12h40 - quinta, 14/11/2019

Mais uma vez, a agricultura!


Fernando Almeida
Nasci em Lisboa, lá cresci, e fiz-me gente entre a classe média da capital, e como era natural nos tempos da minha juventude, vivi rodeado por "intelectuais urbanos de café". Era assim nos Anos 70 do século passado, tempo de idealismos e revolução, e pelo que me parece, continua a ser mais ou menos o mesmo. Aquela gente, os tais "intelectuais urbanos de café", é gente que lê muito, e que a qualquer momento pode disparar uma citação decorada de um autor a quem reconhece capacidade e sabedoria superior, e faz disso a sua própria razão. Mas quanto a pensamento próprio, às vezes, nem por isso…
Ainda hoje gosto de conversar com essas pessoas, tanto pelas velhas amizades, como porque geralmente são bem-intencionados humanistas e sabem argumentar, e ainda porque me lembram as tardes e noites de debates infindáveis, mas inconsequentes, da minha mocidade. Mas com a idade, enquanto eu vim beber realidade ao mundo rural, esses meus amigos frequentemente mantiveram apenas o conhecimento urbano e tornaram-se um tanto dogmáticos e teóricos das "verdades" indiscutíveis de outros tempos.
Por isso, o seu idealismo choca com a realidade da vida do comum dos mortais e das suas atividades produtivas, que geralmente desconhecem por completo. É afinal mais uma reminiscência distante do antagonismo entre teoria e prática, que é também resultado da dicotomia de classes sociais e ainda dos mundos rural e urbano, tão típicos do nosso Portugal. Ainda hoje é difícil encontrar quem concilie com sucesso essas diferentes faces do mesmo mundo.
Muitos deles são hoje "ecologistas" ativos, o que é meritório, tanto pela preocupação com o ambiente que manifestam (e que todos temos que ter cada vez mais), como pelo esforço de militância que despendem em benefício da comunidade e do seu futuro. Portanto deixo claro o meu reconhecimento e admiração a todos os que gastam o seu tempo, esforço e mesmo dinheiro, em atividades altruístas de qualquer tipo, e ainda mais se relacionadas com o futuro do planeta em que os nossos filhos e netos vão viver.
Para ajudar a conciliar a teoria com a prática no particular da agricultura e do ambiente, já tenho pensado convidar um grupo dos que mais vivamente se opõem à agricultura do nosso concelho para um exercício prático de observação do mundo real, para que longe das mesas de café e das "verdades" discutidas à sua volta se possa ver o mundo sem preconceito e como ele realmente é. À falta de poder fazer esse convite pessoalmente a cada um, convido todos para um exercício prático e autónomo de observação da natureza.
Quando tiverem tempo vão por exemplo até à região do Cavaleiro, onde domina a agricultura, com campos abertos semeados, canais de rega e mesmo estufas. Deixem o automóvel na estrada e metam-se por um caminho de terra qualquer. Experimentem fazer uma caminhada, por exemplo de um quilómetro, e vão observando e registando o que vêm.
Ainda que não tenham formação e conhecimento para identificar com segurança as diversas espécies presentes (tanto por observação direta, como pela observação de vestígios, como excrementos, pegadas, regurgitações, etc.), registem o que conseguirem, tanto no que toca a quantidade como no que se refere à diversidade.
Depois viajem até uma área não agrícola, por exemplo a sul do Rogil, onde há campos de matos com esteva curta, tavagueira e outros espaços de poisio ou abandono. Neste local procedam do mesmo modo: um quilómetro, sempre observando e registando o que vêm.
Depois disso terão uma árdua tarefa, provavelmente dolorosa, mas inegavelmente útil. Vão ter que tentar compatibilizar o estereótipo que nos deram a todos como verdade indiscutível, que diz que a agricultura é responsável pelo empobrecimento da vida selvagem, e que os matos sem ocupação humana são ambientes muito ricos, com a realidade que terão certamente observado e que aponta exatamente em sentido contrário. Depois pensem, de preferência a sós e despidos de preconceitos.
Isto que vos proponho não significa de todo que o que acontece nos nossos campos agrícolas seja irrepreensível, ou mesmo recomendável para a vida (a nossa e a selvagem), e que não haja que corrigir com urgência muito daquilo que está mal e não permite a sustentabilidade da nossa terra. Mas isso tem que ser feito com os agricultores, sem os tomar como inimigos, ajudando-os antes a produzir de forma que consigam garantir o seu sucesso económico, a qualidade do ambiente, o equilíbrio da nossa balança agroalimentar, e ainda a comida na nossa mesa a cada dia.
E pensem em tudo isto seriamente, porque estou quase certo que muitos dos que criticam os agricultores e a sua atividade, morriam de fome em pouco tempo se os agricultores deixassem de trabalhar.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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