16h07 - quinta, 27/10/2022

Europa: o fim da prosperidade


Fernando Almeida
Até pode parecer que tenho algum gosto em dar más notícias, mas na verdade…
Sabemos que os europeus nunca viveram vidas tão longas, com tanto conforto e tanta abundância de tudo como nas últimas dezenas de anos, mas por outro lado não podemos ignorar que essa não foi a situação da maioria esmagadora da humanidade, que tem vivido vidas mais curtas e bem mais penosas que as nossas. Será que esse oásis de abundância, esse "paraíso na Terra" está para durar? E por que motivo tivemos uma vida tão privilegiada?
A nossa riqueza dos últimos séculos resultou, antes do mais, do domínio militar do mundo iniciado por nós próprios, portugueses, e pelos "nuestros hermanos", mas continuado e aprofundado por muitos outros povos europeus ou de origem europeia. Desse domínio militar resultou o controlo do comércio global, com todas as vantagens daí resultantes no que respeita a acumulação de riqueza.
Procedeu-se igualmente à pilhagem generalizada dos povos dominados, com os recursos a correr para a Europa como um rio contínuo de ouro e prata, que ainda assim não chegou a saciar as elites gananciosas deste velho continente. Por isso, dos tesouros acumulados pelos povos do mundo passou-se aos seus recursos naturais e aos próprios recursos humanos, que exploramos diretamente ou vendemos como escravos. Colonizamos e governamos os outros a bem das nossas conveniências e mais recentemente corrompendo alguns dos seus dirigentes para que, traindo os interesses dos seus próprios povos, nos sejam favoráveis e fiéis servidores.
Após a segunda guerra mundial o domínio da Europa Ocidental sobre o mundo foi-se desvanecendo, em parte substituído pela ascensão dos Estados Unidos da América, em parte escapando para outras geografias mais orientais como a ligada à antiga URSS e, mais recentemente, à China. No entanto a velha Europa manteve uma confortável situação no plano económico resultante de alguns fatores que, sendo essenciais e imprescindíveis, passam geralmente despercebidos.
A segunda grande guerra foi um marco no que toca às despesas militares da maioria dos países europeus, que se reduziram ao mínimo indispensável para a manutenção de forças armadas vagamente credíveis, mas muito longe daquilo que gastavam outros países do mundo. Esta "poupança" na defesa também permitiu libertar recursos para outras áreas, como o bem-estar social ou a investigação científica e desenvolvimento tecnológico, o que a prazo deu frutos na qualidade de vida dos cidadãos, mas também no desempenho da economia. A situação de abundância de financiamento e boas condições para a investigação subtraiu alguns dos melhores cérebros dos seus respetivos países e colocou-os ao serviço da própria Europa, o que constituiu por vezes uma "drenagem de génios" dos países mais pobres em benefício dos mais ricos.
Contou a Europa também com energia particularmente barata e abundante, inicialmente na forma de carvão, mais tarde pela abundância de petróleo que as grandes companhias ocidentais exploravam nos quatro cantos do mundo à revelia dos interesses dos povos dessas regiões, e ultimamente pelo acesso às abundantíssimas reservas de gás natural russas, que fluíam sem parar para a indústria da Europa e em especial para o seu coração económico, a Alemanha.
Por fim, a Europa, e o "mundo ocidental" no geral, criaram dívidas monumentais. Em 1970 nenhuma das vinte maiores dívidas externas do mundo eram de países da Europa Ocidental, mas a necessidade de manter padrões de vida elevados, de ganhar eleições a qualquer custo, (fazendo obras sumptuosas, mas por vezes de vantagem futura duvidosa) e de agradar aos eleitorados, levou os países da Europa Ocidental a recorrer à contração de dívida ao ponto de, em 2021, dezoito das vinte maiores dívidas do mundo serem de países do "bloco Ocidental" (o que inclui países como a Austrália ou Singapura).
Sete das dez maiores dívidas externas do mundo são de países europeus, e os três restantes são os Estados Unidos (com a que é, de longe, a maior dívida do mundo), o Japão e a Austrália.
Por isso, também é fácil de ver que o nosso bem-estar se tem baseado muito em riqueza que não é nossa, mas que vamos ter necessariamente que pagar.
Pensando um pouco, é fácil perceber que dias difíceis se avizinham para todos nós: o centro do comércio mundial deslocou-se para a Ásia; o país do mundo que produz mais "papers científicos" é atualmente a China; a nossa vanguarda científica e tecnológica já não é indiscutível; a guerra da Ucrânia e os interesses da indústria de armamento do Ocidente levam a Europa a ter que voltar a rearmar-se e com isso a gastar rios de dinheiro que já não poderão ir para o desenvolvimento; a energia barata vinda do resto do mundo e em especial da Rússia deixou de chegar; por fim, as dívidas que nos permitiram viver à grande durante dezenas de anos terão que ser pagas (nós, portugueses, sabemos bem o que isso implica).
Por tudo isso, não se augura nada de bom para o futuro deste velho continente, da União Europeia e, se mais não for, por contágio, de Portugal. Não quero evidentemente ser pessimista, mas a realidade é esta e será melhor enfrentá-la sem preconceitos e tomar medidas atempadas e com determinação, que fingir que está tudo bem e um dia acordar na ruína.
Na verdade só o conhecimento científico e a inovação tecnológica nos podem compensar pelas perdas gigantescas que vamos sofrer. E se perdermos também essa corrida pela inovação, teremos verdadeiramente que temer pelo futuro. Também por isto, é urgente transformar a escola numa oficina de criatividade e inovação e apagar de vez a velha escola da repetição.



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