14h46 - quinta, 12/03/2020

Entre loisas e custilos


Fernando Almeida
Quem me ensinou a montar "custilos" foi um soldado da GNR que nos meus tempos de menino servia na Beira Alta. Aquilo a que se chama de "custilo" na Beira é aquilo que aqui no nosso Alentejo Litoral se chama de "loisa", e que é uma armadilha de arame para apanhar pássaros. A nossa "loisa" de arame herdou o nome das loisas feitas com uma chapa de pedra e três pauzinhos (o "loisão", o "tanchão" e a "vareta") com que em tempos as gentes do campo apanhavam passaritos para aumentar o paupérrimo consumo de proteínas. Montava-se a "loisa" com um grãozinho de trigo ou algum isco apetecível para as aves, e era bem certo que lá caísse um, senão mais que um. Os pássaros eram muitos e a comida das pessoas era pouca. Outros tempos.
Qualquer resto da rama das batateiras que já murcha descansasse na terra depois da colheita, tinha grilos, e à falta de outra coisa, com eles se montavam os "custilos". Imagino que na época já fosse proibida a captura das pequenas aves, mas havia muitas e ninguém via nas aventuras de caça de uma criança mal maior que pudesse vir ao mundo. Por isso as caçadas aos pássaros desse tempo eram normais e até parecia que não faziam rombo nos efetivos, porque havia sempre mais e mais passarada. Havia muitos daqueles que vivem todo o ano entre nós, e ainda havia muito mais no mês de setembro, quando começavam a chegar os que fugiam da ameaça do frio da Europa do norte. Outros tempos.
Era uma abundância em passaritos, mas havia muito mais vida de todos os tipos. Não havia muro ou monte de pedras sem sardão, sem sardaniscas, sem cobra; não havia poça ou fio de água sem girinos; não havia baldio sem coelhos que pela calada da noite viessem comer às cultivadas; não havia fim de tarde de primavera sem que o canto da perdiz soasse um tanto por todo o lado; não havia ribeira sem abundância de peixes que de verão se debatiam pela sobrevivência em pequenas poças e pegos… Outros tempos.
É difícil ou mesmo impossível descrever a abundância de bicharada que havia nesse tempo. Era uma chilreada de pássaros permanente em volta das aldeias, entre hortas, olivais e vinhedos, e de tanta diversidade que havia naquela abundância geral, poucos lhes conheciam a todos os nomes e usos. Para muitos eram apenas pássaros, por vezes com nomes próprios só atribuídos aos mais daninhos, e ainda assim, de modo genérico e impreciso: "gavião" era nesse tempo, na Beira Alta, qualquer ave que fosse um potencial "pilha pintos ou frangos", o que incluía sob a capa do mesmo nome várias espécies diferentes. Lembro-me bem de ouvir dizer: "Ó Manel, guarda os pitos, que anda aí o gavião!". Havia muitos. Outros tempos.
Às vezes essa abundância era desesperante porque competia connosco nas colheitas: quando caía um bando de estorninhos numa figueira, em poucos minutos só ficavam as folhas e as peles dos figos esventrados. Várias vezes me levaram a melhor na colheita matinal da fruta madura… mas era assim, era a parte que a natureza reclamava para si por toda a abundância que nos dava. Por isso os espantalhos estavam tantas vezes, como gente imóvel crucificada entre milharais e pomares, a tentar enganar a bicharada. Mas eles eram finos como ratos, e em pouco tempo usavam os braços do espantalho de pau e palha centeia, como poleiro para as suas razias às culturas. Eram outros tempos.
Mesmo na moscaria que apoquentava gentes e animais se nota diferença de monta. Era uma guerra permanente a enxotar as moscas de dentro da fresquidão das casas no tempo em que o calor mais apertava na rua. Os gafanhotos saltavam às dúzias a fugir de nós ou contra nós a cada passo, e as borboletas, grandes e pequenas e de cores várias, flutuavam entre campos agrícolas, pastagens e matos. Quando se viajava de carro, nas "loucas velocidades" que as velhas estradas estreitas e esburacadas permitiam, o para-brisas ficava em pouco tempo salpicado com os pobres insetos que se atravessavam no caminho. Eram tantos que, volta não volta, logo que se parasse o carro por qualquer motivo, havia que lavar o vidro. Eram mesmo outros tempos.
Nas noites de verão os morcegos voavam aos bandos, e os miúdos, com uma cana levantada na vertical bem alto acima da cabeça, iam cantado ritmadamente "morcego, morcego, a cana tem sebo". E esperava-se que um morcego desorientado ou sem detetar a cana (se calhar por ter sido untada com sebo) chocasse e caísse ao chão. Quando os morcegos não queriam colaborar, havia sempre um ouriço-cacheiro que aparecia a vasculhar as imediações e dava pretexto para brincadeiras dos jovens. Eram outros tempos.
Mas aos poucos, tudo se foi acabando, desaparecendo de todo ou rareando. Primeiro quase sem que se desse por isso, depois de modo mais evidente, e agora de forma verdadeiramente assustadora. Que se passa? Aquilo a que alguns cientistas chamam a sexta extinção em massa, está realmente a acontecer diante dos nossos olhos, e nós, ainda inconscientes da gravidade do problema, nada mudamos nos nossos comportamentos para que a situação se inverta.
Alguém pensa que podemos viver num mundo sem vida? Não estará mais que na hora de colocar o futuro do mundo como algo mais importante que o clube de futebol ou a novela da noite? E já agora, e de uma vez por todas, arrumem as loisas onde ninguém as veja e onde sejam esquecidas por muitos anos. Já basta de destruir a vida.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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