16h33 - quinta, 06/05/2021

Migrantes


Fernando Fonseca
Os mondarinos foram os protagonistas de uma realidade vivida até finais da década de 1960 por parte significativa da população mais necessitada; camponeses, aldeões sem trabalho e gente do mar. São ainda numerosas as pessoas que podem testemunhar o recurso a uma migração sazonal que fazia deslocar, tanto indivíduos solitários como famílias inteiras, por definição sedentários, muitos deles como forma de contornar a prazo uma condição de miséria; outros, como meio de obter recursos que estariam fora do seu alcance, na terra onde nasceram.
Numa época em que a generalidade das tarefas rurais, eram feitas em regime de ajudada ou pelo trabalho à jorna, e dificilmente se conseguiria possibilitar com a força dos braços um modesto pé-de-meia, a ida para os arrozais no vale do Sado, às mondas e mais tarde à ceifa, constituía o único recurso para amealhar umas poucas centenas de escudos.
Recordo-me da ansiedade com que, pessoas que conheci, incluindo meus familiares, procuravam ser incluídos "nas contractas" pelos manajeiros, de que me ficou na memória, um tal Chico de Lagos.
São Teotónio era servido nesses tempos por duas empresas rodoviárias; "João Cândido Belo "de Azeitão com camionetas verdes e "Abel Figueiredo Luís" de Lagos com camionetas vermelhas. Ou porque esta última estava sediada mais perto ou porque o dito Chico conhecia o empresário, era a do Abel que, manhã cedo do dia aprazado para a viagem, recolhia os trabalhadores e familiares no "Encalhe" ou no "Largo do Rato".
Reinava entre os pressurosos migrantes uma manifestação de desembaraço, sinal conveniente para criar boa imagem junto do contratante, e um misto de entusiasmo como quem vai para uma festa muito embora os veteranos conhecessem as agruras do trabalho intenso, atolados na lama de sol a sol, atacados por nuvens de mosquitos de dia nos arrozais e à noite pelos percevejos nos casões onde pernoitavam em comum, conhecidos e outros que nem tanto.
A exploração desenfreada a que as pessoas por força das circunstâncias se viam obrigadas, instrumento de enriquecimento a baixo custo para sustentação do estatuto de superioridade económica e social ficando os trabalhadores com as maleitas das sezões como então se designava o paludismo, à falta de um horizonte de esperança num despontar remetido para os confins do tempo apesar de já então soarem novas de libertação dos povos, ainda que distantes, e com a notícia à boca calada da repressão que o Estado Novo exercia sobre os arautos da libertação, condicionava um comportamento de silêncio e a aceitação da realidade como coisa normal e inevitável.
O sentimento de estar longe de casa aproximava as pessoas, proporcionando tantas vezes novas amizades, ou quando menos se esperasse, desentendimentos irrevogáveis.
A rudeza do trabalho era compensada pelos bailaricos no dia de folga, abrilhantados por tocadores de concertina ou de realejo, que além das mesmas motivações dos restantes contratados eram merecedores de uma relação preferencial.
Ali nasciam namoros, uns a prazo, outros a dar em casamento.
Ali se aprendiam cantigas durante a faina nos canteiros e contos ao serão, reproduzidos mais tarde, nas descamisadas de milho nas noites de verão, ou no inverno à volta da lareira para encanto dos mais pequenos.
As mondas do arroz, geralmente na Herdade da Comporta, eram assim um acontecimento repetido ano após ano, que além de ser para muitos o pretexto de conhecer para lá do seu território, valia sobre todas as coisas, por ser uma excepcional fonte de rendimento em dinheiro vivo e, por assim dizer, o acontecimento mais importante para a economia familiar e popular de grande parte do sudoeste alentejano e do barlavento algarvio. Rendimento que, comparativamente à tão falada "bazuca" dos nossos dias, não chegaria ao estatuto de modesta fisga. Chegaria, passo a passo, para num ano fazer os alicerces, no ano seguinte levantar as taipas, no terceiro talvez o telhado e eventualmente um quarto para comprar mobília.
Esta persistência constituía um modelo de economia eternamente precário, comparável ao que ocorria com gente de outras zonas do país, como escreveu Adriano Pacheco numa narrativa inexcedivelmente clara em O Povo Ratinho.
Entretanto muito mudou desde que, num certo Abril de boa memória, o Povo deste país foi finalmente contemplado com o reconhecimento de direitos ansiosamente desejados, mas remetidos para lá de um horizonte incerto.
O testemunho dos ainda vivos que rumavam aos arrozais da Comporta deve estar presente perante novos migrantes, que trazidos do outro lado do mundo esperam encontrar na nossa terra algo semelhante ao que os nossos mondarinos procuravam na terras do Sado.
As exigências de proteção social, sendo bastante distintas das daquele tempo, não nos podem iludir quanto a uma certa precaridade em que se encontram, trazidos por intermediários que, à semelhança dos angariadores de então, ficam com uma parte produzida pelo esforço dos trabalhadores. Chegam para contratos à época, mas invariavelmente acabados os períodos de trabalho ficam ao abandono, inativos e dependentes de "clandestinas" tarefas ocasionais ao mais baixo custo. Não seria de justiça que esses novos angariadores, que na verdade são empresas organizadas internacionalmente, deveriam, findo o período contratado, transportá-los de regresso à origem, ou em alternativa assegurar-lhes um rendimento para permanecerem com dignidade até nova safra? E em caso de incumprimento, serem essas empresas penalizadas ou impedidas de operarem em Portugal?
E quanto ao "receio" desses estranhos que alegadamente se está a instalar nos naturais, tanto maior quanto mais se desconhece o outro, deveríamos lembrar de como os nossos emigrantes dos Anos 50 e 60 eram tolerados, salvo excepções, na Alemanha e na França que ajudaram a reconstruir no pós-guerra desde que se mantivessem à margem da sociedade, instalados em bidonvilles em condições sub-humanas. Di-lo por experiência o autor deste texto, que em 1965 trabalhou na construção civil nos arredores de Dijon.
A humanidade, em cada um dos seus indivíduos, deve ser tratada com respeito, ficando nós tanto mais dignificados quanto mais respeito pusermos no seu trato.
Tal como os luso-descendentes integrados especialmente na sociedade francesa fazem já parte daquele povo, contribuindo em muitos casos na administração e na política, também os que porventura cá ficarem, dependendo do modo como forem tratados e integrados, poderão tornar-se novos portugueses, constituindo uma mais-valia.
Não esqueçamos que o povo português é o resultado de uma imensa diversidade de povos que aqui chegaram ao longo de milhares de anos e que nenhum povo é historicamente estático, modificando-se, crescendo e enriquecendo com a diversidade étnica e cultural numa mistura continuada.



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Data: 18/06/2021
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