15h22 - quinta, 28/02/2019

Deus e nós mesmos


Fernando Almeida
Desde muito novo me fascinou o comportamento humano em sociedade e as suas variações. Ainda em Lisboa, onde nasci, mas já condutor, observava atentamente o comportamento e a expressão dos automobilistas presos nas intermináveis filas de trânsito da capital. Notei com particular interesse que em certas situações em que duas filas se fundem para criar apenas uma, havia locais em que geralmente reinava a bonomia, a gentileza, a tolerância e a expressão bem-disposta e sorridente dos motoristas. Nesses locais, em regra, passavam alternadamente um automóvel de cada fila, e frequentemente quem passava levantava a mão em sinal de agradecimento a quem tinha cedido a passagem. Noutro caso, à mesma hora e não muito longe desse local, era o caos. Insultos, buzinas, acelerações bruscas para ganhar vantagem sobre os demais, ar carrancudo… E era assim sempre que havia filas, como se cada um dos locais tivesse ganho uma alma própria, mantida pelos passantes habituais, mas que contagiava os que de novo começavam a circular naqueles caminhos.
Naquele tempo não decifrei o enigma: por que motivo gente semelhante, à mesma hora, com a mesma pressa ou vagar, tinha comportamentos tão díspares? Mas hoje, passados muitos anos, passadas muitas filas de trânsito e muitas outras situações de encontro e desencontro entre gentes, já não tenho dúvidas. Os espaços, ou melhor, os grupos de pessoas que os ocupam, criam uma cultura própria, coisa particular e irrepetível, como única que é a conjugação de espaço, de tempo e de gente, que lhe dá origem. Sabe-se que cada circunstância particular cria no ser humano comportamentos distintos, e que o mesmo indivíduo pode ter comportamentos muito diferentes conforme os grupos e situações em que está inserido, e isso não é novo. Mas o que é mais interessante é que esses comportamentos podem contagiar grupos e os espaços onde eles se encontram como cultura que se agarra ao espaço e à sua gente.
O fascinante da situação é que comportamentos como os que observei no trânsito resultam de um fenómeno de "contágio" sucessivo: quando alguém é gentil para mim, tenho tendência a sentir-me bem e ser gentil para os que me envolvem; se alguém me trata de forma desagradável ou hostil, terei tendência para ficar tenso, irritadiço e tratar os que me rodeiam de forma menos agradável. E é em parte por este mecanismo que os grupos de pessoas desenvolvem estados de espírito coletivos perenes que podem parecer inexplicáveis e que, por vezes, são apenas resultado da personalidade de um único indivíduo que se impõe aos demais e os consegue contagiar.
Podendo parecer que não, tudo isto é interessante como aprendizagem sobre o funcionamento do Homem, da sociedade e do mundo, e se desse conhecimento soubermos tirar as devidas lições, teremos vantagens a nível individual e coletivo. Há pessoas que se habituaram a viver mostrando uma expressão mal-humorada a todos com quem convivem, e esse seu mau humor contamina tudo em seu redor. A partir de certo momento todos à sua volta terão um ar pouco feliz, possivelmente mal disposto, pessimista, sisudo… E o espaço envolvente que ele próprio contagiou reforça o seu próprio comportamento inicial: aquele que deu origem ao ambiente negativo acaba por ser influenciado por esse mesmo ambiente, ficar cada vez mais mal-humorado, até que a vida se torna intolerável. Terá então tendência a culpar todos os demais pelo mau ambiente em que vive, sem perceber que, pelo menos em boa medida, esse mau ambiente é responsabilidade sua.
Mais curioso é pensar que como halo invisível que se expande silenciosamente, este estado de espírito negativo ou positivo, pode alastrar e contaminar sociedades inteiras, talvez mesmo povos de países, fazendo-os andar deprimidos ou alegres, descrentes nas suas capacidades ou confiantes e seguros. E esse estado de espírito coletivo é da maior importância para a felicidade e bom desempenho de cada um de nós. Por isso também a postura dos dirigentes da sociedade desempenha um papel importantíssimo na moldagem do espírito coletivo.
Por isso no seu dia-a-dia sorria, seja gentil para os outros, compreenda-os nas suas dificuldades e ajude-os na medida das suas possibilidades, crie um ambiente positivo e bem-disposto à sua volta, que não se vai arrepender certamente. Se criar um ambiente positivo e alegre nos que o rodeiam, receberá deles também uma boa "energia". E, como dizem alguns, mais crentes nas divindades que em nós mesmos, "Deus paga-nos em dobro tudo o que damos aos outros, seja de bom, seja de mau".

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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