quinta-feira, 25/01/2024

100º aniversário da viagem aérea Portugal-Macau. Depois da viagem

António Martins Quaresma
Nesta crónica, referir-se-ão alguns acontecimentos subsequentes, também de forma sumária, que são úteis para se perceber o que, entretanto, se passou após a conclusão da viagem e dos festejos organizados.
As vicissitudes da política nacional nos anos em que se instalou o Estado Novo, regime de inspiração fascista (finais da década de 1920 e inícios da de 1930), afetaram grandemente a memória que ficou da viagem aérea Portugal – Macau. O tenente-coronel José Manuel Sarmento de Beires participou nos movimentos revoltosos contra o novo regime, revoltas a que se deu o nome de “Reviralho”. Após a insurreição de 1931, acabou por ser preso e condenado ao exílio, em 1934, ano fatídico em que despareceu Brito Pais, vítima de acidente do avião que pilotava. Durante o Estado Novo, de Salazar, a viagem aérea que ligou Portugal a Macau foi objeto de esquecimento intencional, por motivos políticos.
Já depois do 25 de Abril de 1974 (ano da morte de Sarmento de Beires), a memória deste evento foi recuperada, particularmente em 1984, com a comemoração em Milfontes do 60º aniversário da viagem, iniciativa promovida a partir dos estudos de história local que então estavam a tomar fôlego. Em Setembro de 1993, finalmente, houve oportunidade de levar por diante a ideia do monumento evocador, com algum dinheiro que, desde 1984, se encontrava em poder da, já inativa, associação Amigos de Milfontes, e com o apoio final da Câmara Municipal de Odemira e da Junta de Freguesia de Milfontes. Sobre o assunto, têm surgido as mais variadas inverdades, mormente nas redes sociais (onde havia de ser!), mas também por autores responsáveis (Vasco Calixto e Henrique Henriques-Mateus), que estes equivocadamente atribuíram a iniciativa do monumento à Junta de Freguesia. O projeto vencedor, da autoria do arquiteto Geraldes Cardoso e do escultor Soares Branco, ganhou o concurso por quatro votos contra três. A propósito, o autor destas linhas votou vencido quando, integrando o júri do concurso aberto, o mesmo júri selecionou o projecto vencedor.
Recordo que o monumento – uma vela branca triangular, em alvenaria, com uma cruz de Cristo pintada e uma escultura, em bronze, representando os aviadores a bordo do “Pátria”, de onde partem dois esteios de aço que sustentam uma miniatura do avião – acabou por ser objeto de negociação final com os autores, pois houve que reduzir a escala do projecto, excessiva, e mudar um pouco o sítio, de modo a ajustar ao espaço onde se ergueu. Espaço, diga-se de passagem, que talvez não fosse o mais indicado, mas que tinha sido escolhido, em setembro de 1924, e que, sendo propriedade da Junta de Freguesia de Milfontes, esta o ofereceu para o efeito. Uma curiosidade: durante a edificação do monumento foi encontrada uma “caixa” de pedra arenítica, contendo um exemplar de cada uma das moedas correntes em 1924, duas delas de prata, manchadas pelo zinabre das de cobre, devido à humidade; foram recolocadas no lugar, com proteções de plástico, juntamente com moedas correntes em 1993.
Depois de 1993, foram levadas a efeito, em Milfontes, algumas performances, uma delas organizada pelo Teatro ao Largo, com grande impacto visual. Em Colos, por seu lado, a Escola Básica local recebeu o nome de Brito Pais, em homenagem a este aviador: na verdade, embora ele tenha nascido no Monte dos Malveiros, pertencente à família, que fica na freguesia de Santa Luzia, ele foi batizado em Colos, terra onde possuía habitação. Aliás, é no cemitério de Colos que se encontra sepultado, em jazigo familiar.
No presente ano de 2024 vai realizar-se um conjunto de eventos para celebrar o centésimo aniversário do feito, num programa que está em vias de conclusão por um grupo de trabalho reunido para o efeito, que propôs ao Município de Odemira a organização das comemorações. Esse será o tema da próxima crónica, a última desta série.
As vicissitudes da política nacional nos anos em que se instalou o Estado Novo, regime de inspiração fascista (finais da década de 1920 e inícios da de 1930), afetaram grandemente a memória que ficou da viagem aérea Portugal – Macau. O tenente-coronel José Manuel Sarmento de Beires participou nos movimentos revoltosos contra o novo regime, revoltas a que se deu o nome de “Reviralho”. Após a insurreição de 1931, acabou por ser preso e condenado ao exílio, em 1934, ano fatídico em que despareceu Brito Pais, vítima de acidente do avião que pilotava. Durante o Estado Novo, de Salazar, a viagem aérea que ligou Portugal a Macau foi objeto de esquecimento intencional, por motivos políticos.
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