10h36 - quinta, 31/10/2019

Lições das eleições


António Martins Quaresma
1. Perfilho inteiramente a opinião de que o argumentum ad hominem, com profusa adjectivação, é inadequado no debate de ideias, particularmente no político. Todavia, há casos em que a natureza dos temas exige que se "chamem os bois pelos nomes".
Vem isto a propósito de certo comentador de futebol, do mais rasteiro do género, que usou a presença televisiva na CMTV como "rampa de lançamento" eleitoral. E que se arvora numa espécie de alternativa virtuosa ao "sistema", sendo, ele próprio, exemplo do que de pior tem o "sistema". As "ideias" que perfilha, em boa parte camufladas no longo arrazoado do programa do seu partido (elaborado por um teórico ultra direitista ad hoc), são a adopção de uma colecção de clichés da extrema-direita fascizante: o inevitável racismo, a xenofobia, o clamor alarmista e securitário (num país conhecido por ser um dos mais seguros da Europa)... Ao diminuto bando dos seus seguidores sobra-lhe frustração e intolerância e falta-lhe saber e exigência de pensamento. Nos concelhos do Alentejo Litoral, o seu score, nas últimas eleições parlamentares, andou por uns escassos 1,4/ 1,5 pontos percentuais.
Numa "dialéctica perversa" (conforme Christian Laval), o neoliberalismo, na realidade um ultraliberalismo – basta uma leitura dos clássicos do liberalismo para ver a diferença – apropriou-se dos ressentimentos que as suas próprias políticas económicas e sociais engendraram. Muitas destes ressentimentos têm-se, algo estranhamente, expressado através da extrema-direita.
O ultraliberalismo actual alojou-se nesta área política e colonizou-a. No programa do partido do dito-cujo, lá está a rejeição do "marxismo cultural" – o seu bicho-papão – e do "multiculturalismo", característica de um ideário que também encontramos no manifesto do odioso terrorista norueguês Anders Breivik, nas mensagens da direita obscurantista tea party americana e no discurso troglodita de Bolsonaro.

2. O Facebook, esse espantoso espaço de comunicação deste "admirável mundo novo", deu voz a vozes bem estimáveis, mas também, segundo a crua lição de Umberto Eco, a uma "legião de imbecis", em roda livre, que, sem estas novas tecnologias, nunca teria possibilidade de se fazer ouvir além do círculo da mesa do café. O mesmo Facebook, passível de instrumentalização, por exemplo através da difusão de simplificações redutoras e descontextualizadas das questões e de fake news, que se tem mostrado muito útil a este tipo de partidos e movimentos.
Em toda a Europa, esta ideologia tem buscado, através desta rede social, afogar o continente em desinformação (relatório Avaaz, Maio de 2019). Na realidade, isso só é possível porque a competência para manusear as ferramentas tecnológicas modernas não corresponde necessariamente a qualquer avanço cultural ou a qualquer especial capacidade para entender o mundo, por parte do sujeito cibernauta.
A Internet alterou a vida das pessoas, de forma muito positiva, nomeadamente possibilitando aquisição, rápida e diversificada, de informação, a quem souber interrogá-la e tiver discernimento para "separar o trigo do joio". Porém, reverso da medalha, a Internet, mormente via Facebook, pode, tal como os órgãos de comunicação tradicionais, tornar-se um risco para a democracia, como o próprio Zuckerberg reconhece.

3. Apesar de o nosso sistema político conter virtudes, a sua organização tem, como é geralmente reconhecido, aspectos bem indesejáveis, desde logo certas práticas partidárias como a de "jobs for the boys", ou a captura do Estado, aos diversos níveis, por interesses particulares e/ou ilegítimos.
A "moralização" da política e do funcionamento do Estado ajudaria muito – concordo com os que isto afirmam – para evitar a irrupção de fenómenos sociopolíticos simultaneamente resultantes e potenciadores da erosão da democracia.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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