16h02 - quinta, 05/05/2022

Eu não conto?


António Martins Quaresma
Em Portugal, os recenseamentos da população, tornados regulares a partir de 1864 e convertidos em decenais desde 1890, têm constituído o principal instrumento para o conhecimento demográfico, não só no plano meramente numérico, mas na caracterização da população em termos económicos, sociais, etc. Anteriormente, houve contagens, como o conhecido "numeramento" de 1527/1532, mas a recolha de dados sistemática e os estudos demográficos são realidades contemporâneas, próprias de sociedades que entraram na era estatística. No Reino Unido, país que no século XIX caminhava na vanguarda do desenvolvimento económico, os censos decenais iniciaram-se em 1801, portanto quase um século antes do que sucedeu no nosso país.
Os resultados provisórios dos "Censos 2021" estão já publicados e revelam um Alentejo em continuada perda de população (variação negativa de 6,95%), num país em que a população diminuiu também (variação negativa de 2,1%), embora, aumentando a escala, sejam verificáveis diferenças territoriais. Como acontece com o concelho de Odemira.
Neste município, que vinha a perder população desde meados do século XX, embora pouco acentuadamente nos últimos decénios, houve uma considerável recuperação, computada na percentagem positiva de 13,47 %, obtida graças sobretudo às freguesias do litoral, o que segue a tendência de litoralização do povoamento, já antes verificada na região e no país.
Estes dados causaram alguma surpresa, na realidade injustificada, pois eram notórios movimentos migratórios, de várias origens geográficas e de diversas naturezas. Desde a vinda, que remonta às décadas de 1980 e 1990, de gente proveniente de países ricos da Europa, em especial ingleses, alemães e holandeses, que naturalmente não são movidos por razões económicas, aos originários da Europa de Leste, em particular búlgaros e ucranianos, estes, sim, empurrados pelas más condições de vida, sequentes ao desmoronamento da União Soviética.
Entretanto, uma vaga de imigração com origem em países do Oriente, como a Índia, o Nepal e o Bangladesh, trouxe um grande número de trabalhadores para a agricultura da charneca de Odemira, carente de muitos braços. Trata-se de um fenómeno característico da "globalização", em que as grandes empresas capitalistas se abastecem de mão-de-obra em mercados de trabalho de áreas do mundo muito povoadas e com grandes disparidades económicas e sociais. São conhecidos alguns factos que têm rodeado a presença destes imigrantes, desde os problemas do seu alojamento, ao estranho caso Zmar, aos deploráveis abusos da autoridade policial e mesmo a um certo ambiente social eivado de racismo, que incluiu acusações falsas aos imigrantes, aliás completamente contrárias ao caráter pacífico dessas comunidades.
A última presença estrangeira, que fica fora dos "Censos", deve-se aos refugiados de guerra ucranianos – uma guerra que, nos termos das categorias simplistas e maniqueístas em uso, foi desencadeada por um sujeito malvado, mas que umas almas bondosas não querem que acabe. Trata-se de uma situação muito recente e será, desejavelmente, temporária.
Não é de estranhar, pois, que freguesias como Longueira/Almograve (+72,2%!), São Teotónio (+35,12%) e Milfontes (+12,92%), assim como Salvador/Santa Maria (+14,18%), tenham registado crescimento da população, que se deverá, sobretudo, aos trabalhadores agrícolas. Mais surpreendente é o que sucede com as freguesias do interior do concelho, São Martinho (+4,08%) e, sobretudo, Relíquias (+8,16%), sendo que, pelo menos na segunda, o próprio presidente da Junta de Freguesia se empenhou na coordenação dos jovens recenseadores para que ninguém ficasse por recensear, em particular alguns estrangeiros que vivem na área rural.
Parece-me que bem acertado andou o presidente Daniel Balinhas, pois, embora eu não ponha em causa a bondade dos resultados em termos gerais, conheço pelo menos um caso que os recenseadores deixavam para trás. Falo de mim próprio, que, apesar de residir há largos anos na mesma casa, em plena vila de Milfontes, não fui contactado, o que me obrigou a informar a Junta de Freguesia, que remeteu o assunto para os recenseadores. Face à minha pergunta "Eu não conto?", o lapso foi rapidamente corrigido e ainda fui a tempo de entrar nas contas dos "Censos 2021".



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