16h44 - quinta, 15/09/2022

Em busca do tempo perdido (II)


António Martins Quaresma
Continuámos em busca de algum tempo perdido no interior rural odemirense. E de novo, na planura da bacia do Sado, dentro da freguesia de Vale de Santiago, foi um edifício especial que concitou a nossa atenção e ajudou a abrir o nosso entendimento aos segredos do território. Na verdade, por razões que adiante serão clarificadas, este devia ter sido tratado simultaneamente com o "Chalé", que foi objecto da última crónica sob este título. Só que crónicas e excursões ao concelho profundo nem sempre se ajustam cronologicamente.
O dia foi proveitoso para a equipa reduzida (Joana e eu), com os quilómetros percorridos à canícula, apesar de tudo não excessiva, e sobre o pó fino dos caminhos ressequidos e basto percorridos, a serem justificados pelos resultados. É verdade que, inquietos, não lográmos encontrar a preciosa máquina retabular maneirista de uma ermida de Colos, que julgávamos guardada em certa arrecadação, mas logo ficou combinada uma démarche para aprofundamento do assunto – démarche que, afinal, se revelou produtiva, pois o retábulo estava "bem, graças a Deus", como diria um crente, acondicionado em lugar seco e arejado. No futuro, que desejamos próximo, há que preparar o seu restauro e dar-lhe o destino apropriado, que peças histórico-artísticas da dimensão desta não são exactamente abundantes no concelho.
Nestas terras onde as populações apenas agradecem que os poderes não se esqueçam delas totalmente, há coisas urgentes e coisas importantes a solucionar. Claro que as prioritárias são as que se prendem com as necessidades básicas da vida, como, por exemplo, a assistência médica. Mas no plano que agora se trata – o do património cultural edificado – a pintura ou o arranjo do reboco estalado da igreja satisfazem-nas.
Por vezes, deparamos com autênticos guardiães da memória local, como D. Mariana, de Fornalhas Velhas, pessoas que, pela agudeza do espírito observador e pela inteligência dos lugares, "fazem a diferença" quando chegam visitantes curiosos.
Finalmente, dirigimo-nos ao Monte Velho, de que, desde a infância, ouvi falar, mas não conhecia. No caminho recebi algumas esclarecidas explicações sobre os riscos sanitários que correm os sobreiros, árvores dominantes na região, mormente pela pouco criteriosa mobilização de solos que é prática corrente.
À chegada, vemos instalações atípicas que servem a componente produtiva do monte. Seguimos, exploratórios, esperando ver alguém que nos informasse e facultasse o acesso, quando desembocámos diante da fachada principal da parte residencial.
Um edifício inesperado, a vários títulos. Constituído por dois corpos, um de um só piso, o outro de dois pisos, com uma arquitectura singular, sobretudo atendendo a que estamos num "monte", que nos remete, com a envolvência próxima, para a realidade de uma "quinta de recreio". Acudiu-nos à lembrança o "Chalé", que também havia pertencido a D. Maria Júlia Brito Pais Falcão, por compra, recordemos, a sua irmã Maria do Céu. É verdade que não tem o ar solitário deste, nem a sua planta, tão pouco o amplo conjunto de elementos "casa portuguesa" que ele ostenta, nem ainda, claro, o estado de ruína daquele. Mesmo assim, no Monte Velho, cá temos o mesmo beirado tipo Raul Lino. Arquitectura eclética, notamos a fachada principal, revivalista, com o dito beirado e um espectacular conjunto de janelas, emolduradas de cantarias, abertas em arcos, sobre colunelos, redondos, em cima, e quebrados, em baixo. E, inevitável em casas de D. Maria Júlia, uma capela assinalada por uma cruz de pedra sobre a verga lavrada de uma porta travessa e um sino suspenso na parede. O ambiente ali era de grande misticismo: histórias de aparições da Virgem e outros acontecimentos sobrenaturais faziam parte da vida da proprietária, disse-me, já lá vão uns bons anos, uma sua empregada muito chegada.
Interessante ainda, ao lado, a antiga cocheira, uma construção vernacular, constituída por três corpos, um central, mais longo e de telhado de duas águas, e dois laterais, de telhados de quatro águas.
Na primeira metade do século XX, alguma da elite odemirense, com raízes e rendas no espaço rural, não deixava de ter ligações ao mais intelectualizado universo urbano, em especial a Lisboa, encomendando os projectos das suas habitações a arquitectos da cidade, representativos das correntes em voga. Rural e urbano, campo e cidade, nem sempre eram categorias completamente herméticas.



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