16h06 - quinta, 16/09/2021

Miguel Peixinho


Rui Graça
Nota Prévia: O novo regulamento térmico publicado em Junho inclui uma cláusula de excepção para a construção em taipa (reabilitação ou construção nova) que permite um valor máximo de U=1.3, ou seja, quase duplicou (era 0,5 ou 0,7, conforme o enquadramento).
Gratifico-me com o facto da oportunidade de divulgar a construção em taipa ter contribuído para que se ajustassem os valores acima referidos, tão importantes para a viabilidade deste tipo de construção, como referi em crónicas anteriores. A decisão foi técnica, com um contributo decisivo da Engª. Paulina Faria da Universidade Nova de Lisboa, a quem expressei o bloqueio que a situação anterior estaria a provocar às novas construções em taipa. Também politicamente houve interesse em resolver o problema, o que revela que o tema não é indiferente à nossa região.
Congratulo esta conquista que revela que a união ainda faz a força e a discussão ainda traz a luz!

Crónica 10 – Miguel Peixinho

Não é preciso um segundo olhar para percebermos que o Miguel é um espírito livre. O próprio cabelo revela que o vento é a sua estrada. Quanto ao seu veículo, pode ser um veleiro, onde é peixinho na água, mas é habitualmente a sua mota de aventura, que o acompanha nas suas travessias do Alentejo.

…A sua liberdade aumenta no momento de projectar. Quando visitei a sua casa, a primeira sensação foi de perder o eixo. O ângulo dos rústicos pilares de madeira do telheiro leva-nos a um mergulho no vale, lindo, do principal afluente do Mira. Uma das janelas assumiu a forma de uma racha na taipa que o tempo consolidou e que faz entrar a luz por raios de sol. Ao contrário do que todos faríamos, a salamandra está no exterior, ao lado de uma mesa de desenho, porque é no exterior que o Miguel gosta de projectar, sob as estrelas do céu negro dos Troviscais.

Se a originalidade dos ambientes acima descritos o está a remeter para imagens de uma casa estrambólica, desimagine-se! O Miguel combina todo o seu arrojo com integrações imaculadas na natureza e total respeito pela cultura local. Para esse efeito contribui a criteriosa escolha de materiais, predominantemente naturais e locais, como a telha de baixa cozedura, a pedra aparelhada, a madeira rústica e, sempre que se justifica – a taipa.

RG – A tua arquitectura é a prova viva de que a Arquitectura Alentejana é perfeitamente adaptável às mais arrojadas e inovadoras formas de vida. Podes explicar a tua ideia de arquitectura alentejana e a forma como se manifesta nas tuas obras?

MP – A minha ideia de arquitectura alentejana passa por conseguir proporcionar aos meus clientes uma leitura clara e evidente deste território. Poderia dizer que assumo um papel de tradutor, traduzo ideias, programas e muitas vezes imagens de quem me procura para que as obras se integram de forma natural e positiva na fabulosa paisagem e cultura da região. Neste processo de aproximação a este território, apaixonei-me pelas antigas casas da região, sendo muitas vezes o ponto de partida físico dos meus projectos. Sou, como disseste um adepto dos recursos locais (ao invés de soluções globais cada vez mais estandardizadas) dos quais me sirvo e ao mesmo tempo estimulo para resultados arquitectónicos verdadeiramente sustentáveis e singulares.

Existe ainda um factor relevante, característico e próprio do Alentejo, a luz que fascina o mundo da arquitectura, e particularmente nesta latitude, em que a sua abundância nos faz reflectir sobre o seu uso adequado. As tipologias habituais, para além da sua utilização nos espaços interiores fazem-me reflectir bastante nos espaços exteriores: terraços, pérgulas, pátios ou telheiros, espaços estes que normalmente complementam de forma imprescindível os espaços interiores, quer em vivência quer em composição. Fazem a ligação à envolvente paisagística, muitas vezes em estado puro e duro.


