quinta-feira, 05/02/2026

Rio Mira

António Martins Quaresma
Em 1758, o pároco de Milfontes, Bento Dias Barreto, respondendo a um inquérito, enviado através da autoridade eclesiástica, escrevia, a propósito do curso de água que banhava a vila que paroquiava: “Nasce o dito rio do mar largo, discorrendo pela terra adentro seis léguas”. Aparentemente, ele confundia as coisas, pois todos sabemos que o mar é o onde os rios “morrem” e não onde “nascem”. Mas o bom prior tinha as suas razões.
Desde logo, ele sabia que a água do rio era salgada e não doce e que os seus movimentos eram os das marés, ora enchendo, ora vazando, portanto mais uma ria do que um rio. Havia mesmo, lá para montante, moinhos que utilizavam a oscilação das marés para moer. Mais ou menos por essa altura, um escrivão da Câmara de Odemira designava-o por “rio mestre de água salgada”, expressão que sublinhava essa personalidade e a própria hierarquia no quadro da rede hidrográfica.
Sabia-se, contudo, que poucos quilómetros a montante de Odemira, a influência das marés cessava e a salinidade desaparecia: a sua denominação passava a ser, no dizer popular, “ribeira de Odemira”, ou “ribeira de Mira”. Numa designação moderna, chamar-lhe-íamos “médio Mira”, reservando-se a de “alto Mira” para o curso que, grosso modo, percorre os concelhos de Almodôvar e Ourique.
No entanto, na época das grandes chuvas, as águas geralmente límpidas, como as do mar, do Mira terminal, ficavam castanhas, “barrentas”, e dizia-se, diz-se, que estava presente muita água doce. De facto, as inúmeras e impetuosas escorrências de regatos e ribeiras, bem como o contributo do Mira doce, engrossados pelas chuvas, acarretavam grande quantidade de sedimentos, que conferiam a tonalidade castanha às águas claras do rio.
Hoje em dia, em consequência da construção da barragem de Santa Clara (cheia em 1968 e inaugurada em 1969), a que inicialmente, como era uso, foi dado o nome de uma personalidade do Regime, no caso o de Marcelo Caetano, boa parte das águas doces – cerca de 1/3 da bacia – fica retida por detrás da grande parede, alterando de forma significativa não só o curso médio, como o baixo. Neste, aproximadamente o troço entre Odemira e Milfontes, com a diminuição do afluxo de água doce, a salinidade média aumentou. No presente inverno, porém, a precipitação abundante voltou a colorir de tons de castanho as águas do estuário, por semanas seguidas, como há muito tempo não acontecia. Na realidade, a última vez que no rio Mira houve tanta água doce foi há mais tempo daquele que o “Sudoeste”, com os seus 12 anos, tem de vida.
Um impacto importante da alta pluviosidade verificou-se exactamente na barragem de Santa Clara-a-Velha, que desde há anos vinha batendo sucessivos recordes de baixos níveis, com as consequentes limitações ao uso da água para regadio. A situação tinha mesmo ocasionado um clima de mal-estar, com a substituição do representante do Estado no executivo da Associação dos Beneficiários do Mira e um conflito latente com a administração municipal. Entretanto, foi aprovado um plano de uso de equipamentos para captar a água a cotas inferiores, decisão que não era bem vista em diversos sectores da sociedade local. A invernia atual irá, de algum modo, esbater essa conflitualidade.
De facto, na altura em que estas linhas estão a ser escritas, a barragem atingiu a cota 124, 92 e 81% da sua capacidade! E a manter-se a tendência pluviométrica, justifica-se esperar que ela atinja a cota máxima neste inverno (cota 130), coisa que não acontecia, como se disse, há muitos anos. Entretanto, a pequena barragem de Corte Brique já há algumas semanas alcançou o seu armazenamento pleno.
