17h34 - quinta, 18/10/2018

"Caem co'a calma as aves"


António Martins Quaresma
Por momentos, tirou os olhos do computador. Tinha despendido 15 minutos na rede social, ultrapassando, em muito, o que costumava gastar diariamente. "Tempo inutilmente consumido", pensou. "Quem me manda a mim ser parvo: Facebook, só três minutos, no máximo, com descanso às segundas, quartas e sextas", remoeu, entre dentes.
De súbito, as suas lucubrações foram interrompidas por uma urgência doméstica. Não havia pão, esse imprescindível produto em qualquer casa alentejana, e alguém tinha de resolver o problema, antes que a multidão de banhistas rapasse completamente as respectivas vitrinas, no supermercado. Sabem, "banhistas" são, para ele e para os seus círculos familiar e de amigos, os turistas. É resquício de um tempo em que todos assim designavam os forasteiros, que frequentavam as praias da foz do rio Mira na época estival.
Assim, no sábado abrasador, foi forçado a sair de casa pela hora da maior calma. Quando deixou o relativo fresco da habitação e se engolfou na canícula, o embate do bafo ardente fê-lo recuar. Veio-lhe à cabeça uma praga, que nem teve energia para verbalizar, e arremeteu segunda vez, em passo rápido, mas pouco firme, rua e inferno adiante.
Não tardou que os 40º Celsius (ou 50, ou lá o que era) começassem a fazer estragos no seu já débil equilíbrio fisiológico. A meio caminho, foi invadido por uma estranha sensação de quase imponderabilidade, ao mesmo tempo que cogitava continuamente "O sol é grande, caem co'a calma as aves", e, quanto mais repisava, mais procurava indagar, nas profundezas da sua diluída memória, a origem e a razão deste singular pensamento. Não avistava qualquer ave, nem sequer o melro-de-bico-amarelo, que, do quintal, regularmente, observava e, até Junho, ouviu cantar, ou a frágil alvéola, que, saltitante, usava debicar entre as ervas.
E, mais uma vez, numa vertigem: "O sol é grande, caem co'a calma as aves". Então, numa epifania: "Já sei, o Simbolismo, verso de Camilo Pessanha". Uns segundos depois: "Grande asno, não tem nada a ver, é Sá de Miranda!", ciciou surdamente, ao conseguir extrair, da massa cinzenta, a informação, que depois veio a confirmar estar certa. Irrelevante, porém, para explicar o estranho fenómeno e, menos ainda, para o livrar do abrasamento.
Pouco tempo depois, já na segurança do lar, seguindo o exemplo de milhões de portugueses, armou em expert, e ensaiou uma explicação arguta para o caso. Como é incréu, não buscou na acção divina uma aclaração. Em vez disso, concebeu que, face à paralisia do seu consciente, pelo sufoco térmico, o subconsciente ofereceu uma imagem poética para lhe ocupar o espírito, à laia de meditação oriental, e, desta maneira, ajudou-o a superar a provação. Satisfeito com o que julgou ter sido uma penetrante reflexão, começou a cortar uma fatia de pão.
Não tinha ainda terminado o gesto, caiu – finalmente – em si: "Tenho que me pôr a pau, tou a ficar taralhouco, com'ó caraças!"



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