quinta-feira, 29/05/2025

As “voltas” do rio Mira


António Martins Quaresma
Recordo ainda o tempo em que os “iates” de cabotagem subiam e desciam o rio Mira, com os seus porões ajoujados de carga. Lembro também os pequenos “botes” de Vila Nova de Milfontes que faziam, além da faina da pesca, uma multiplicidade de transportes no rio. Eles carregavam cereais para os moinhos e farinha para as povoações ou montes isolados, transportavam lenha, levavam encomendas de produtos de consumo corrente, faziam, enfim, os mais diversos fretes. O percurso, mais ou menos longo, podia obrigar o barqueiro a remar, de uma só vez, seis horas ? o tempo de uma maré ?, entre Milfontes e Odemira. Mais seis no regresso.
Com o seu regime estuarino, encontramos fortemente presente a influência do mar neste troço do Mira. As marés determinavam o horário de partidas e chegadas: ritmos da natureza e força de braços enrijecidos e mãos calejadas combinavam-se intimamente, em perfeita economia do esforço humano. A toada regular da pá do remo a entrar na água, cortando o silêncio sem motores das madrugadas húmidas e levemente rumorejantes de águas separadas pela proa afilada, rareou cada vez mais até se apagar dos sons do rio e da memória dos homens.
Como rio velho que é, o Mira meandra entre cerros, esteiros e sapais, formando as “voltas”, que o caracterizam e, entre Odemira e Milfontes, são mais de duas dezenas. Cada uma dessas voltas tem um nome, usado por antigos utilizadores do rio, como os marinheiros dos navios de cabotagem, os pescadores e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, lidavam com o rio.
É possível que uns nomes tenham passado da terra para o rio e outros do rio para a terra. Eles remetem-nos para realidades diferentes. No entanto, uns, como D. Soeiro, Cuba, Roncão ou Torgal, têm real origem desconhecida, ou duvidosa. Já a Volta de Santa Maria, onde o rio apresenta a sua maior profundidade, parece ligar-se a uma crença popular, em que antigas narrativas lendárias se caldeiam com aportes mais recentes. A Volta de Porto Carvão, hoje pouca gente a conhece; ela parece indicar um dos desaparecidos pontos de carga de carvão, o combustível de origem vegetal que esta região exportou durante séculos, mormente para o Porto de Lisboa, através da navegação de cabotagem.
Em tempos, a bordo de um barco que se dedicava a passear turistas no Mira, tive uma altercação com um dos desses agentes turísticos que ofereciam excursões no rio e que insistia em utilizar a designação de “curvas” para as “voltas” do Mira, opção que eu achava inadequada e indiciadora de escasso entendimento da cultura ribeirinha. “Feitios de criaturas!”, teria exclamado o Ti’ Elói, figura patusca de antanho, em Vila Nova de Milfontes, propenso a desculpar dislates.
Não se trata de forçar, como absoluta, uma opinião pessoal – embora nos tempos que correm haja temas em que, prática e preocupantemente, está imposto “pensamento único”, máxime, num dos temas dominantes da geopolítica. Ao contrário dessa perversão que se está impondo na opinião política nacional e que mina a democracia, estamos, no caso mais comezinho do rio Mira, perante um dado objectivo, de dimensão cultural, insuscetível de grande discussão.
Também não se trata de um mero purismo. A utilização turística do rio Mira deve, naturalmente, entre os vários valores que este oferece à fruição, contemplar o património linguístico e toponímico, um património imaterial que memoriza uma antiga relação do homem com o rio, enquanto valor cultural que é. E os agentes turísticos têm, eles próprios, todo o interesse em informar-se, em adquirir preparação para a sua função, e não virem impor estranhas expressões. É o mínimo que devem fazer, tendo em conta a qualidade do “produto” que vendem.

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