Voltando, ao baixo Mira, portanto ao estuário, ao “rio mestre de água salgada”, a grande quantidade das chuvas que têm caído na região influencia não só o aumento relativo de água doce, mas também o próprio volume das águas. Em Odemira, chegou mesmo a transbordar um pouco do seu leito normal, embora nada que se pareça com as cheias de antigamente. Em Milfontes, com a ajuda do vento e do mar muito bravo, em particular nas marés vivas, a massa de água também engrossou, mas nada de especial. Ainda recordo as velhas cheias na parte terminal do estuário, que transportavam grande quantidade de detritos, desde ramos de árvores e mesmo árvores, até animais mortos – alguns deles, nomeadamente a lenha, que os moradores aproveitavam – coisa que hoje não se passa.
Enfim, podemos dizer que o tempo chuvoso e tempestuoso, que noutros lugares tem causado destruições, não causou por aqui significativos prejuízos, pelo menos para já. No caso das barragens, como a de Santa Clara, no alto Mira, até tem sido benéfico.
Desde logo, ele sabia que a água do rio era salgada e não doce e que os seus movimentos eram os das marés, ora enchendo, ora vazando, portanto mais uma ria do que um rio. Havia mesmo, lá para montante, moinhos que utilizavam a oscilação das marés para moer. Mais ou menos por essa altura, um escrivão da Câmara de Odemira designava-o por “rio mestre de água salgada”, expressão que sublinhava essa personalidade e a própria hierarquia no quadro da rede hidrográfica.
Sabia-se, contudo, que poucos quilómetros a montante de Odemira, a influência das marés cessava e a salinidade desaparecia: a sua denominação passava a ser, no dizer popular, “ribeira de Odemira”, ou “ribeira de Mira”. Numa designação moderna, chamar-lhe-íamos “médio Mira”, reservando-se a de “alto Mira” para o curso que, grosso modo, percorre os concelhos de Almodôvar e Ourique.
No entanto, na época das grandes chuvas, as águas geralmente límpidas, como as do mar, do Mira terminal, ficavam castanhas, “barrentas”, e dizia-se, diz-se, que estava presente muita água doce. De facto, as inúmeras e impetuosas escorrências de regatos e ribeiras, bem como o contributo do Mira doce, engrossados pelas chuvas, acarretavam grande quantidade de sedimentos, que conferiam a tonalidade castanha às águas claras do rio.
Hoje em dia, em consequência da construção da barragem de Santa Clara (cheia em 1968 e inaugurada em 1969), a que inicialmente, como era uso, foi dado o nome de uma personalidade do Regime, no caso o de Marcelo Caetano, boa parte das águas doces – cerca de 1/3 da bacia – fica retida por detrás da grande parede, alterando de forma significativa não só o curso médio, como o baixo. Neste, aproximadamente o troço entre Odemira e Milfontes, com a diminuição do afluxo de água doce, a salinidade média aumentou. No presente inverno, porém, a precipitação abundante voltou a colorir de tons de castanho as águas do estuário, por semanas seguidas, como há muito tempo não acontecia. Na realidade, a última vez que no rio Mira houve tanta água doce foi há mais tempo daquele que o “Sudoeste”, com os seus 12 anos, tem de vida.
Um impacto importante da alta pluviosidade verificou-se exactamente na barragem de Santa Clara-a-Velha, que desde há anos vinha batendo sucessivos recordes de baixos níveis, com as consequentes limitações ao uso da água para regadio. A situação tinha mesmo ocasionado um clima de mal-estar, com a substituição do representante do Estado no executivo da Associação dos Beneficiários do Mira e um conflito latente com a administração municipal. Entretanto, foi aprovado um plano de uso de equipamentos para captar a água a cotas inferiores, decisão que não era bem vista em diversos sectores da sociedade local. A invernia atual irá, de algum modo, esbater essa conflitualidade.
De facto, na altura em que estas linhas estão a ser escritas, a barragem atingiu a cota 124, 92 e 81% da sua capacidade! E a manter-se a tendência pluviométrica, justifica-se esperar que ela atinja a cota máxima neste inverno (cota 130), coisa que não acontecia, como se disse, há muitos anos. Entretanto, a pequena barragem de Corte Brique já há algumas semanas alcançou o seu armazenamento pleno.
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