14h52 - quinta, 04/06/2020

Sobre a competição


Fernando Almeida
É sabido que uma mentira, se repetida mil vezes, passa a ser aceite como verdade. Passamos a aceitar de forma mais ou menos acrítica a voz comum, talvez num mecanismo de simpatia e integração no coletivo a que pertencemos, o que é sem dúvida uma vantagem que permite o melhor convívio social. Pensamos e fazemos as coisas de determinada maneira, apenas porque é assim, porque todos pensam ou fazem dessa maneira. Ficamos a coberto dos conflitos que resultam do ser diferente. Por outro lado, com frequência a voz comum é também resultante da experiência e do teste coletivo e do tempo, o que muitas vezes garante funcionalidade e fiabilidade.
Mas em alguns casos, e não são tão poucos como isso, o aceitar o que sempre se fez ou sempre se disse como sendo bom, sem pensar, leva-nos a repetir erros e a não evoluir. Nas sociedades modernas criam-se ideias que são dadas como certezas inquestionáveis, que toda a gente repete, e que quanto mais repetidas são, mais parecem verdades perfeitas e realmente inquestionáveis. Só que às vezes…
Uma das muitas mentiras que passou a ser tida como verdade é a ideia que a competição é algo de muito bom, gerador de progresso, e portanto de riqueza e bem-estar social e individual. Tem-se tantas vezes referido os méritos insubstituíveis da competição, que nós passamos a achar que em todas as suas formas (seja na concorrência entre empresas, seja na competição entre pessoas que trabalham numa mesma instituição, seja nas classificações dos estudantes, seja no que for) a competição é uma coisa positiva e deixamos de a questionar. Mas a competição, embora possa fomentar o esforço no sentido de um melhor desempenho, também tem muito de perverso e negativo, e portanto deve ser, talvez não removida totalmente das relações entre entidades e pessoas, mas pelo menos doseada de forma prudente.
Não é novidade para ninguém que a competição é com enorme frequência inimiga da cooperação, e ao instituir sistemas e processos baseados na competição compromete-se automaticamente a cooperação. Imagina-se que havendo competição, por exemplo num departamento ou empresa, cada um dos seus colaboradores tentará dar o melhor de si para que o seu trabalho seja de exceção e portanto reconhecido. Se assim fosse, com todos a levarem ao máximo o seu esforço e o potencial criativo e produtivo, esse departamento ou empresa deveria apresentar extraordinários resultados, e é isso que se pretende atingir. Talvez até fosse bom para a instituição, mas desde logo seria de vantagem duvidosa para a sociedade e para os indivíduos envolvidos, porque esse esforço até ao limite na prestação laboral, frequentemente degrada a vida familiar, o cuidado com os filhos, a saúde física e mental dos envolvidos, e possivelmente não será nada de muito positivo para o todo social. Mas além disso, ignora-se que na maior parte dos casos, o passar à frente dos outros, se procura não por fazer mais e melhor que eles, mas por fazer o possível para que eles façam pior que nós. Por isso, muitas vezes se criam intrigas, se tenta enganar e prejudicar a prestação dos colegas, ou pelo menos não se coopera no sentido de os ajudar a uma melhor prestação. Na prática, as potenciais vantagens da competição são anuladas pelas perdas resultantes da falta de cooperação.
Mas os problemas da competição que se criaram nas sociedades ocidentais, e que condiciona os comportamentos das pessoas e das instituições, não fica por aí. Ela é geradora de desconfiança, falta de companheirismo e de bom ambiente laboral (e mesmo, por vezes até escolar), e isso é altamente desgastante, criando mal-estar, cansaço, falta de empenho e criatividade e, no final, muitas vezes depressão.
É sabido que a depressão e outras perturbações próximas são já das mais importantes causas de afastamento do trabalho e afetam não só os trabalhadores adultos, mas cada vez mais os jovens estudantes, com situações relacionadas com a ansiedade, ataques de pânico, etc.. Diz-se que nos nossos dias um em cada cinco trabalhadores têm sintomas relacionáveis com depressão e sabe-se que grande parte das situações tem efetivamente origem nas condições de trabalho. Não será necessário fazer muitas contas para perceber que as eventuais vantagens económicas do modelo agressivo de competição, não compensam as desvantagens relacionadas com os problemas que cria…
Muito embora o modelo laboral, económico e social em que vivemos continue a apregoar as vantagens da competição e a omitir os problemas que gera, talvez seja bom que se comece a pensar se realmente a competição é assim tão boa como se tem dito, e se não seria melhor doseá-la com moderação, dando mais valor à cooperação entre as pessoas e entre as instituições. Certamente se teria um mundo de gente mais feliz. E gente mais feliz é mais criativa e, também, mais produtiva.

O autor utiliza o novo
Acordo Ortográfico



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