10h11 - quinta, 10/03/2022

E pur si muove


António Martins Quaresma
1. Sempre que, nós os que vivemos perto do mar neste litoral alentejano, olhamos as regulares e diárias oscilações do nível do mar, produzidas pelas marés, é a dois homens de ciência – Galileu Galilei e Isaac Newton – que devemos perceber o fenómeno, nomeadamente a influência que a Lua nele tem.
Não é, contudo, por isso que a figura algo dramática de Galileu (1564-1642) é mais conhecida, mas por se ter envolvido numa célebre questão sobre geocentrismo e heliocentrismo, na qual defendeu que a Terra girava, com outros planetas, em volta do Sol. Antes, Copérnico havia formulado a mesma teoria, que seria publicada depois da sua morte. Recordemos que o geocentrismo fora defendido na Antiguidade por Aristóteles e, depois, elaborado por Ptolomeu, e constituía a base "científica" que confirmava o que se entendia ser a cosmogonia bíblica. No fundo, esta concepção tinha por base a ilusão do observador colocado no planeta Terra.
Quando, há cerca de quatro séculos, no quadro religioso e político da Contra-Reforma, Galileu, esmagado pela pressão do poder, murmurou o seu inconformado "e, no entanto, ela move-se", ele era um homem vencido, mas não convencido. O heliocentrismo que defendia, baseado em sólido conhecimento astronómico, podia esbarrar na invencível armadura ideológica da ordem pós-tridentina, mas a ciência emergia nas suas palavras, embora timidamente, sobre as convenções e a ameaça do terrível braço do tribunal da Inquisição. O exemplo de Giordano Bruno, o dominicano acusado de heresia e condenado à morte na fogueira, poucas décadas antes, não terá deixado de ensombrar os dias do nosso astrónomo.
Não é hoje possível afirmar categoricamente que a frase atribuída a Galileu foi dita pelo próprio, ou se se trata de uma tradição sem correspondência factual, mas não há dúvida sobre as agruras por que passou.

2. A Inquisição, um tribunal que julgava delitos contra o pensamento da Igreja Católica Romana, percorreu a história de alguns países dominantemente católicos. Foi introduzida em Portugal, em 1536, ao tempo de D. João III, acabando extinta apenas no século XIX. O seu papel de controlo social foi muito relevante: sob a sua alçada caíram sobretudo os cristãos-novos, isto é, os descendentes dos judeus que se tinham convertido ao cristianismo para fugir à expulsão do reino ordenada em 1497. Acusados frequentemente de "judaizar", quer dizer, de praticar a antiga religião no segredo de suas casas, muitos foram torturados e mortos na fogueira, em espectáculos públicos bastante apreciados pelo povo, que achava justo fazer pagar com a vida os representantes do povo que havia matado Cristo (como se Jesus não fosse, também ele, judeu).
Havia antecedentes da perseguição a esta minoria na sociedade portuguesa, como aconteceu no pogrom de 1506, em que vários milhares de pessoas de religião hebraica foram massacrados pelo povo de Lisboa. Tudo começou quando, num ano de seca e de peste, alguém, durante a missa na igreja de São Domingos, creu ter visto uma imagem de Cristo milagrosamente iluminada, e, alegadamente, um cristão-novo explicou que se tratava apenas do reflexo de uma luz. Tanto bastou para que, incitada por fanáticos frades dominicanos, a turba se lançasse sobre os pobres judeus/cristãos-novos, arvorados em "bodes expiatórios" das desgraças que afligiam a comunidade.

3. Nas sociedades, como a nossa, em que a religião perdeu a capacidade de mobilização de outrora, as reacções pavlovianas das massas não desapareceram, contudo, pois as multidões são agora mobilizadas por outros agentes, munidos de novos meios de grande alcance e eficácia. Sempre em nome de respeitáveis razões – seja para condenar, ou defender, uma guerra de agressão, ou outra qualquer causa – manipulam-se as mentes, e, suspendendo os próprios princípios da democracia que nos organiza como sociedade, é como que imposta uma só narrativa, aquela que vê a realidade a "preto e branco", a que, afinal, melhor convive com o falseamento da verdade.
Mas, mesmo nestas situações, ocorrem lampejos de lucidez, de honesta reflexão baseada em conhecimento, como aquela que a frase atribuída a Galileu pode simbolizar – bem necessários hoje, quando a insanidade predomina e as ameaças sobre a humanidade se avolumam no horizonte.



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