15h40 - quinta, 13/12/2018

O acordo do desacordo


António Martins Quaresma
Tomei uma decisão. Eu sei que as minhas decisões só a mim dizem respeito, mas esta respeita também aos raros leitores daquilo que, por aqui e por ali, vou escrevinhando. Decidi começar a usar as regras do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Bem, não sempre, que um propósito desta envergadura exige vagares e pausas. A mudança, paulatina e sincopada, vou aplicá-la num pequeno livro de história, sobre Vila Nova de Milfontes, que, em breve, será publicado. Não é a ilustração da velha máxima "se não podes vencê-los, junta-te a eles". É outra coisa, bem comezinha: como tenho a ambição de que o livro seja lido por alunos de escolas, submetidos, há anos, à aprendizagem da ortografia da Academia, senti-me coagido a fazê-lo para não criar (mais) um obstáculo à sua leitura.
Devo confessar que só me apercebi de como AO90 é desnecessário e, frequentemente, desacertado quando ele começou a ser usado. Antes disso, olhava, com distanciamento e bonomia, toda a discussão à sua volta, porque, na realidade, sentia que o assunto dizia sobretudo respeito a quem verdadeiramente "escrevia", e não a quem, como eu, meramente redigia. Mea culpa! Continuo simplesmente a "redigir", mas para, mais uma vez, não me atrasar, estou a avisar os consumidores da narrativa contida nesse meu livrinho de que quem o teclou não foi o Dr. Jeckyll, nem o Mr. Hyde.
Dito isto, vejo-me obrigado a esclarecer que, nesta questão, não me move a "defesa da língua portuguesa", seja lá isso o que for, como almejam alguns irredutíveis críticos do AO90; tão-pouco, como os seus defensores suspeitarão, me mobiliza o desejo de "imobilizar a língua", seja também lá isso o que for. Não subscrevo a argumentação dos críticos mais jacobinos do AO90, nem me quero confundir com os nacionalistas da gramática. E, claro, não concordo com as razões dos seus convictos paladinos.
Acho que, basicamente, é uma questão técnica, mas, descansem, como me falta suficiência científica, não vou entrar nessa liça; apenas aclarar por que esta espécie de "aviso à navegação" não é uma declaração de princípios. De facto, tem uma natureza diferente daquela em que, nomeadamente, se alicerçam alguns dos entusiásticos utilizadores do AO90: a de que, usando uma imagem desportiva, estão a surfar a onda da modernidade, no postulado de que as mudanças introduzidas pelo AO90 pertencem à corrente do devir histórico. A prová-lo, ajuízam, está um século de acordos (1911 e 1945, além de uns pequenos arranjos). Alguns destes cândidos crentes (sem ofensa!) na construtiva inevitabilidade de, com inábil martelo, regularmente se martelar a ortografia não resistem a recomendar aos editores que acrescentem aos seus escritos: "o autor escreve em conformidade com o AO90", bradando, assim, reiterada e pleonasticamente, a sua opção de sujeitos escreventes. Algo do mesmo género se faz, como é sabido, do "outro lado da barricada".
Ao terminar este texto, continuo pouco confortável. A verdade é que, mesmo sem acreditar na bondade do AO90, vou conformar aos seus ditames um relativamente longo texto que produzi. Sem ser obrigado por qualquer lei ou poder, mas porque, face às circunstâncias, acho oportuno. Como as pessoas se habituam a tudo, não tarda também eu, possivelmente, estou habituado. Há que reconhecer, finalmente: nenhum acordo ortográfico, seja o AO90, seja o AO45, tem a virtude de converter um palavrório rudimentar numa escrita aprimorada.



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Data: 22/05/2020
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