16h34 - quinta, 13/10/2022

Paisagens invisíveis


António Martins Quaresma
Diante de uma paisagem, o observador recebe uma impressão que tem a ver com o objecto da apreciação, mas também com os seus próprios olhos. É o que acontece com o "olhar turístico" (tourist gaze), conceito que se prende com a ideia de que os nossos desejos de visitar lugares e a forma como experimentamos esses lugares não são simplesmente individuais e autónomos, mas são socialmente organizados (John Urry, 2005). De resto, é frequente o modo de turista distraído, a forma mais simples de olhar a paisagem.
Hoje muito popularizada, a fotografia introduz, na relação, a componente tecnológica, que permite seleccionar, aproximar, intensificar cores, etc. A imagem fotográfica resulta assim da combinação da máquina e da imaginação criadora, buscando o "efeito visual".
O olhar que pretendo isolar neste texto tem a ver com um tipo particular de invisibilidade e de resgate da memória. Mais racional, mas não menos emotiva, envolve o conhecimento da história dos lugares, até porque, todos sabemos, não existem paisagens "naturais", pois todas foram mais ou menos humanizadas. Por vezes, elas estão carregadas de acontecimentos, só percebidos quando penetramos no seu âmago. Ao olhar a paisagem, a olho nu, esta pode devolver-nos um conjunto de "memórias efémeras e múltiplas", se formos capazes de as receber. Vou dar (contar) um exemplo.
Em 19 de fevereiro de 1828, o navio de guerra inglês HMS Terror, sob o comando do capitão Hope, atingido por uma forte tempestade, deu à costa no areal das Furnas, perto de Milfontes, salvando-se da destruição graças à competência do capitão e aos denodados esforços da sua tripulação. Trazido, dois meses depois de trabalhos, para o interior do porto, o navio fundeou, para reparações, perto da margem sul, em frente da vila, no ponto chamado "os Lastros", onde o rio é bastante fundo, portanto adequado a navio com um calado superior a seis metros. Aliás, a designação de "lastros" devia-se ao hábito de ali deslastrarem os barcos que vinham vazios, isto é, em lastro, a carregar mercadorias aos "portos" do rio Mira. Os lastros, geralmente pedra ou areia, eram atirados para este fundão, considerado apropriado para o efeito, por ter capacidade para os absorver e ficar lateral ao canal de navegação.
As informações que nos permitem esta referência ao navio inglês estão contidas no livro do viajante Henry Herbert, terceiro Conde de Carnarvon, Portugal and Galicia, with a review of the social and political state of the Basque Provinces, terceira edição, 1848. Ele esteve em Milfontes durante a sua viagem, e aqui pernoitou, antes de partir para o Algarve. Curiosamente, fez observações humoradas acerca das condições da estalagem, escrevendo que, no seu quarto, tinha vistas diorâmicas do céu e da terra, através de várias aberturas no telhado e nas paredes de madeira.
Voltando ao HMS Terror, importa dizer que tinha realizado a sua missão na guerra anglo-americana, entre 1812 e 1815, e depois foi enviado para servir no Mediterrâneo, altura em que se deu o seu naufrágio em Milfontes. Feitas as reparações, o barco acabou por ser retirado do serviço da marinha real, mas a sua existência não terminou. Aparelhado para a exploração marítima, foi sucessivamente despachado para os mares gelados da Antártida e do Ártico, então dois objetivos dos exploradores ao serviço das potências imperiais europeias, em especial a Inglaterra.
Na primeira viagem, em 1836, o Terror, capitaneado por George Black, dirigiu-se à baía de Hudson, mas, após um duro inverno e de ter abalroado um iceberg, sofreu graves avarias, que o levaram a abortar a missão, conseguindo arribar à costa da Irlanda. Em 1840, capitaneado por Francis Crozier, foi enviado à Antártica, em companhia de outro navio, o HMS Erebus, fazendo três temporadas de exploração e estudo deste gelado território meridional. Foi, porém, a expedição seguinte dos dois navios ao Ártico, no ano de 1845, sob o comando geral de "sir" John Franklin, em busca da Passagem do Noroeste, que abriu as portas da lenda. Os navios tinham sido equipados com a nova tecnologia da máquina a vapor e os cascos reforçados com chapas metálicas. Mas nem mesmo essa modernização foi suficiente para evitar o fim trágico e misterioso de navios e tripulações, desaparecidos nos mares que exploravam. Desde aí, muito se escreveu sobre a tragédia do Terror e do Erebus, mas só há pouco tempo, com a descoberta dos seus restos afundados (o Terror, em 2016), se começou a perceber o que aconteceu, na certeza de que os últimos momentos dos navios e das tripulações continuarão cobertos por denso mistério. Para preservar os destroços da acção de saqueadores, o Canadá, sob cujas águas os navios jazem, classificou-os como local histórico, interdito a visitas não expressamente autorizadas.
Pois bem, o que eu "vi", nos Lastros, quando ontem de manhã, da margem direita, voltei a vista na direcção de Vila Formosa, foi a silhueta talvez um pouco espectral do HMS Terror, o seu casco escuro e bélico, os três mastros cruzados pelas vergas, as linhas algo confusas do massame, os vultos dos marinheiros sobre o convés, entregues à labuta da recuperação do navio. E também "ouvi" vozes indistintas de uma língua estranha e uma mescla de sons do trabalho, que cortavam o límpido silêncio matinal. Um momento pessoal, íntimo e eloquente, emergido da anamnese do lugar.
Contei-vos do velho veleiro, que, por via do acaso, um dia encalhou numa das praias da foz do rio Mira e aqui permaneceu durante alguns meses, o mesmo que, transformado em navio de investigação oceânica, quis o destino funesto que encontrasse o seu fim nas lonjuras gélidas do Ártico.



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