quinta-feira, 28/05/2026

Os mestres da pedagogia

Fernando Almeida
De quando em quando lembro-me de um episódio que já vivi há muitos anos com um aluno do início do ensino secundário, quando estava esse aluno, o Zé (nome fictício) protestando com a maior veemência contra o treinador de uma equipa do futebol português, no caso Bobby Robson, sobre o jogo do anterior fim de semana. O público-alvo eram os colegas e quem mais o quisesse ouvir, porque falava alto e bom som, como palestra de cátedra de especialista na matéria. Porque torna e porque deixa, que não devia ter tirado o jogador, nem o devia ter substituído pelo outro, e mais isto e mais aquilo… era o mestre a falar! Não me contive, tanto mais que era amigo do dito “Zé” e achei que o devia chamar à razão. Expliquei-lhe o óbvio ridículo da situação: ele, o “Zé”, era apenas um jovem de 15 anos, que nunca tinha sequer entrado nos balneários de uma equipa de futebol profissional, não tinha nem formação nem experiência na matéria, não conhecia bem as características técnicas dos jogadores de nenhuma das equipas em causa, não sabia do estado físico e psicológico dos jogadores, se estavam lesionados ou doentes, se tinham terminado algum relacionamento amoroso e estavam deprimidos e com a autoconfiança abalada… Afinal, não sabia nada de realmente significativo ou importante e, ao mesmo tempo, estava a pretender dar lições a um verdadeiro mestre, reconhecido internacionalmente como um dos melhores do mundo, com dezenas de anos de experiência e um currículo notável. Não veria ele o ridículo da situação?
Todos nós se bem calhar, uma vez ou outra fazemos essa figura, opinando sobre matérias que dominamos mal e, na verdade, geralmente nenhum mal vem ao mundo dos disparates que possamos dizer, se a conversa ficar por aí mesmo, porque, como se sabe, palavras leva-as o vento.
Entre o menino de 15 anos que pretendia dar lições ao sir Bobby Robson e os diferendos de opinião entre especialistas da mesma área vai um contínuo de situações diversas e julgo que todos nós podemos ter ideias diferentes sobre todos os temas, independentemente dos nossos créditos académicos ou outros. Em qualquer dos casos penso que para que a opinião de um leigo em determinada matéria mereça ser ouvida deve ser fundamentada em conhecimento sólido e pensamento lógico, porque em caso contrário será mais uma situação ridícula como aquela em que o nosso “Zé” um dia foi protagonista.
Que jovens adolescentes pensem que sabem tudo e que podem dar lições aos mais velhos e experientes e ao resto do mundo, é natural e até saudável, porque na sua idade pretendem marcar a diferença de ideias face à geração anterior e porque isso acaba por fazer parte da sua afirmação individual a caminho da vida adulta. Mas que adultos, pais ou avós continuem a ter a imprudência, a falta de sabedoria e de conhecimento do mundo e da vida para manterem atitudes desse tipo, isso já não é desejável e acaba por ser verdadeiramente ridículo. No entanto, hoje, com a proliferação das páginas na Internet e, especialmente, nas redes sociais, há cada vez mais “especialistas” de todas as áreas do conhecimento e da vida que não hesitam em “dar lições” ao mundo a partir do teclado do seu telemóvel. No entanto, avaliando apenas as áreas em que tenho algum conhecimento, verifico que muitos fazem o mesmo que o nosso “Zé” da história que vos contei anteriormente: demonstram, além de ignorância, falta de bom senso, e caem no ridículo, porque não se limitam a opinar (o que será sempre aceitável), mas antes fazem afirmações factualmente erradas, de lógica muito duvidosa, e tudo isto com a arrogância de “mestre” em cada assunto tratado.
