quinta-feira, 18/12/2025

Agora é a Venezuela


Fernando Almeida
Tenho falado e escrito manifestando a minha preocupação com a decadência da velha Europa, que liderada por gente incapaz, e ao sabor de interesses que não são os dos seus próprios povos, vai ficando para trás no que respeita ao desenvolvimento científico e tecnológico, à capacidade industrial, e a tudo o resto, ao mesmo tempo que se torna cada vez mais irrelevante no que se refere à sua presença no mundo. Agora é mesmo o presidente americano, Donald Trump, a dizê-lo com todas as letras, numa atitude que em vez de nos indignar nos deveria fazer pensar seriamente no que temos andado a fazer. A Europa está efetivamente a ficar decrépita, e essa sua característica parece fazer tanto os líderes europeus, como mesmo os comentadores, jornalistas e outros fazedores de opinião, viver num mundo ficcionado da antiga e já passada “grandeza europeia”, falando como quem não compreende que na verdade o mundo mudou e a Europa não passa hoje de um ator secundário desse novo mundo multipolar.
O mais grave é que a decadência da Europa não se limita às altas esferas do poder, mas parece ter tomado conta dos grupos tradicionais de oposição e mesmo da sociedade no geral. Quando vejo em Portugal partidos que se afirmam como defensores de quem trabalha, gastarem mais tempo das suas agendas em discussões sobre as casas de banho das escolas (se deve haver casas de banho especiais, para os que se sentem meninos nos dias pares e meninas nos dias ímpares) e outras minudências do mesmo tipo, que a chamar a atenção para os milhares de milhões que se somem da economia real para paraísos fiscais, vejo também aí essa degradação. O mesmo se passa ao observar os que mostram mais preocupação com os animais de companhia (cãezinhos e gatinhos de estimação) que com o facto de voltar a haver barracas em Portugal, construídas por gente que trabalha todos os dias e não consegue pagar uma renda de casa. Outro tanto se passa em relação aos imigrantes. Alguns dos que se afirmam de “esquerda” parecem não ter percebido que os imigrantes constituem uma bênção para os empresários que necessitam (ou simplesmente preferem) mão-de-obra barata, mas que por isso mesmo, contribuem decisivamente para que os salários dos “nossos portuguesinhos” se mantenham anormalmente baixos no contexto da Europa e sejam obrigados eles mesmos a emigrar. Na verdade, a coberto de um discurso humanista e até esquerdista, são os melhores aliados de quem pretende salários baixos, embora se afirmem sempre defensores de quem trabalha. Parece que se preocupam mais com o bem-estar dos imigrantes que com os nacionais… Se a gente que ocupa na Europa as cadeiras do poder é claramente de fraca qualidade, parece que outro tanto se passa com os que são oposição que se deveria constituir como alternativa de poder. Depois queixam-se da ascensão dos movimentos “populistas” e ditos de “extrema-direita”, como se os políticos tradicionais não fossem eles próprios em boa medida responsáveis pelo descrédito do “centrão” e da “esquerda tradicional”, e a ascensão da “direita populista”.
Mas deixemos para já a política doméstica porque vou cada vez mais percebendo que a política interna deste cantinho à beira mar plantado só pode oscilar dentro de um intervalo relativamente estreito balizado por poderes internacionais que tudo controlam no Ocidente. Por isso relativizo muito a sua importância: com pequena margem de manobra faremos sempre o que os poderosos lá de fora mandarem, e o resto é conversa de políticos e charlatães fingindo que controlam o futuro do país. Exemplos desta situação são mais que muitos…
Para os mais velhos bastará recordar que quando alguns tiveram em 1975 aspirações a mudar de aliados, estacionou em frente à foz do Tejo a 6ª frota americana num sinal de força e vigilância. Ao mesmo tempo nasceram como cogumelos o “MIA” – Movimento para a Independência do Algarve, a FLA – Frente de Libertação dos Açores, e a FLAMA – Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, sem dúvida “coisinhas” criadas pela CIA para promover instabilidade suficiente que justificasse, caso necessário, uma eventual intervenção armada em Portugal. E isso nunca aconteceu porque em 25 de novembro um golpe ainda mal explicado colocou o país “nos eixos”. Se bem me lembro nesse dia 25 andou o embaixador americano em Lisboa, Frank Carlucci, dentro de uma “chaimite” do Regimento de Comandos da Amadora a dirigir as operações… e este Frank Carlucci tinha sido embaixador dos EUA no Chile onde parece que ajudou a derrubar Allende e dar o poder a Pinochet, e quando deixou Lisboa foi para diretor da CIA. Coincidências… Portanto, podíamos nesses dias decidir o nosso futuro, mas apenas dentro daquilo que outros permitiam.
