10h20 - quinta, 10/02/2022

Há 60 anos...


António Martins Quaresma
Já o ano anterior, de 1961, tinha sido o annus horribilis do regime de Salazar: início da revolta em Angola, tomada do navio "Santa Maria", assalto ao quartel de Infantaria 3, em Beja, invasão de Goa pela União Indiana e até uma tentativa falhada de golpe de estado, chefiada pelo General Botelho Moniz. "Horrível" também para uma geração que, nos 13 anos seguintes, foi mobilizada para as três "frentes" da guerra em África.
Com os meus 16-17 anos de idade, lembro-me bem desses factos: um vizinho meu era marinheiro no "Santa Maria", um amigo da família estava em Goa, como militar, e, no rescaldo do assalto ao quartel, com temor de que fossem desembarcadas armas no Litoral Alentejano, um forte contingente da GNR foi para aqui enviado e utilizou a estação dos CTT de Milfontes, de que era chefe a minha mãe, para as suas comunicações. Entrementes, eu ia lendo nos jornais, "O Século" e o "Diário de Notícias", controlados pela Censura, a versão oficial destes acontecimentos.
No ano seguinte, de 1962 – perfaz agora 60 anos –, vários focos de agitação política, agora no próprio do país, fizeram tremer o regime. Na Universidade de Lisboa, a propósito da proibição da celebração do "Dia do Estudante", a 24 de março, os estudantes reagiram e foram reprimidos pela polícia e condenados a penas de expulsão. O descontentamento estudantil, apoiado por muitos professores e outros intelectuais, estendeu-se a Coimbra, com a habitual resposta intransigente e violenta do governo e dos órgãos dirigentes universitários. No fim do ano, porém, o governo retomou o controlo da situação na Academia, pondo fim ao que ficou conhecido por "Crise Académica de 1962".
Entretanto, ocorreram no Porto e em Lisboa manifestações "contra o fascismo", consideradas "subversivas" pelo governo, que as atribuiu a maquinações dos comunistas. De facto, o Partido Comunista Português, então a única força política com capacidade de organização e mobilização, embora na clandestinidade, dava corpo ao descontentamento de vários sectores da população, em especial nas cidades e nos campos do Alentejo. Datas como o Dia Internacional da Mulher (8 de março) e o Dia do Trabalhador (1 de maio) ficaram assinalados com greves e manifestações, sempre violentamente reprimidas.
No Alentejo, a dura luta pelo aumento salarial e pelo fim do horário "de sol a sol" desencadeou um conjunto de greves dos trabalhadores agrícolas, um pouco por todo o lado, que conduziu à conquista das oito horas diárias de trabalho, que já era praticado nos outros sectores da economia.
O regime teve um inesperado aliado, no dia 2 de maio: a vitória do Benfica sobre o Real Madrid por 5 a 3, no Estádio Olímpico de Amesterdão, na final da Taça dos Campeões Europeus. De ouvido nas telefonias ou de olhos postos nas imagens a preto e branco das poucas televisões existentes, as atenções viraram-se para os golos de Águas, Cavém, Coluna e Eusébio (dois), e o assunto dominou durante alguns dias, ao mesmo tempo que a Censura silenciava muitas das lutas sociais.
Esta efeméride, que muito resumidamente aqui trago, contém uma outra lembrança particular, que hoje raras pessoas no concelho de Odemira, ou mesmo em Vila Nova de Milfontes, conhecerão. Trata-se da morte de uma senhora desta terra por uma bala da polícia salazarista, no dia 8 de maio de 1962, em Lisboa. Refiro-me a D.ª Francisca Bezerra, que tinha ido à capital e, quando se aproximou da janela da pensão onde se alojara, no Arco do Bandeira, foi baleada mortalmente. Houve quem dissesse que tinha sido uma bala perdida, mas também quem afirmasse, com boas razões, que a senhora havia sido alvejada. O certo é que o marido, Sr. José Francisco, um marinheiro reformado, que passara boa parte da vida a bordo de um navio americano, foi incomodado pela PIDE, como se se tratasse de um perigoso agente revolucionário. Em lugar de se responsabilizar pela morte da pobre senhora, o regime preferiu perseguir o inocente familiar, que só saiu do sarilho por influência de alguém conhecido e com poder suficiente para interceder.
Neste momento histórico em que, na terra que me viu nascer e onde vivo, a ignorância crassa se tornou virtude (e o maior problema é que não é só aqui), lembrar esses acontecimentos de há 60 anos, em jeito de memória pessoal, foi uma espécie de necessidade.



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