do que aquela que ela assume, muitas vezes, na discussão política, e nesse sentido implica também uma interpretação sobre o significado das narrativas, dos processos judiciais, dos discursos políticos, das estatísticas e das leis sobre o tema.

Sente que a questão da corrupção é uma das maiores fragilidades de Portugal neste momento?
Sem dúvida que é! Essa é, de algum modo, a tese principal do meu livro. Parecendo uma coisa óbvia, não o é. Vejamos: terão as pessoas noção de que temos um poder legislativo, materializado nas sucessivas maiorias parlamentares de partido único ou em coligação, que foi instrumentalizado demasiadas vezes por poderosíssimos grupos de interesses ao longo dos últimos 30 anos, grosso modo dos governos da AD, no início dos Anos 80, para cá?! E que, por isso, tivemos processos judiciais muito importantes que nunca chegaram a lado nenhum e que reflectiam ataques brutais ao erário público. Foi assim com o Fundo Social Europeu entre 1986 e 1988, logo no início da adesão à Comunidade Económica Europeia, em que mais de 200 milhões de contos, na moeda da época, desapareceram pura e simplesmente sem qualquer espécie de consequências. Já viu quantos mil milhões de euros é que isso daria se fizéssemos uma conversão não apenas literal, mas tendo em conta outros elementos de valorização da moeda!? Foi assim que passámos, na mesma altura, do velho regime fiscal para o novo, que trouxe o IVA, IRS e IRC, numa transição assente numa lógica de perdões fiscais e de puro favorecimento de quem já tinha muito dinheiro. Foi assim que uma verdadeira indústria de obras públicas assente numa estrutura de "sacos azuis" para pagar subornos atravessou todo o cavaquismo e, depois, os governos seguintes. Enfim, os exemplos são demasiados. Ao mesmo tempo, os nossos códigos Penal e Processual exibiam uma fulgurante eficácia na repressão de crimes de sangue, incluindo o terrorismo, mas claudicaram por completo nos crimes económicos. Para quem acredita em coincidências está bem. Para mim não.

É jornalista há mais de três décadas. O que levou até esta profissão?
O que me levou a esta profissão, em 1981, foi o fascínio de uma vida sem rotinas que me aprisionassem a um escritório, a possibilidade de conhecer o mundo e de poder contribuir para mudar alguma coisa nele. Saí de Odemira em 1978, com 16 anos, para continuar a estudar e com essas ilusões todas. Olhando para trás, acho que consegui alguma coisinha. Uma das coisas que consegui foi ajudar a consolidar a liberdade dos jornalistas e do jornalismo de investigação, através de uma luta judicial que foi até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, contra uma visão absolutamente censória do segredo de justiça. Eu fui condenado cá, por violação do segredo de justiça, mas o Estado português foi condenado por me ter condenado e a sentença na justiça portuguesa foi revertida. Esse acórdão foi histórico e é hoje um marco na jurisprudência europeia sobre a matéria.

Como é que olha para a evolução da profissão de jornalista, onde os seus profissionais são hoje em dia verdadeiros "multi-funções"?
A profissão de jornalista passa hoje por uma transformação radical. Quem não dominar hoje um conjunto de capacidades, que vão de escrever, filmar, editar, etc, tem poucas hipóteses de singrar nesta profissão. Não vejo isso como um empobrecimento do papel do jornalista. Pelo contrário, dá-lhe uma capacidade de intervenção muito maior. Mas, ao mesmo tempo, as empresas têm de saber gerir isso com sabedoria. Não podem eliminar o tempo necessário à investigação e construção do jornalismo de investigação. Não podem transformar os meios de comunicação em linhas de montagem de um jornalismo de mera transcrição dos milhares de comunicados, conferências de imprensa e declarações do dia-a-dia. Quando se perder tempo para apostar na diferenciação de conteúdos e na capacidade de produzir exclusivos, o jornalismo acabou.

Nasceu em Odemira. Que relação mantém hoje com a vila e o concelho?
Sou um odemirense com um imenso orgulho das minhas raízes, da minha terra, do meu concelho, do meu mar, das minhas praias, dos meus conterrâneos. Andei pelo mundo mas a minha casa e a minha história, a minha identidade, estão em Odemira. Vivi em Setúbal, Coimbra, Porto, Lisboa mas, verdadeiramente, nunca sai cultural e emocionalmente de Odemira. A minha relação é de grande proximidade, física e afectiva, mesmo quando passo muito tempo sem lá ir.

Quais as suas principais memórias de Odemira?
As minhas memórias de Odemira são, essencialmente, as de toda a infância e adolescência. São, afinal, as vivências e memórias que moldam aquilo que somos. Aprendi muito por onde andei. Sobretudo em Coimbra, onde vivi anos fascinantes de estudo e convívio. Mas o que vivi em Odemira ficou gravado para sempre. A rua Serpa Pinto, onde nasci, o colégio onde andei, a dra. Judite Penha, que foi minha professora primária, o dr. Candeias, director do colégio e saudoso professor de Português, os amigos desses anos, da primária ao preparatório, o campo do Bemparece, das futeboladas inesquecíveis, os verões intermináveis no Almograve, as noites de Milfontes e da Zambujeira, os grandes amigos que fiz em Odeceixe, esse 'Algarve-alentejano'… Tudo isso é a memória de um tempo muito feliz. É a bagagem para toda uma vida.


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