quinta-feira, 14/03/2019

Rio Mira vai cheio (III)

António Martins Quaresma
“Nasce o dito rio do mar largo, discorrendo pela terra adentro seis léguas [...] e no seu nascimento do mar faz sua barra”, escrevia, em 1758, o pároco de Milfontes, confundindo aparentemente as coisas. Na realidade, a sua descrição apercebe a influência determinante das marés no seu regime hidrológico, isto é, em todo o ambiente estuarino. É o “rio mestre de água salgada”, conforme a expressão contida em registos de início do século XIX.
Ou como descrevia, em 1909, o botânico Gonçalo Sampaio, que herborizou nas suas margens:
“São cinco léguas sobre a corrente, é certo, não se vendo mais do que duas ou três herdades, nem descobrindo outra coisa, como paisagem, que não seja cerros incultos e abandonados; mas, em compensação, que agradáveis surpresas com a descoberta de excelentes plantas, cujos exemplares são sofregamente colhidos, entre as reclamações dos barqueiros, sempre receosos que a maré se perca! O rio Mira é mais um extenso canal ou braço de mar do que um verdadeiro rio. Desde pouca distancia da vila para jusante, o volume da sua água é muito considerável, mas essa água conserva-se sempre salgada, porque é quási exclusivamente água marítima, correndo ora para cima ora para baixo, conforme sobe ou vaza a maré.”
Este é o segmento do Mira que, ao longo de séculos, constituiu uma estrada aquática, com cerca de 25 Km de extensão, percorrida pelos barcos que vinham carregar mercadorias do hinterland para o exterior e traziam as que a região necessitava. Movimento que só cessou ao entrar a segunda metade do século XX, quando ocorreram significativas alterações nos transportes terrestres, em Portugal.
É cruzado por três pontes, as principais obras de que beneficiou: duas em Odemira, a primeira de 1891 e a segunda, apenas pedonal, com escassa meia-dúzia de anos, e a de Milfontes, inaugurada em 1978. Longe vão os tempos das barcas da passagem do rio, de que, junto a Odemira, subsistem os marcos em alvenaria do seu sistema de funcionamento.
Olhando o seu percurso, notamos que o estreito troço até à arrebatada Volta do Moinho d’Além se contorce dramaticamente em acentuados meandros. Na vaza das margens, entre os caniços, aparecem cágados, cada vez mais raros, no entanto. Próximo do Roncão Velho, a cerca de 8 Km da vila de Odemira, na margem direita, desagua a ribeira do Torgal, o afluente mais importante deste segmento.
Uma velha estrutura, em estacaria de betão armado – o cais da Casa Branca – surge na margem direita, percorridos mais ou menos 2/3 do caminho. Com o celeiro da FNPT, que lhe fica ao lado, foi construído em 1936-1937 e lembra o tempo da exportação de cereal e da importação de adubo, por meio da navegação comercial.
Depois da Volta de Santa Maria, o rio, agora decididamente mais largo, ladeado por extensos sapais, com a Serra do Cercal/ São Luís perfilando-se à direita, encaminha-se na direcção da sua última volta. Junto aos Esteiro da Gama e do Moinho da Asneira, capturado por um vale de origem tectónica, volve bruscamente para poente, a cerca de 3,5 kms da foz.
Defronte de Vila Nova de Milfontes, espraia-se e tende a formar uma extensa coroa de areia. O assoreamento da área terminal é verificável também na foz, onde a barra, de areias móveis, coloca, há séculos, condicionantes ao trânsito de embarcações. Recentemente, a dragagem, efectuada entre a Ponta do Castelo e um pouco a jusante dos Rochos Pretos, pretendeu resolver problemas de fundos e a reconstituição do cordão dunar da Praia da Franquia, isto é, a recarga sedimentar dessa praia. Porém, não partindo de um estudo prévio, aprofundado, das componentes terrestre e aquática do sistema e das suas interacções – na realidade, a obra realizada foi decidida a priori – os resultados não podiam deixar de ser imprevisíveis, como em certa medida já se verificou. As peças anexas ao projecto, particularmente o “estudo de impacte ambiental” (obrigatório por lei), limitaram-se a justificar a acção, de forma “aceitável”, bem como a preparar os pormenores concretos da sua execução. Uma das alternativas apresentadas – a C –, que previa deposição de dragados na área dunar adjacente, possuía, mesmo, um certo grau de aventureirismo.
