11h59 - quinta, 18/06/2020

Estatuária


António Martins Quaresma
1. No tempo do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, a condenação à morte na fogueira era a pena mais gravosa. Na ausência do condenado, por fuga ou qualquer outro motivo, ela podia ser concretizada "em estátua", isto é, queimavam um "boneco" que, simbolicamente, representava o condenado. A própria morte pelo fogo, pena aplicada sobretudo a cristãos-novos, os antigos judeus oficialmente convertidos, acusados de continuarem a "judaizar", tinha a forte simbologia de extirpar pelo fogo práticas religiosas consideradas abomináveis e proibidas.
Um dos homens da história e da cultura portuguesas, personalidade de Seiscentos, o padre António Vieira, esteve, ele próprio, a contas com a Inquisição, por criticar este tribunal. A ironia das coisas é que, ultimamente, a propósito de uma estátua em Lisboa, Vieira foi alvo de certo sentimento iconoclasta relativamente a figuras de alguma forma conotadas com o passado colonial português e, mais ironicamente ainda, as supostas dores de Vieira têm sido assumidas por um tipo de gente que, se tivesse vivido no tempo dele, apoiaria, não duvido, a sua condenação. Ademais, é claramente excessivo falar em vandalismo, como se houvesse semelhança com o que aconteceu nos EUA ou em Inglaterra.
A maior maldade que poderiam ter feito a António Vieira não foi terem-lhe borratado a estátua, que isso tem remédio fácil. Parece-me que a maior maldade é mesmo aquela estátua, ela própria, com a sua mensagem e a sua estética Estado Novo. O que ofende, mais uma vez em minha opinião, não é a pessoa do jesuíta padre António Vieira, mas a estátua que dele exibem – sem que isso me leve a pedir a sua eliminação.

2. No Litoral Alentejano, concretamente em Sines, encontra-se uma dessas estátuas susceptíveis de concitar a fúria do neo-iconoclamo: a estátua de Vasco da Gama. Como se sabe, Vasco da Gama nasceu, com toda a probabilidade, em Sines – é, portanto, um herói local – e foi o famoso capitão da expansão imperial portuguesa, o homem que comandou a primeira expedição marítima à Índia e que deu início ao que Arnold Toynbee chamou de "era gâmica".
É útil reflectir que os mitos e heróis do passado são resultado do aproveitamento historicista que se fez no século XIX para legitimar, reproduzir e representar a memória nacional. A celebrações cívicas, levadas a cabo no século XIX, que incluíram a de Vasco da Gama, em 1897, centraram-se na "gesta gloriosa dos Descobrimentos". A própria religião laica, em torno dos grandes homens, do filósofo positivista Augusto Comte incluiu duas figuras portuguesas: Luís de Camões e Vasco da Gama. Hoje, as coisas estão algo mudadas: é verdade que esta mitologia há muito está em crise, a não ser entre os grupos nacionalistas, mas também é certo que os próprios críticos têm tendência a olhá-la com distanciamento e a não quererem incorrer no pecado do anacronismo.

3. A associação do sentimento anti-racista à iconoclastia dos símbolos coloniais e esclavagistas é muito do nosso tempo, mas não é de agora. Muitos de nós recordamos o que se passou, há uns 30 anos, com a falhada estátua de D. Catarina de Bragança em Queens, Nova Iorque.
Se a posição anti-racista é legítima, na América como em Portugal, se podemos entender a ligação do racismo à visão etnocêntrica das nações europeias, já alguma da prática do activismo iconoclasta me parece simplista, desajustada e contraproducente. Ainda que já disseminado, este movimento tem selo de origem – os EUA – e reflecte a realidade americana, com as suas tensões e contradições. Embora, em Portugal, possa ter havido algum mimetismo, estamos, repete-se, muito longe do que lá por fora se tem passado.
É certo que muitas das estátuas e monumentos espelham um paradigma criado no século XIX, que o Estado Novo, nacionalista e colonialista, adoptou, mas entrar no caminho da sua destruição sistemática não faz qualquer sentido. Mesmo estátuas como a feroz representação de Geraldo, o Sem Pavor, existente perto de Évora, em que este exibe a cabeça decepada de um mouro e tem outra cabeça degolada aos pés, devem ser apeadas e guardadas num museu dos horrores do Estado Novo. Na realidade, além de algumas das estátuas poderem ser peças valiosas artisticamente, não é razoável centrar desmesuradamente a luta pela justiça e pela igualdade num tópico de feição identitária.



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