16h55 - quinta, 22/04/2021

Tempo de mudar!


Fernando Almeida
Eu não sei se as plantas pensam, mas sei que seguramente reagem a estímulos vários: quando uma árvore está comprimida entre outras em povoamento denso, quase não dá semente. Talvez saiba que o espaço está completamente tomado, que com as ramas a encobrir o sol e com raízes a dominar a terra, qualquer semente que produza não terá futuro; seria um esforço inútil gastar energia na criação de flor e fruto para nada, e sobretudo quando para a sua própria sobrevivência tem que crescer para disputar com as outras a luz do sol nas alturas, e a água e os nutrientes na raiz. Por isso não faria sentido o desgaste de criar semente. E elas sabem isso, e sabem muito mais…
Os nossos antepassados sabiam isso e aprenderam que para terem muitos frutos das árvores era melhor que as plantassem espaçadas, e também que as podassem de forma a abrir a copa e a deixar a luz entrar. Quando o fazem, e ao mesmo tempo fornecem boa terra e água às raízes, elas desdobram-se em frutos a ponto de por vezes quebrarem os ramos com o seu peso. A mesma árvore, se envolvida por outras e cheia de ramos no seu interior, praticamente não dará fruta. Os velhos dos nossos campos sabem isso desde sempre. E eles sabem isso, e sabem muito mais…
Um dia, já nem sei bem há quantos anos foi, conheci um biólogo alemão que andava por Portugal a estudar os pequenos mamíferos. A conversa com ele passou pelo facto de a "Mata do Solitário", a "jóia das matas mediterrâneas " da Arrábida, ser um total deserto no que se refere não só a pequenos mamíferos, mas à vida animal no geral, e também por ser composta por um relativamente pequeno número de espécies vegetais. Afinal o ex-libris das nossas matas do sul da Europa era de uma pobreza assustadora no que toca a biodiversidade. Nesse tempo não sabia explicar essa aparente contradição em que a forma mais evoluída e mais próxima do "clímax" vegetal dos calcários meridionais, era também de uma miséria confrangedora no respeitante a vida animal e vegetal. Aquilo simplesmente não se ajustava ao meu modelo teórico de evolução da natureza que dizia que sem Homem a vida se desenvolvia espontânea e infalivelmente rumo à exuberância de diversidade e de abundância, e ali, seguramente, não era o caso.
Já depois disso tenho visto repetidamente a mesma situação em espaços diversos, e de resto todos sabemos que à aproximação a uma aldeia, onde há mais "perturbação humana", há também mais abundância e diversidade de seres vivos. Mas nós, guiados por um certo preconceito inconsciente que nos diz que onde há mão humana as coisas não podem estar bem, evitamos até observar e reconhecer esse facto. Percebe-se o preconceito nascido da consciência que o ser humano, ou melhor, o rumo de evolução do mundo traçado pela civilização ocidental, tem vindo a delapidar incessantemente os recursos naturais numa voragem enlouquecida pela ganância do dinheiro, que não respeita nem os mais fundamentais princípios da vida. Por dinheiro destruímos a água das fontes, os rios, os solos, os oceanos, boa parte da multidão de espécies que povoa a Terra, e mesmo o clima do planeta!
Alguns de nós, justamente preocupados com o futuro de um mundo em acelerada destruição, mas desconhecedores do funcionamento dos sistemas que suportam a vida e do papel que o ser humano neles pode ter, imaginam que a árvore do bosque fechado onde não entra a mão humana dá mais e melhores frutos que a que o Homem ajuda a crescer, limpa e estruma. Imaginam que com base nessa suposta abundância que a natureza produziria espontaneamente se cria em cadeia uma riqueza de vida inigualável. Mas enganam-se. A natureza evolui pelo combate impiedoso entre seres vivos e pela sobrevivência e domínio dos mais fortes e bem adaptados, e nem sempre dá origem a sistemas muito ricos. A natureza não é docemente romântica como alguns imaginam, mas antes cruel e impiedosa, e uma meia dúzia de espécies, se o conseguirem, não hesitarão em eliminar toda a concorrência. O Homem, pelo seu lado, é igualmente capaz da pior destruição, mas dispõe também de inteligência para corrigir os seus próprios erros, mas como qualquer outra espécie da criação procura sucesso e domínio.
É essa a ideia que hoje vos quero transmitir: o problema da degradação do planeta não está no Homem, espécie que alguns acham proscrita e pensam que deveria ser erradicada da Terra; não está na espécie, nem no indivíduo que é cada um de nós. O problema reside num certo modelo de sociedade (e de economia) que conseguiu inegáveis e retumbantes sucessos científicos e tecnológicos, mas que também tem degradado os meios básicos de sobrevivência de toda a vida que conhecemos. E, como todos sabemos, as coisas estão mesmo mal na nossa relação com o planeta. Por isso se nota claramente um crescente aumento da sensibilidade ambiental do comum dos cidadãos, e uma genuína vontade de mudar de vida na maioria de nós. E também já percebemos que vamos ter mesmo que mudar.
Mas, se é verdade que globalmente há quase unanimidade na perceção do muito que está errado nas nossas práticas quotidianas, não existe a mesma concórdia quanto ao rumo a seguir. Falta talvez um projeto, digamos que "ideológico", que aponte para um tipo de sociedade sustentável, em que os recursos não sejam degradados, e em que simultaneamente se premeie o mérito e o esforço de cada individuo, mas também as necessidades de todos.
Pode ser que a mudança que se avizinha não venha seguindo um modelo ideológico bem estruturado, primeiro imaginado e escrito por um qualquer ser "iluminado", e mais tarde aplicado a uma sociedade pioneira e guia das demais. Pode ser que resulte simplesmente de vários caminhos trilhados por grupos mais irreverentes e idealistas, ou mesmo pela mudança progressiva e organizada pelo sistema vigente, consciente que o modelo atual conduz inevitavelmente ao precipício.
Mas se não estou errado, de uma maneira ou de outra, vamos ter mesmo que mudar. Espero que a mudança chegue em breve, mas sem conflitos, em concórdia e esperança no futuro.



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