Para os mais jovens pode lembrar-se como o SYRIZA da Grécia foi torpedeado de todas as maneiras até sair do poder quando os gregos tiveram a ousadia de votar nessa coligação. Claro que nós portugueses fomos objetivamente muito beneficiados, porque os “donos disto tudo” manobraram de modo a Portugal receber os fluxos turísticos que seriam desviados da Grécia. Foi assim que Portugal passou a ser classificado como o melhor destino turístico da Europa e do Mundo, passamos a ter as melhores cidades para turismo, e até um primeiro lugar no Festival Eurovisão da Canção nos deram… E tudo para desviar fluxos turísticos da Grécia para o sudoeste da Europa e assim asfixiar a Grécia e o seu governo “desobediente”. Por tudo isto e muito, muito mais, se alguém pensa que os povos de cada país pequeno podem decidir o seu futuro, desengane-se: só podem escolher o seu futuro dentro dos estreitos limites que lhe são concedidos por quem realmente manda mesmo a sério neste nosso mundo.
No entanto, a forma clássica já estabelecida por decénios de trabalho de irrepreensível qualidade para mudar governos, é conhecida e demora muitos anos. Começa geralmente por se criar suspeitas em relação ao poder de um qualquer país, sugerindo que os seus governantes são de algum modo ilegítimos. Algum tempo mais tarde decretam discretamente sanções sobre esse país, para que a sua economia se degrade e se crie mau estar no seu povo e, se possível, convulsões sociais. Numa fase seguinte, quando a opinião pública ocidental já tem alguma má vontade em relação ao país que se quer dominar, promovem-se acusações mais sérias: não respeita as mulheres, os homossexuais, ou as minorias étnicas ou religiosas, afirma-se que há fraudes eleitorais, que há corrupção, que as cadeias estão cheias de presos políticos, etc., e vão-se reproduzindo repetidamente nas televisões peças que atinjam o público de forma a despertar aversão a esse país cujo governo se quer mudar; pode mesmo atribuir-se um prémio, como o Nobel da Paz ou o Sakharov a um qualquer opositor, feito líder aos nossos olhos. Numa fase seguinte criam-se “casos” reais ou ficcionados que façam a opinião pública ficar verdadeiramente revoltada contra o poder daquele país e achar mesmo que alguma coisa deve ser feita. Nesta fase a aversão ou mesmo o ódio ao país, ao seu regime e aos seus dirigentes é já suficientemente grande para que consiga retirar a lucidez às pessoas, e estas começam a acreditar em todas as patranhas que lhes queiram vender, por mais inverosímeis que sejam: o ex-presidente do Panamá, Manuel Noriega, era traficante de droga, Saddam Hussein ia às incubadoras das maternidades tirar recém-nascidos para os matar e estava a produzir armas nucleares, Muammar Gaddafi era um ditador sanguinário, diz-se que se matam raparigas no Irão só por não terem a cabeça coberta, que na Coreia do Norte se pode ser preso por dobrar um jornal onda está a foto do presidente, que Putin é canibal, Maduro é traficante de droga… Toda a casta de “aldrabices” a que as pessoas, porque já foram condicionadas para não gostar do país, do seu governo ou mesmo do seu povo, acabam por dar crédito. Por fim, quando a opinião pública do “Ocidente Alargado” já “está no ponto”, pode fazer-se qualquer desmando sabendo que ninguém vai protestar. Alguns países estão no princípio deste processo, como Angola ou a Nigéria, outros já estão na fase final…
É nessa fase final que estamos agora na Venezuela. Já ninguém questiona se realmente há democracia e se as eleições são, ou não, livres e justas, porque tantas vezes se disse que eram manipuladas que hoje já ninguém duvida da versão oficial. Durante tantos anos se andou a sugerir, depois a afirmar e mais tarde mesmo a garantir que o regime era mau, e agora todos acham que se o povo da Venezuela vive com dificuldades, a culpa é dos seus governantes, e não das sanções que impedem o país de vender o que tem e produz e comprar o que precisa. Portanto, o presidente Trump pode neste momento fazer o que entender com aquele país e com o seu povo. Até já começou a afundar barcos e matar gente com o pretexto que seriam traficantes de droga, roubou um petroleiro bem carregadinho de crude, apenas porque sim, e fará tudo o mais desde que não fique mal visto entre os seus eleitores e em particular os dirigentes do MAGA.
E nós, gente pouco esclarecida deste país e deste mundo, somos mais uma vez enganados, tendo a ideia que o regime de Nicolás Maduro é corrupto, fraudulento, desumano e está contra o seu povo. E parece que até esquecemos que a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e está no “quintal” dos EUA, e que são esses realmente os verdadeiros motivos para a perseguição que Trump faz à Venezuela, e que, evidentemente, perseguiria qualquer governo que não desse o petróleo a explorar às empresas americanas. O resto é conversa, mas por mim acho que era melhor que as pessoas começassem a abrir os olhos.

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