A componente sedimentar, boa parte dela, decerto, hoje em dia, influenciada pela deriva litoral, caracteriza a parte final do estuário do Mira. A instabilidade verificada em parte do sistema afectou algumas das praias, em especial a da Franquia, o que colocou em risco a própria estrada para o farol e acabou por ser uma das justificações para a dragagem referida.
De assinalar que o estuário do rio Mira tem, nas três últimas dezenas de anos, sido objecto de investigação, mormente na área da Biologia (fauna e flora), o que produziu um acervo importante para o seu conhecimento. Ele mostra que o Mira não é um mero canal de água, nem mesmo apenas um elemento forte na paisagem, mas alberga uma apreciável diversidade biológica, inclusive com directo interesse económico (ostras, pescado).
Ou como descrevia, em 1909, o botânico Gonçalo Sampaio, que herborizou nas suas margens:
“São cinco léguas sobre a corrente, é certo, não se vendo mais do que duas ou três herdades, nem descobrindo outra coisa, como paisagem, que não seja cerros incultos e abandonados; mas, em compensação, que agradáveis surpresas com a descoberta de excelentes plantas, cujos exemplares são sofregamente colhidos, entre as reclamações dos barqueiros, sempre receosos que a maré se perca! O rio Mira é mais um extenso canal ou braço de mar do que um verdadeiro rio. Desde pouca distancia da vila para jusante, o volume da sua água é muito considerável, mas essa água conserva-se sempre salgada, porque é quási exclusivamente água marítima, correndo ora para cima ora para baixo, conforme sobe ou vaza a maré.”
Este é o segmento do Mira que, ao longo de séculos, constituiu uma estrada aquática, com cerca de 25 Km de extensão, percorrida pelos barcos que vinham carregar mercadorias do hinterland para o exterior e traziam as que a região necessitava. Movimento que só cessou ao entrar a segunda metade do século XX, quando ocorreram significativas alterações nos transportes terrestres, em Portugal.
É cruzado por três pontes, as principais obras de que beneficiou: duas em Odemira, a primeira de 1891 e a segunda, apenas pedonal, com escassa meia-dúzia de anos, e a de Milfontes, inaugurada em 1978. Longe vão os tempos das barcas da passagem do rio, de que, junto a Odemira, subsistem os marcos em alvenaria do seu sistema de funcionamento.
Olhando o seu percurso, notamos que o estreito troço até à arrebatada Volta do Moinho d’Além se contorce dramaticamente em acentuados meandros. Na vaza das margens, entre os caniços, aparecem cágados, cada vez mais raros, no entanto. Próximo do Roncão Velho, a cerca de 8 Km da vila de Odemira, na margem direita, desagua a ribeira do Torgal, o afluente mais importante deste segmento.
Uma velha estrutura, em estacaria de betão armado – o cais da Casa Branca – surge na margem direita, percorridos mais ou menos 2/3 do caminho. Com o celeiro da FNPT, que lhe fica ao lado, foi construído em 1936-1937 e lembra o tempo da exportação de cereal e da importação de adubo, por meio da navegação comercial.
Depois da Volta de Santa Maria, o rio, agora decididamente mais largo, ladeado por extensos sapais, com a Serra do Cercal/ São Luís perfilando-se à direita, encaminha-se na direcção da sua última volta. Junto aos Esteiro da Gama e do Moinho da Asneira, capturado por um vale de origem tectónica, volve bruscamente para poente, a cerca de 3,5 kms da foz.
Defronte de Vila Nova de Milfontes, espraia-se e tende a formar uma extensa coroa de areia. O assoreamento da área terminal é verificável também na foz, onde a barra, de areias móveis, coloca, há séculos, condicionantes ao trânsito de embarcações. Recentemente, a dragagem, efectuada entre a Ponta do Castelo e um pouco a jusante dos Rochos Pretos, pretendeu resolver problemas de fundos e a reconstituição do cordão dunar da Praia da Franquia, isto é, a recarga sedimentar dessa praia. Porém, não partindo de um estudo prévio, aprofundado, das componentes terrestre e aquática do sistema e das suas interacções – na realidade, a obra realizada foi decidida a priori – os resultados não podiam deixar de ser imprevisíveis, como em certa medida já se verificou. As peças anexas ao projecto, particularmente o “estudo de impacte ambiental” (obrigatório por lei), limitaram-se a justificar a acção, de forma “aceitável”, bem como a preparar os pormenores concretos da sua execução. Uma das alternativas apresentadas – a C –, que previa deposição de dragados na área dunar adjacente, possuía, mesmo, um certo grau de aventureirismo.
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