17h01 - quinta, 20/09/2018

Privado versus público


António Martins Quaresma
Estava, para aqui, a cogitar sobre uma das oposições hoje em dia mais glosadas entre o povaréu: a do "privado" versus "público". Algo estranho, ou talvez não, num país que vive num sistema político e económico claramente capitalista. Creio que se está na presença da popularização de um certo discurso ideológico, muito dele propagado pela comunicação social.
A minha percepção é de que o "privado" geralmente está ao ataque: que os seus salários são inferiores, que trabalham mais, que se aposentam mais tarde, que há excesso de funcionários públicos, pagos, naturalmente, pelos privados, etc. O "público", parece-me, lá se vai defendendo, intermitentemente e como pode.
Por vezes, essas oposições surgem em pacotes. No Campeonato do Mundo de futebol, na Rússia, a Presidente da República da Croácia transformou-se em vedeta, surgindo nas redes sociais como uma espécie de "extracto super-concentrado" de virtudes políticas, já para não falar nos dotes revelados por um exíguo biquíni. Começando com a notícia de que a radiosa dirigente pagara do seu bolso a viagem à Rússia e viajara em classe económica, logo lhe juntaram um extenso rol de variados e estimáveis atributos: ela via os jogos da bancada e não da tribuna; ela lutava contra a corrupção, no seu país; e, last but not least, um dos seus arrebatados admiradores "descobriu" que ela, mesmo não tendo competências governativas, tinha aumentado os salários do sector privado! Nem mais.
Esta dicotomia "público"/ "privado converge na muito corrente interrogação "quem paga?", que insinua "eu" pago ordenados e subsídios a políticos corruptos, a funcionários públicos supérfluos, a parasitas que não querem trabalhar, etc. Há dias, à mesa do café, assisti a um diálogo em que um sujeito garantia que os portugueses, em particular ele próprio, estavam a financiar o sistema de saúde dos funcionários do Estado, ADSE. Depois de alguma discussão, o interlocutor, utente da ADSE, já de paciência perdida, fez contas, e tirando um cêntimo do bolso, estendeu a mão, dizendo: "Aqui está o que eu te devo e podes guardar o troco".
Mas o mais recente e perturbador exemplo a que assisti foi uma entrevista da SIC Notícias ao secretário de Estado da Protecção Civil, a propósito dos dramáticos incêndios na Grécia. Nesta, o jornalista insistia, veementemente, com o governante para que este esclarecesse quanto custava o (pequeno) apoio que Portugal se prestava a dar àquele país e quem o pagava. Ainda o fogo ardia e os corpos queimados continuavam a amontoar-se, o "jornalista" achava que as respostas às suas teimosas perguntas eram fundamentais para os portugueses.
Não quero acabar este texto sem dizer que a postura de "quem paga?" se me afigura legítima, em muitos casos, como o do BES/ Ricardo Salgado e quejandos. O que eu creio irracional é esta bulha dos "pequeninos", este abespinhamento da turba, porque, por exemplo, um membro do governo é pago pelo erário quando se desloca em serviço do país ou quando há um (modesto) gesto de solidariedade, numa situação semelhante à que, num passado recente, beneficiámos de solidariedade externa. A dupla questão do público versus privado e do "quem paga?" é, para além da sua raiz ideológica, uma questão de siso e, às vezes, de decoro.



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