RG – O meu professor do último ano da faculdade, o Manuel Aires Mateus, aconselhava-nos a não desperdiçar uma única oportunidade para exercer boa arquitectura, por mais insignificante que parecesse o projecto. Essas palavras ecoaram quando me deparei com a pequena garagem que fizeste no aglomerado dos Troviscais. Eu diria que aquela pequena construção com cerca de 20m2 estaria condenada a ser um anexo manhoso (como tantos que infelizmente vemos na paisagem) mas não, a tua interpretação dos mourões criou uma silhueta à pequena garagem, toda branca, que dignifica o conjunto de casinhas onde se insere. Quando soube que tinhas sido tu o projectista tirei-te o chapéu, sem te conhecer ainda. Revelaste nesse projecto uma ética e um respeito profundo pelos lugares que transformas! Se fosses professor de projecto, que conselho darias aos teus alunos no caso de projectarem no Alentejo?

MP – Eu lembro-me de ter lido as teorias do famoso arquitecto Christopher Alenxander (bem conhecido por ser dos primeiros a criticar a arquitectura modernista pela degradação social que provocava). Ele dizia que para se projectar consistentemente para uma família seria necessário viver com essa família cerca de seis meses…

À semelhança de Christopher Alexander, eu aconselharia esses jovens arquitectos a viverem seis meses, mas no Alentejo, na região onde projectassem. Acho deveras importante sentir as cores, os ventos, os cheiros e as diferentes luzes do dia, nas diferentes alturas do ano. Conhecer as casas antigas, sentir a força e sensibilidade da terra das suas paredes, perceber as cores das pedras, dos barros e o branco próprio da cal. Da mesma maneira que o projecto de uma casa não deve ser estranho para os hábitos de uma determinada família, muito menos deve ser estranho numa região sensível e natural como a nossa.

Acho igualmente importante ler e interiorizar, com humildade, os Regulamentos Municipais. Eu revejo-me bastante no Regulamento Municipal de Odemira que, por mais antigo que seja, mantém presente a necessidade de perpetuar algumas características intrínsecas da arquitectura regional: a proporção dos vãos, a dominância do branco nas fachadas ou a importância de um determinado tipo de telha nas coberturas, por exemplo.


RG – Como sabemos, o Alentejo é muito grande e manifesta diferenças arquitectónicas, às vezes significativas de região para região. Ao contrário de Évora, onde as chaminés são grandes e há diversos ornamentos nas fachadas, nos Troviscais, onde te sediaste, fruto da pobreza e do relevo, muitas casas tinham apenas uma água, chaminés pequenas e raríssimos ornamentos. Pode dizer-se que a influência do essencial contribuiu para a imagem moderna da tua arquitectura?

MP – Claro que assumo a influência das referências que me cercam. Tento que essas imagens estejam espelhadas nas minhas obras, o que só acontece depois de uma evolução profunda e muito criativa desses princípios. As exigências modernas são enormes, quer em termos programáticos quer em termos legais. Dito isto pode parecer capricho a insistência no arquétipo da arquitectura local, mas penso que não é: Tenho obtido excelentes resultados, mesmo em exigentes unidades de Turismo Rural, como o Monte da Vilarinha em Aljesur, por exemplo. Os materiais locais e naturais, para além de serem muito apreciados e "venderem" bem os espaços, têm envelhecimentos muito nobres, factor que valorizo bastante… (quantas Câmaras Municipais, Escolas ou Teatros não conhecemos com centenas de anos a exercerem cada vez mais fascínio a quem os usa).

