16h22 - quinta, 27/01/2022

O nosso Serviço Nacional de Saúde


Fernando Almeida
Alguns, quando olham para a floresta, não conseguem ver toda a deslumbrante riqueza de vida que ela contém, e pelo contrário procuram apenas encontrar as árvores podres que por lá existam…
Um dia já distante, numa cidade igualmente distante, vi-me obrigado a passar a tarde em espera numa esplanada. Para mim as esperas são geralmente difíceis de suportar a menos que encontre algo de interessante para me entreter. No caso, a salvação parecia poder vir de um livrinho que andava no carro e que assim me poderia ajudar a matar o tempo.
A esplanada tinha vista para uma ruazinha por onde passavam automóveis vagarosos e peões atarefados entre o trabalho e as compras ou a casa. Numa mesinha próximo de mim estava um figurão de pouco mais de meia-idade, que mesmo sozinho ia tecendo comentário sobre os transeuntes, mas fazia-o em voz alta de modo a ser ouvido em toda a esplanada. Nas horas que em vão tentei ter sossego para ler, ouvi os seus comentários sobre os passantes, e em nenhum deles o figurão via fosse o que fosse de positivo. Na visão do meu vizinho de esplanada ninguém era bom, ninguém trabalhava devidamente, ninguém educava os filhos da forma recomendada, ninguém era honesto… Todos tinham defeito, fosse a opção sexual, fosse a cor da pele, fosse o corte de cabelo, fosse a roupa, fosse a prestação no trabalho…
A certo momento, para alívio dos utilizadores da esplanada, o sujeito enfiou-se no carro e desapareceu. O dono do café soltou um suspiro de alívio e sorriu para mim ao tempo que encolhia os ombros, e foi dizendo: "Este homem só sabe dizer mal de tudo. Quem o ouça pode pensar que é um cidadão exemplar, mas é exatamente o contrário. Nunca trabalhou, e nem para estudar prestava; vive do que os pais lhe deixaram, e com o passar dos anos vai destruindo toda a herança. E para ele os outros é que não prestam…". A conversa de ocasião com o dono do café conduziu-nos à constatação que ao longo da vida tenho confirmado: são muitas vezes os que menos trabalham que têm tendência a desvalorizar o que os outros fazem de bom e a centrar a sua atenção naquilo que corre menos bem. Por isso, quando vejo a crítica fácil e destrutiva e a não valorização do mérito dos outros, lembro-me do triste figurão dessa esplanada.
O dito indivíduo que em tudo punha defeito é um caso extremo da nossa cultura que tende a ser negativa na apreciação do mundo e da vida. Vemos muitas vezes o que há de pior, seja no nosso vizinho, seja no nosso empregado ou patrão, seja nos nossos serviços públicos, seja nos nossos políticos, e esquecemos de apreciar o que qualquer deles tem de bom. Esta forma de ver o mundo, em que se hipervalorizam os defeitos e se desvalorizam as nossas virtudes, tem criado uma autoimagem dos portugueses bastante má, reduzindo a nossa autoestima e a valorização do que é nosso. Em aparente paradoxo temos tido tendência a enaltecer os povos estrangeiros, valorizando sobretudo o que eles têm de bom, e esquecendo de observar que também eles têm coisas que poderiam ser bem melhores. Felizmente essa forma de nos vermos a nós mesmos está a mudar, e já percebemos que temos coisas muito boas que vale a pena realçar, e que, se temos outras que estão mal, então teremos simplesmente que as melhorar.
Num outro tempo mais recente, e num local bem mais próximo, fui forçado a fazer umas pequenas "férias" num hospital da nossa região, com partida no nosso Centro de Saúde. Tenho ouvido críticas ao nosso Serviço Nacional de Saúde desde a sua fundação. Recentemente essas críticas atenuaram-se pela constatação óbvia da sua importância fundamental no combate à pandemia, e pelo reconhecimento do seu papel insubstituível quando a situação realmente se torna complicada. No entanto, continuo a ouvir quem só encontre problemas e vícios no nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), e por isso registo aqui uma observação de experiência feita.
Vou ser claro: todos os funcionários do SNS com que me cruzei nestas "férias" hospitalares forçadas, médicos, enfermeiros, técnicos de várias especialidades e auxiliares, tiveram uma atitude profissionalmente cuidadosa e bastante amigável comigo. Mas não apenas comigo, as enfermarias em que me "hospedei" tinham outros "turistas" como eu, geralmente mais velhos, e alguns francamente difíceis de cuidar por apresentarem já um estado mental menos bom. Ouvi repetidamente as tentativas de alimentar ou medicar esses "turistas", com palavras ternas do tipo: "Oh minha princesinha, tem que comer um bocadinho, senão fica fraquinha. Vá, só umas colherinhas…". E este tipo de atitudes era regular e constante, tendo os "hóspedes", além dos cuidados médicos resultantes dos tratamentos prescritos, os cuidados postos na relação humana, que tão importantes são para o bem-estar e para a recuperação daqueles "hóspedes". Exames vários e frequentes de diagnóstico, completados com uma viagem a outra "unidade turística" para realizar uma intervenção mais complexa, sempre acompanhado de um enfermeiro e dois bombeiros, e sempre sentindo que estava a ser cuidado com respeito e atenção. Mas mesmo a alimentação do "estabelecimento hoteleiro" não me deixou queixas, muito embora me servissem uma "dieta ligeira" apropriada ao meu estado.
No dia em que me despedi daquela unidade "hoteleira" dirigi-me à secretaria julgando que teria que "fazer contas" e pagar as custas de tão diversificados serviços. Mas não, nada havia a pagar. Afinal durante anos descontei para garantir a saúde dos meus concidadãos, e naquele dia foram eles que garantiram a minha saúde. Sei que nem sempre corre tudo assim tão bem; sei que em muitos milhares de pessoas que trabalham nos nossos serviços de saúde pode haver um ou outro que pode ter um dia mau (ou que tem muitos dias maus); mas sei também que o Serviço Nacional de Saúde e a maioria das pessoas que nele trabalham me fazem ter orgulho de ser português.
E já agora, não vão na conversa dos figurões que falam alto nas esplanadas. São uns aldrabões.



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