quinta-feira, 08/01/2026

O conde húngaro

António Martins Quaresma
Já era a terceira vez que, sempre num dos canais da televisão, começava a ver “O Paciente Inglês”, o premiadíssimo filme de 1996, realizado por Anthony Minghella e baseado na obra literária homónima, do canadiano Michael Ondaatje. Nas duas primeiras vezes, a visualização do filme fora interrompida por motivos que já não conseguia recordar, mas decerto tiveram algo a ver com a sua longa duração de duas horas e meia. Agora, na noite particularmente fria no Litoral Alentejano, sentado no sofá, com a lareira aquecendo-lhe os pés e a alma, iniciava mais uma tentativa para levar o filme até ao fim.
Este tem como tema principal uma história de amor terminada tragicamente, com o ambiente da II Guerra Mundial em fundo. Contada sob a forma de flashbacks, a história vai surgindo em fragmentos de memória do “paciente”, desfigurado e irremediavelmente condenado, em resultado das queimaduras sofridas num acidente de avião. A figura central, desempenhada pelo actor Ralph Fiennes, é o conde Laszló de Almásy, personalidade histórica, cuja vida aparece, contudo, fantasiada no interesse da trama concebida pelo autor do livro e pelo realizador do filme.
As guerras mundiais do século XX, em particular a segunda, têm sido um manancial para argumentos cinematográficos, sejam centrados nos acontecimentos bélicos, como o caso do épico norte-americano “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), sejam com elas em pano de fundo, como no acontece com “O Paciente Inglês”.
Bem, esta crónica não é sobre cinema, embora se inspire no enredo de um filme. Na realidade, é a figura do (soi disant) conde húngaro que suscitou a nossa atenção. Segundo várias páginas da Internet, nomeadamente a Wikipedia, Laszló de Almásy nasceu em 1895 numa família aristocrática húngara de Burgenland, região que hoje pertence à Áustria, e estudou em Inglaterra. Ele participou nas guerras mundiais, integrando sucessivamente os exércitos austro-húngaro e alemão, de acordo com a sua origem e nacionalidade. Na 2ª Guerra Mundial, colaborou com a inteligência militar alemã e integrou a Afrikakorps, de Rommel, nas operações no deserto do Norte de África. No rescaldo da guerra, identificado com a parte perdedora, chegou a ser preso, acabando, mais tarde, exilado no Cairo.
Almásy morreu com 55 anos, em Março de 1951, na Áustria, onde, recentemente, havia regressado, doente com grave infeção intestinal, contraída numa viagem à antiga colónia africana portuguesa de Moçambique.
Dotado de várias competências em áreas de vanguarda – aviação, automobilismo, cartografia –, encabeçou várias expedições ao deserto da Líbia, nos anos de entre guerras, ganhando grande reputação enquanto explorador, cujas aventuras estão narradas em livro autobiográfico. Entre 1932 e 1935, reconheceu vales ocultos, como o chamado “Oásis dos Pássaros”, descobriu os sítios de arte rupestre pré-histórica de Uweinat e Gilf Kebir, bem assim a montanha mais alta do Saara Oriental (Jebel Uweinat), nas fronteiras do Egipto, Líbia e Sudão, e uma tribo núbia desconhecida (os Magiarab), alegadamente de origem húngara, formada remotamente no seio do Império Otomano. De todas estas explorações, elaborou proveitosos levantamentos cartográficos, dando utilidade à sua habilitação enquanto perito na representação gráfica do espaço geográfico.
As pinturas rupestres de Gilf Kebir, no Sudoeste egipcío, têm sido datadas do Neolítico (6500 – 4400 a. C.) e fornecem preciosas informações sobre a vida dos habitantes durante um período de grande humidade no Sahara, com abundância de água, em que que o atual deserto era ocupado por savana, percorrida por animais, como girafas, elefantes, avestruzes, leões e, naturalmente, por humanos. Lugares-chave desta arte incluem a “gruta dos nadadores”, numa dinâmica cena pintada na rocha, em que várias figuras humanas se entregam à prática da natação. Uma prova de que alterações climáticas, de origem digamos “natural”, afetaram dramaticamente toda a região do Sahara, com consequências catastróficas sobre a vida animal e vegetal neste extenso espaço. Como consequência negativa da divulgação do filme “O Paciente Inglês”, uma turba de turistas e outros visitantes procurou as grutas, com sérios prejuízos para a sua conservação, situação que arqueólogos e autoridades têm procurado reverter. Mais uma vez, é possível obter informação sobre estas questões na Internet, onde se podem encontrar tanto textos de divulgação como trabalhos de académicos.
