quinta-feira, 27/06/2024

A exportação de grandes ideias

Fernando Almeida
Sabemos bem que Portugal tem fama e proveito de ser terra de descobridores. Festejamos as épicas descobertas marítimas de outros tempos, mas esquecemos de festejar as descobertas e invenções mais recentes que, tal como os caminhos marítimos do passado, também darão novos rumos ao mundo: refiro-me ao “capitalismo sem risco”, invenção absolutamente “tuga”, mas que, como se verá um dia, se deverá espalhar pelo planeta como nova modalidade de capitalismo dominado pelo setor financeiro. Parece na verdade que, se o capitalismo tradicional remunera com lucro o risco do investimento, o capitalismo inventado nesta pontinha do mundo garante sempre lucros chorudos, quer os negócios corram bem ou não. Ensaiamos o sistema nas PPP’s rodoviárias e correu tão bem para os investidores que agora parece haver quem o queira generalizar ao mundo. Podemos, mais uma vez, orgulhar-nos de uma descoberta genuinamente portuguesa que vai influenciar o mundo!
Esta minha convicção de que se pretende generalizar este modelo de negócio, em que os investidores têm lucro garantido, e alguém terá certamente prejuízo, nasceu do discurso de Larry Fink, CEO da BlackRock no recente encontro do G7 em Itália. Para os menos bem informados, o G7 é o grupo dos países que se intitulam como os “mais industrializados do mundo”, ou seja, os quatro grandes da Europa Ocidental (Alemanha, França, Itália e Reino Unido) aos quais se juntam o Canadá, os Estados Unidos da América e o Japão. Já a BlackRock é uma gigantesca corporação cujos ativos superam o Produto Interno Bruto (PIB) de qualquer país do mundo, com exceção da China ou dos EUA. Para se ter uma ideia, o valor que tem sob sua gestão ultrapassou no último ano cinco vezes o PIB do Brasil… Este gigante da finança é o proprietário ou principal acionista de quase todas as grandes empresas do mundo ocidental, desde a Coca-Cola aos maiores bancos, fundos de investimento, companhias de aviação e farmacêuticas, etc., etc..
Embora isso tenha sido ignorado pela comunicação social, ou tenha passado despercebido, Larry Fink (tal como o CEO da Microsoft, Satya Nadella) esteve em Itália no encontro do G7, e o discurso que fez pode ser interpretado como um conjunto de orientações para as políticas económicas desses países e, evidentemente, para os mais pequenos da constelação que os orbitam e que deles dependem, como Portugal. O discurso, porque certamente marcará o rumo do Ocidente no que se refere a política de investimentos públicos (portanto o nosso futuro), e porque assenta numa excelente análise da realidade, merece ser analisado.
Começa por referir que antigamente eram os bancos quem financiava a economia, mas que isso mudou e hoje são os “mercados de capitais” quem financia tanto os investimentos públicos como os privados. Diz também, e isso normalmente é escondido a todos nós, que quem necessita mais de investimentos para fazer sobreviver não são os países emergentes do sul, mas antes os países ricos do Ocidente, e explica porquê. Refere que a dívida média dos países do G7 é de 129% do PIB, ou seja, essa dívida não se conseguirá pagar sem um crescimento económico muito acentuado. Lembremos que por menos que isso tivemos nós, em Portugal, que chamar a “troika” para evitar a falência do país…
Na sua análise lúcida e racional, Larry Fink constata que a população destes países que têm dominado o mundo está a envelhecer, o que evidentemente dificulta o crescimento da economia (digo eu, sociedades velhas não são inovadoras, têm baixa produtividade e grandes despesas). Diz ainda, e isto é fundamental, que as infraestruturas destes mesmos países estão cada vez mais obsoletas e que sem boas infraestruturas não é possível o desenvolvimento. Veja-se o exemplo dos comboios de alta velocidade (TGV), que estão totalmente ausentes nos Estados Unidos e que na Europa Ocidental tem apenas menos de doze mil quilómetros de linhas. Entretanto, a China já tem mais de quarenta mil quilómetros de linhas, sendo que em grande parte delas se circula a mais de 350 Km/hora. Essa mesma degradação ou atraso verifica-se nos metropolitanos e transportes urbanos, nos portos e aeroportos, etc..
Para além destas infraestruturas físicas tradicionais, Larry Fink refere também a necessidade de desenvolver a Inteligência Artificial (IA), e os data centers que a suportem, e que isso terá um duplo impacto na economia. Por um lado, a IA fará crescer a produtividade, mas por outro lado será grande consumidora de energia, o que obrigará também a muitos investimentos em fontes de energia renováveis.
Feito o diagnóstico, o CEO da BlackRock conclui (com razão, digo eu) que os países do Ocidente não dispõem de recursos financeiros para fazer face aos necessários investimentos em infraestruturas que permitam um crescimento significativo sem conduzir à própria falência dos Estados. Assim, propõe que os estados do Ocidente desenvolvam projetos de criação ou modernização de infraestruturas em parceria com os “capitais” privados. É aqui que entra a invenção genuinamente portuguesa, mas que infelizmente não foi patenteada em devido tempo: o que ele propõe é o desenvolvimento de PPP’s e do seu modelo de capitalismo sem risco para os investidores. Para além dos lucros garantidos que estes negócios darão às grandes empresas financeiras que o Sr. Larry Fink tão bem conhece, irá também torná-las proprietárias de setores vitais dos países, como as infraestruturas de transportes, comunicações, energia, direitos sobre a água, propriedade dos solos agrícolas…
Adivinha-se pelas palavras de Larry Fink que esse será o novo caminho para que as grandes corporações continuem a encher os cofres com biliões de dólares, mas que os povos se tornarão cada vez mais servos desses novos senhores do mundo. A nossa salvação só poderá resultar da sobrevivência de alguns países do mundo, que consigam resistir a este “admirável mundo novo” que discretamente se vai implantando por cá. Para nosso próprio bem, espero que consigam resistir.
Esta minha convicção de que se pretende generalizar este modelo de negócio, em que os investidores têm lucro garantido, e alguém terá certamente prejuízo, nasceu do discurso de Larry Fink, CEO da BlackRock no recente encontro do G7 em Itália. Para os menos bem informados, o G7 é o grupo dos países que se intitulam como os “mais industrializados do mundo”, ou seja, os quatro grandes da Europa Ocidental (Alemanha, França, Itália e Reino Unido) aos quais se juntam o Canadá, os Estados Unidos da América e o Japão. Já a BlackRock é uma gigantesca corporação cujos ativos superam o Produto Interno Bruto (PIB) de qualquer país do mundo, com exceção da China ou dos EUA. Para se ter uma ideia, o valor que tem sob sua gestão ultrapassou no último ano cinco vezes o PIB do Brasil… Este gigante da finança é o proprietário ou principal acionista de quase todas as grandes empresas do mundo ocidental, desde a Coca-Cola aos maiores bancos, fundos de investimento, companhias de aviação e farmacêuticas, etc., etc..
Embora isso tenha sido ignorado pela comunicação social, ou tenha passado despercebido, Larry Fink (tal como o CEO da Microsoft, Satya Nadella) esteve em Itália no encontro do G7, e o discurso que fez pode ser interpretado como um conjunto de orientações para as políticas económicas desses países e, evidentemente, para os mais pequenos da constelação que os orbitam e que deles dependem, como Portugal. O discurso, porque certamente marcará o rumo do Ocidente no que se refere a política de investimentos públicos (portanto o nosso futuro), e porque assenta numa excelente análise da realidade, merece ser analisado.
Começa por referir que antigamente eram os bancos quem financiava a economia, mas que isso mudou e hoje são os “mercados de capitais” quem financia tanto os investimentos públicos como os privados. Diz também, e isso normalmente é escondido a todos nós, que quem necessita mais de investimentos para fazer sobreviver não são os países emergentes do sul, mas antes os países ricos do Ocidente, e explica porquê. Refere que a dívida média dos países do G7 é de 129% do PIB, ou seja, essa dívida não se conseguirá pagar sem um crescimento económico muito acentuado. Lembremos que por menos que isso tivemos nós, em Portugal, que chamar a “troika” para evitar a falência do país…
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