Por vezes tenho clientes que me procuram mas trazem imagens de arquitecturas que eu entendo que não se coadunam na região. Lembro-me de uma senhora insistir em ter uma janela de 5 metros pela altura da casa. Eu disse-lhe que poderia ter essa janela mas seria necessário combiná-la com uma área de parede de dimensão equilibrada. A esmagadora maioria dos clientes, no processo de projecto, acaba por perceber a relevância do arquétipo da arquitectura regional, mais facilmente ainda numa base simples como as casas dos Troviscais que referes, eventualmente mais moldável e de imagem mais depurada, como tantas vezes se deseja. Por outro lado, a experiência tem mostrado que a "arquitectura moderna cliché", de aspecto mais ou menos minimalista, cobertura plana e muto vidro, das duas uma: ou é exorbitantemente cara (o que revela a sua insustentabilidade) ou é perigosamente propícia a problemas sérios na sua manutenção…

Como disseste e bem, nem sempre recorro à taipa, mas sinto a obrigação de recorrer à arquitectura alentejana e aos recursos locais. Mesmo assim, tenho a dizer que, a experiência de projectar em taipa contribuiu muitíssimo para apurar a lógica das volumetrias e proporções próprias da arquitectura local. É realmente um exercício altamente pedagógico que, mais do que uma aproximação à técnica revela-se uma aproximação ao espírito intemporal de uma região!


Conclusão:
Numa de muitas conversas com um arquitecto amigo meu, que me visita regularmente ao Alentejo, lamentava ele a pobre integração de uma grande construção dessa "arquitectura moderna cliché", acrescentando que a linguagem "vanguardista" em causa estaria fora de moda.

Ao mesmo tempo que me veio a evidência de que qualquer obra arquitectónica que passe de moda ou perca a relevância no seu tempo de vida útil é um fracasso, tive de reflectir sobre a existência dessa moda e como se manifesta na nossa sociedade.

Lembrei-me dos anúncios de automóveis, principalmente dos que mais apelam a um carácter tecnológico, como os BMW, por exemplo. As casas que acompanham esses carros, para reforçarem a modernidade dos seus proprietários são sempre edifícios de excepção mas que nos últimos anos têm mudado substancialmente, acompanhando a moda. Há uns anos eram casas brancas, sempre com cobertura plana e muito vidro, depois começámos a ver apontamentos mais orgânicos como madeira ou pedra natural. Actualmente, já não me espantaria ver cortiça aparente nessas casas, já que os próprios carros mais vanguardistas apregoam com maior veemência materiais sustentáveis na sua construção, muitas vezes a própria cortiça. Eu diria mesmo que não estamos livres de ver um dia destes uma casa do Miguel Peixinho num anúncio a um "BMW" X12…

É natural que as casas reflictam a personalidade dos seus donos mas, como reforçou o Miguel, sem que descaracterizem os locais onde se inserem. Quem não conhece inúmeras vivendas dos anos oitenta e noventa, à saída das localidades, com complexos jogos de telhados, entradas com azulejos folclóricos e jogos de escadas manhosos? As casas dos denominados patos bravos ou novos-ricos, a quem a vida trouxe fortuna mas não muito gosto ou cultura. Casas mal pensadas que cumpriam essencialmente função de ostentação económica. Casas tão feias e descaracterizadoras que o tempo, infelizmente, nunca as vai branquear.

O pato bravo ou o novo-rico do novo milénio, para não se enganar, em vez dos inúmeros telhados, jogos de escadas ou entradas com azulejos, opta pela arquitectura "minimalista" e "vanguardista". Na verdade o pato bravo é uma espécie em vias de extinção e o novo-rico, muito mais do que dinheiro, hoje em dia, quer ostentar cultura, modernismo ou mundo, como agora se diz. O problema é que grande parte destas casas "minimalistas" ou "vanguardistas", tal como as casas do pato bravo original, são mais caras e igualmente descaracterizadoras dos lugares que as recebem. Já o tempo, não as vai branquear, vai desmascará-las!

Se há, obviamente, fabulosos exercícios de design e construção diferenciada, os mesmos, como é próprio da arquitectura, não se integram em qualquer local nem de qualquer maneira. Há que haver critérios sensíveis para o uso de composições arquitectónicas distintas das que caracterizam as regiões, por isso mesmo, caro leitor, se está planear construir a sua casa moderna, veja bem se a mesma não fica fora de moda no momento em que estiver pronta…









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