Hoje, além das obras ficcionadas da literatura e do cinema, a sua vida é recordada, nomeadamente, por trabalhos escritos e por fotografias, que realçam o seu contributo de explorador e as suas descobertas no deserto. Ele é recordado ainda, por exemplo, através de um busto da autoria do escultor Béla Domonkos, existente no jardim do Museu da Geografia, da Hungria,
A biografia do conde Almásy, que muito brevemente aflorámos, remete-nos para a célebre frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, “o homem é ele e a sua circunstância”, que resume a ideia de que o ser humano é inseparável do contexto em que vive. A de Almásy foi naturalmente, desde logo, influenciada pelo nascimento e pela educação, depois pelos factos relevantes das guerras mundiais, em particular da segunda, em que esteve ativamente imerso – mas o rumo e a factualidade da sua vida têm naturalmente também a ver com a intrinsecidade humana.
Este tem como tema principal uma história de amor terminada tragicamente, com o ambiente da II Guerra Mundial em fundo. Contada sob a forma de flashbacks, a história vai surgindo em fragmentos de memória do “paciente”, desfigurado e irremediavelmente condenado, em resultado das queimaduras sofridas num acidente de avião. A figura central, desempenhada pelo actor Ralph Fiennes, é o conde Laszló de Almásy, personalidade histórica, cuja vida aparece, contudo, fantasiada no interesse da trama concebida pelo autor do livro e pelo realizador do filme.
As guerras mundiais do século XX, em particular a segunda, têm sido um manancial para argumentos cinematográficos, sejam centrados nos acontecimentos bélicos, como o caso do épico norte-americano “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), sejam com elas em pano de fundo, como no acontece com “O Paciente Inglês”.
Bem, esta crónica não é sobre cinema, embora se inspire no enredo de um filme. Na realidade, é a figura do (soi disant) conde húngaro que suscitou a nossa atenção. Segundo várias páginas da Internet, nomeadamente a Wikipedia, Laszló de Almásy nasceu em 1895 numa família aristocrática húngara de Burgenland, região que hoje pertence à Áustria, e estudou em Inglaterra. Ele participou nas guerras mundiais, integrando sucessivamente os exércitos austro-húngaro e alemão, de acordo com a sua origem e nacionalidade. Na 2ª Guerra Mundial, colaborou com a inteligência militar alemã e integrou a Afrikakorps, de Rommel, nas operações no deserto do Norte de África. No rescaldo da guerra, identificado com a parte perdedora, chegou a ser preso, acabando, mais tarde, exilado no Cairo.
Almásy morreu com 55 anos, em Março de 1951, na Áustria, onde, recentemente, havia regressado, doente com grave infeção intestinal, contraída numa viagem à antiga colónia africana portuguesa de Moçambique.
Dotado de várias competências em áreas de vanguarda – aviação, automobilismo, cartografia –, encabeçou várias expedições ao deserto da Líbia, nos anos de entre guerras, ganhando grande reputação enquanto explorador, cujas aventuras estão narradas em livro autobiográfico. Entre 1932 e 1935, reconheceu vales ocultos, como o chamado “Oásis dos Pássaros”, descobriu os sítios de arte rupestre pré-histórica de Uweinat e Gilf Kebir, bem assim a montanha mais alta do Saara Oriental (Jebel Uweinat), nas fronteiras do Egipto, Líbia e Sudão, e uma tribo núbia desconhecida (os Magiarab), alegadamente de origem húngara, formada remotamente no seio do Império Otomano. De todas estas explorações, elaborou proveitosos levantamentos cartográficos, dando utilidade à sua habilitação enquanto perito na representação gráfica do espaço geográfico.
As pinturas rupestres de Gilf Kebir, no Sudoeste egipcío, têm sido datadas do Neolítico (6500 – 4400 a. C.) e fornecem preciosas informações sobre a vida dos habitantes durante um período de grande humidade no Sahara, com abundância de água, em que que o atual deserto era ocupado por savana, percorrida por animais, como girafas, elefantes, avestruzes, leões e, naturalmente, por humanos. Lugares-chave desta arte incluem a “gruta dos nadadores”, numa dinâmica cena pintada na rocha, em que várias figuras humanas se entregam à prática da natação. Uma prova de que alterações climáticas, de origem digamos “natural”, afetaram dramaticamente toda a região do Sahara, com consequências catastróficas sobre a vida animal e vegetal neste extenso espaço. Como consequência negativa da divulgação do filme “O Paciente Inglês”, uma turba de turistas e outros visitantes procurou as grutas, com sérios prejuízos para a sua conservação, situação que arqueólogos e autoridades têm procurado reverter. Mais uma vez, é possível obter informação sobre estas questões na Internet, onde se podem encontrar tanto textos de divulgação como trabalhos de académicos.
Hoje, além das obras ficcionadas da literatura e do cinema, a sua vida é recordada, nomeadamente, por trabalhos escritos e por fotografias, que realçam o seu contributo de explorador e as suas descobertas no deserto. Ele é recordado ainda, por exemplo, através de um busto da autoria do escultor Béla Domonkos, existente no jardim do Museu da Geografia, da Hungria,
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