14h57 - quinta, 07/04/2022

Há 120 anos: "Russofobia" em cartoons


António Martins Quaresma
1. Russofobia é, segundo o dicionário Infopédia, da Porto Editora, a "aversão à Rússia e ao que é russo". Portanto um conceito com suficiente antiguidade para merecer dicionarização. Na verdade, trata-se de uma realidade cujos primórdios remontam ao século XVIII.
A ideia de que os russos eram conservadores em extremo e avessos aos esforços reformadores, enfim uns "bárbaros", que constituíam um perigo para o resto da Europa, foi difundida na França, ao tempo de Napoleão. Este acabou por invadir a Rússia (1812), chegando a ocupar Moscovo, mas foi forçado a fazer uma desastrosa retirada, sob as duras condições do Inverno russo. Uma brigada portuguesa, integrada no exército francês após a invasão napoleónica a Portugal, participou nesta campanha.
Na segunda metade do século XIX, os impérios russo e inglês entraram em confronto em diversos pontos da Ásia, e, entre 1853 e 1856, a Rússia, por um lado, e uma coligação constituída pela França, Inglaterra, o Reino da Sardenha e o Império Otomano, por outro, opuseram-se na Guerra da Crimeia, que a Rússia perdeu. Mais uma vez, nos países da Europa ocidental, em especial na Inglaterra, a propaganda de guerra difundiu os clichés anti-russos, cuja intensidade oscilou consoante os eventos da política internacional.
Na I Guerra Mundial, a Rússia seguiu o lado da Sérvia e dos países ocidentais, mas, com a instauração da União Soviética, o antigo sentimento anti-russo recrudesceu no Ocidente, agora sob o temor do comunismo. No entanto, na II Guerra Mundial, a Rússia terminou aliada às potências que combatiam a Alemanha nazi, cuja filosofia racista via os eslavos como inferiores. A Guerra Fria que se seguiu opôs dois blocos, de diferentes ideologias políticas e representados militarmente pela NATO e pelo Tratado Varsóvia. Com a queda da URSS, houve um momento de apaziguamento, mas mais recentemente a imagem negativa da Rússia, sob a presidência de Putin, voltou a crescer no Ocidente, atingindo o paroxismo com a recente invasão da Ucrânia, numa extraordinária reacção que não tem paralelo em qualquer das guerras dos últimos anos, na Europa, ou fora dela.

2. Na viragem do século XIX para o XX, o tema está ilustrado por inúmeros cartoons ingleses e americanos. Uma revista humorista, a "Puks", editada em Nova Iorque, inicialmente em língua alemã (o seu editor era de origem austríaca), publicou caricaturas e sátira política, a cores, contemplando frequentemente a Rússia, que surge retratada de forma em geral depreciativa.
Fazendo parte de um conjunto de mapas então publicados, o da fig. 1, de origem inglesa, com o título "John Bull and his friends", datado de 1900, mostra a Europa, onde a Rússia é representada por um polvo, tendo na cabeça o retrato do czar Nicolau II, que estende os seus tentáculos sobre o continente europeu (Finlândia e Polónia) e o asiático (Afeganistão e Pérsia). Curiosamente, Portugal é representado pela figura do rei D. Carlos, que segura na mão a chave de Delagoa Bay, a baía de Lourenço Marques, e a legenda diz que está satisfeito por pensar que tem a chave da situação, referência à situação colonial na África Austral.
A segunda (fig. 2), extraída da revista "Puck", é de 1902 e tem a legenda "The latest chinese wall (A última muralha chinesa)". Nela, um urso que, como era habitual, representa a Rússia, de sabre em riste, mostra, feroz, os dentes às outras potências (Japão, Inglaterra, Alemanha, França, Itália...), enquanto a China, atrás, se ri. Mais uma vez, a Rússia surge isolada, embora ameaçadora, ilustrando a situação política.
A terceira (fig. 3), retirada também da revista "Puck", referente a 31 de agosto de 1904, é legendada "The ex-scarecrow of Europe (O ex-espantalho da Europa)". O urso russo, sob a forma de soldado, convertido em espantalho, é picado por corvos identificados com o Japão, a Inglaterra e a Alemanha, enquanto, em baixo, os corvos nomeados China e Turquia zombam. De facto, a guerra que o Japão iniciou contra a Rússia (1904-1905), correu mal a esta desde o início, e este cartoon ridiculariza o antigo espantalho.
Portanto, uma pequena colectânea de cartoons bem esclarecedora.



Outros artigos de António Martins Quaresma

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado

07h00 - segunda, 06/02/2023
Câmara de Alcácer
apoia Associação
Animais de Rua
A Câmara de Alcácer do Sal aprovou, no final de janeiro, um auxílio económico no valor de 15 mil euros à Associação Animais de Rua, "para esterilizar e proteger animais em risco no concelho".
07h00 - segunda, 06/02/2023
Câmara de Odemira disponibiliza
mais 25 lotes para habitação jovem
A Câmara de Odemira tem a decorrer, até 28 de julho, o concurso público para a alienação de mais 25 lotes de terreno, destinados à construção de habitação própria e permanente para jovens dos 18 aos 40 anos.
21h57 - domingo, 05/02/2023
Buscas em Sines
por pescador amador
desaparecido
As buscas por um pescador de 38 anos que desapareceu no sábado ao largo da orla costeira de Sines foram suspensas ao final da tarde deste domingo, 5.
17h58 - domingo, 05/02/2023
Renascente vence
dérbi diante do
Praia de Milfontes
O Renascente de São Teotónio venceu, neste domingo, 5, o Praia de Milfontes, num dérbi do concelho de Odemira que marcou a 19ª jornada do campeonato distrital da 1ª divisão de Beja.
07h00 - sexta, 03/02/2023
Grândola promove
Orçamento Participativo
para seniores
A Câmara de Grândola promove, a partir desta sexta-feira, 3, a terceira (e última) edição do "Orçamento Participativo Sénior", dinamizado no âmbito do projeto CLDS 4G – Grândola 4 Gerações.

Data: 27/01/2023
Edição n.º:

Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial