quinta-feira, 09/01/2025

Vasco da Gama - O homem e a lenda

António Martins Quaresma
No dia 24 de dezembro de 1524, morria em Cochim, na Índia, Vasco da Gama, enviado do rei de Portugal. Acabara de realizar a sua terceira viagem ao Oriente. Era homem na casa dos 50 anos e foi vitimado por uma doença tropical. Completaram-se, portanto, há alguns dias, 500 anos sobre o acontecimento.
Recorde-se, antes de mais, que Vasco da Gama nasceu em Sines, filho do alcaide--mor Estêvão da Gama, tendo auferido rendas em Sines e Vila Nova de Milfontes (seu pai também em Colos), pertencentes à comenda da Ordem de Santiago. Em Sines, a ermida de Nossa Senhora das Salas, com o seu portal manuelino e as inscrições alusivas a Vasco da Gama, e uma estátua de bronze, inaugurada em 1970, junto ao castelo, são elementos materiais que recordam o nauta. Além disso, é lembrado por muitas outras referências, como o nome da Praia de Vasco da Gama.
Vasco da Gama representa, historicamente, o culminar da ação exploratória de novas rotas marítimas e de terras desconhecidas dos europeus – os Descobrimentos. Simboliza ainda o momento em que a Europa e a Ásia estabelecem relações duradouras e o mundo entra numa nova era – o historiador inglês Arnold Toynbee fez a distinção entre “Era pré-gâmica” e “Era pós-gâmica” – uma época que muitos consideram o início da globalização, tida como um processo de integração económica, social, cultural e política, um “sistema mundo”, que elevou o capitalismo a sistema mundial (ver trabalhos de Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein, nomeadamente). E, claro, ao domínio colonial de potências europeias sobre boa parte do planeta.
Em 1998, no quadro das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (em 1497, portanto 500 anos antes, partira Vasco da Gama de Lisboa para a primeira viagem à Índia, diretamente, através da rota do Cabo da Boa Esperança), foram publicados dois livros, que pretendiam actualizar a informação e a perspectiva sobre esta figura: de Luís Adão da Fonseca, Vasco da Gama: o Homem, a Viagem, a Época; e de Sanjay Subrahmanyam, A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, reeditado em 2024 com o título Vasco da Gama: a carreira e a lenda do maior navegador de sempre. Dois historiadores, um português, o outro, indiano; duas visões. O segundo causou algum desconforto em setores mais conservadores em Portugal.
Da personalidade do almirante têm sido destacados traços como ser “ousado em cometer qualquer feito, no mandar, áspero e muito para temer em sua paixão”, no dizer do cronista João de Barros. Líder destemido e autoritário, a rudeza e violência eram seus apanágios, como quando, durante a sua segunda viagem, ordenou que queimassem uma nau de peregrinos muçulmanos, “com muita crueldade e sem comiseração alguma”, segundo escreveu Tomé Lopes. O mesmo homem que, sendo já Conde da Vidigueira (em 1519), entrava em ruptura com a orientação política dominante e proferia em Lisboa “autênticas loucuras”, no dizer do embaixador espanhol, tendo mesmo antes pedido autorização para deixar o País (1518). A própria vila de Sines foi motivo de conflito, com a Ordem de Santiago de permeio, tendo, a certa altura (1507), D. Manuel ordenado a “expulsão” de Vasco da Gama desta vila – embora a ordem tivesse ficado letra morta.
Para terminar estas breves linhas, é útil lembrar que só no ambiente historicista e nacionalista do século XIX, em que se reinventa o passado com vista a produzir uma nova memória em volta de “grandes homens” e “grandes acontecimentos” (Camões, Vasco da Gama, a descoberta do caminho marítimo para a Índia...), a figura de Vasco da Gama, que já havia sido o herói do poema épico Lusíadas, foi recuperada e erguida sobre o altar da “religião cívica”, cujo panteão Augusto Comte sistematizou. Tratou-se, numa visão lusocêntrica, de arvorar o passado glorioso em paradigma para superação da decadência por que então a Pátria passava, como bem estudou Fernando Catroga. Afinal, o Vasco da Gama que as últimas gerações de portugueses “conheceram”.
Recorde-se, antes de mais, que Vasco da Gama nasceu em Sines, filho do alcaide--mor Estêvão da Gama, tendo auferido rendas em Sines e Vila Nova de Milfontes (seu pai também em Colos), pertencentes à comenda da Ordem de Santiago. Em Sines, a ermida de Nossa Senhora das Salas, com o seu portal manuelino e as inscrições alusivas a Vasco da Gama, e uma estátua de bronze, inaugurada em 1970, junto ao castelo, são elementos materiais que recordam o nauta. Além disso, é lembrado por muitas outras referências, como o nome da Praia de Vasco da Gama.
Vasco da Gama representa, historicamente, o culminar da ação exploratória de novas rotas marítimas e de terras desconhecidas dos europeus – os Descobrimentos. Simboliza ainda o momento em que a Europa e a Ásia estabelecem relações duradouras e o mundo entra numa nova era – o historiador inglês Arnold Toynbee fez a distinção entre “Era pré-gâmica” e “Era pós-gâmica” – uma época que muitos consideram o início da globalização, tida como um processo de integração económica, social, cultural e política, um “sistema mundo”, que elevou o capitalismo a sistema mundial (ver trabalhos de Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein, nomeadamente). E, claro, ao domínio colonial de potências europeias sobre boa parte do planeta.
Em 1998, no quadro das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (em 1497, portanto 500 anos antes, partira Vasco da Gama de Lisboa para a primeira viagem à Índia, diretamente, através da rota do Cabo da Boa Esperança), foram publicados dois livros, que pretendiam actualizar a informação e a perspectiva sobre esta figura: de Luís Adão da Fonseca, Vasco da Gama: o Homem, a Viagem, a Época; e de Sanjay Subrahmanyam, A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, reeditado em 2024 com o título Vasco da Gama: a carreira e a lenda do maior navegador de sempre. Dois historiadores, um português, o outro, indiano; duas visões. O segundo causou algum desconforto em setores mais conservadores em Portugal.
Da personalidade do almirante têm sido destacados traços como ser “ousado em cometer qualquer feito, no mandar, áspero e muito para temer em sua paixão”, no dizer do cronista João de Barros. Líder destemido e autoritário, a rudeza e violência eram seus apanágios, como quando, durante a sua segunda viagem, ordenou que queimassem uma nau de peregrinos muçulmanos, “com muita crueldade e sem comiseração alguma”, segundo escreveu Tomé Lopes. O mesmo homem que, sendo já Conde da Vidigueira (em 1519), entrava em ruptura com a orientação política dominante e proferia em Lisboa “autênticas loucuras”, no dizer do embaixador espanhol, tendo mesmo antes pedido autorização para deixar o País (1518). A própria vila de Sines foi motivo de conflito, com a Ordem de Santiago de permeio, tendo, a certa altura (1507), D. Manuel ordenado a “expulsão” de Vasco da Gama desta vila – embora a ordem tivesse ficado letra morta.
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