15h03 - quinta, 26/03/2020

O vírus do "nosso descontentamento"


António Martins Quaresma
Era quase inevitável. Esta crónica tinha de ser influenciada pela crise do Covid-19. Depois de um período inicial em que o tópico "coronavírus" foi principalmente motivo para uma caricata pirotecnia mediática, em todo o caso alarmante; depois de o vírus ter sido apresentado como sendo escassamente mortal (mesmo agora foi divulgado que, em Wuhan, terá sido de 1,4%, ou menos, segundo um estudo citado pelo "Expresso", 19.03.2020) e o era sobretudo para idosos com outras doenças associadas; depois de tudo, como se chegou a este ponto?
O que está a ocorrer em Itália e, mesmo, em Espanha, onde aparentemente a morbilidade e a mortalidade são significativamente superiores, mais na linha das percentagens que têm sido avançadas pela OMS? E, para maior infelicidade, que dimensão vai ter a prevista hecatombe económica sequente à crise sanitária?
Muitas perguntas estão ainda, naturalmente, sem resposta cabal, e esta crónica não pretende fazer análises para que o seu autor não tem, definitivamente, competência.
Por curiosidade, durante a primeira semana da crise, no Alentejo, em geral, e no Alentejo Litoral, em particular, a situação não foi problemática. Durante alguns dias, o Alentejo surgiu, mesmo, aos olhos dos portugueses como uma espécie de último reduto de resistência ao vírus, uma espécie de aldeia gaulesa do Asterix, dando origem às habituais anedotas. Ainda agora, o Alentejo é a região com menos casos registados (12), aliás sem qualquer fatalidade.
No meio disto tudo, vem-me à lembrança a epidemia de 1918, a mortífera "Pneumónica", como ficou conhecida em Portugal, vulgarmente chamada, na Europa e na América, "Gripe Espanhola", embora ela não tivesse o seu início em Espanha. Recordo as epidemias de varíola, de cólera e outras, recorrentes desde a Idade Média até quase aos nossos dias. E, claro, a malária, doença endémica, nomeadamente no Litoral Alentejano, só extinta em Portugal, no século XX. Lembro ainda as medidas tomadas nos portos de mar para evitar contágios, as quarentenas a que estavam sujeitas as tripulações e passageiros dos navios, os cordões sanitários ao longo das fronteiras, criados no século XIX.
Mas há uma epidemia viral, na realidade uma pandemia, também com origem na China, que faz parte das minhas recordações de infância (estava a fazer 12 anos quando começou): a Gripe Asiática, que grassou em Portugal, entre Agosto e Outubro de 1957. À escala mundial, a "Asiática" terá dizimado até dois milhões de pessoas. No nosso país, ela também deixou um número significativo de óbitos, sabendo-se que, em Lisboa, eles atingiram o número de 288, e avaliações médicas, efectuadas em 1958, estimaram que no País ascendeu aos 1.050 mortos. Naturalmente, a estrutura de saúde pública era, à data, muito deficiente, não só no atendimento dos casos, como no seu registo.
Hoje, com o Covid-19, Portugal pode contar com um Serviço Nacional de Saúde, que, não obstante as inimizades e malfeitorias neoliberais que tem sofrido, não obstante mesmo as insuficiências mais ou menos conhecidas, assegura uma cobertura médica organizada em todo o território nacional, destinada a todos portugueses, não apenas aos que têm dinheiro.
E mesmo que estejamos apenas no início da fase do crescimento exponencial do número de infecções, há razões para pensar que as medidas tomadas para enfrentar a crise têm sido apropriadas e que nosso SNS, eventualmente com ajuda da capacidade privada instalada, é um trunfo poderoso. Mais ainda, se, neste momento, olharmos para o que se passa em muitos outros países, alguns de grande poder económico, a comparação não pode deixar de ser francamente favorável a Portugal.
Termino com mais duas questões, que me assomam e assustam.
Primeira: se tudo isto ocorre com um vírus de baixa letalidade, como seria se estivéssemos perante um novo vírus de alta letalidade, do tipo Ébola?
Segunda: apesar de todo o desenvolvimento científico e tecnológico dos nossos dias, está o modelo neoliberal, que cada vez mais organiza (infecta?) as nossas sociedades, inerentemente apto a defender a saúde das pessoas, ou vamos regredir a épocas que julgávamos passadas?

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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