Isto vem a propósito de se ver cada vez mais pessoas de poucas letras e ainda menos especialização técnica pretenderem dar lições a professores que, geralmente, fizeram a sua licenciatura universitária numa área específica do conhecimento, que depois disso fizeram mais dois anos de profissionalização, em que estudaram didática específica das disciplinas que lecionam, estudaram psicologia das crianças e jovens e pedagogia, fazem todos, ou quase todos os anos, formação nestas ou outras matérias relacionadas com o ensino e a educação. Muitos também já levam dezenas de anos de experiência profissional, o que evidentemente confere uma capacidade e um conhecimento do real de grande importância. É claro que quando isto acontece, quando alguém de poucas letras, ainda menos formação técnica e científica em determinada área do conhecimento, total ausência de formação em pedagogia e sem nunca ter passado por uma sala de aula enquanto professor, pretende dar lições ao professor experiente e com formação específica, me lembro do meu jovem aluno e amigo “Zé” e das suas críticas enfurecidas e ridículas ao sir Bobby Robson.
[...] A sociedade altamente classista em que os mais pobres (e menos escolarizados) receavam afrontar as pequenas elites, mesmo que provincianas, criava essa relação com a escola, o que evidentemente não era bom. Mas a situação atual caiu no extremo oposto, o que é talvez (nunca pensei ter que dizer isto) ainda pior. O total desrespeito da sociedade pela escola enquanto instituição e pelos seus principais atores – os professores – torna o processo de ensino-aprendizagem ineficaz e muitas vezes intolerável para quem pretenda conseguir realmente ajudar os alunos a melhorar capacidades e somar conhecimentos.
As situações em que um único aluno (ou apenas alguns alunos) que sente as “costas quentes” perturba a aprendizagem de toda uma turma e na prática compromete o futuro dos colegas, são cada vez mais frequentes.
A escolaridade obrigatória, que foi um benefício por potenciar a elevação social dos mais carenciados, tem, como quase tudo na vida, efeitos colaterais negativos. Há os que querem estudar, querem ser médicos, engenheiros ou fazer formação em qualquer outra área que exija trabalho académico sério, responsabilidade perseverança; mas há também os que não querem estudar, que possivelmente deveriam ser encaminhados para a aprendizagem de profissões mais práticas que na verdade tanta falta fazem.
Se calhar, a Educação deveria ser gratuita, mas não obrigatória. Andavam mais felizes os que querem estudar e também os que não querem, e a escola produzia muito mais e melhor.
Todos nós se bem calhar, uma vez ou outra fazemos essa figura, opinando sobre matérias que dominamos mal e, na verdade, geralmente nenhum mal vem ao mundo dos disparates que possamos dizer, se a conversa ficar por aí mesmo, porque, como se sabe, palavras leva-as o vento.
Entre o menino de 15 anos que pretendia dar lições ao sir Bobby Robson e os diferendos de opinião entre especialistas da mesma área vai um contínuo de situações diversas e julgo que todos nós podemos ter ideias diferentes sobre todos os temas, independentemente dos nossos créditos académicos ou outros. Em qualquer dos casos penso que para que a opinião de um leigo em determinada matéria mereça ser ouvida deve ser fundamentada em conhecimento sólido e pensamento lógico, porque em caso contrário será mais uma situação ridícula como aquela em que o nosso “Zé” um dia foi protagonista.
Que jovens adolescentes pensem que sabem tudo e que podem dar lições aos mais velhos e experientes e ao resto do mundo, é natural e até saudável, porque na sua idade pretendem marcar a diferença de ideias face à geração anterior e porque isso acaba por fazer parte da sua afirmação individual a caminho da vida adulta. Mas que adultos, pais ou avós continuem a ter a imprudência, a falta de sabedoria e de conhecimento do mundo e da vida para manterem atitudes desse tipo, isso já não é desejável e acaba por ser verdadeiramente ridículo. No entanto, hoje, com a proliferação das páginas na Internet e, especialmente, nas redes sociais, há cada vez mais “especialistas” de todas as áreas do conhecimento e da vida que não hesitam em “dar lições” ao mundo a partir do teclado do seu telemóvel. No entanto, avaliando apenas as áreas em que tenho algum conhecimento, verifico que muitos fazem o mesmo que o nosso “Zé” da história que vos contei anteriormente: demonstram, além de ignorância, falta de bom senso, e caem no ridículo, porque não se limitam a opinar (o que será sempre aceitável), mas antes fazem afirmações factualmente erradas, de lógica muito duvidosa, e tudo isto com a arrogância de “mestre” em cada assunto tratado.
Isto vem a propósito de se ver cada vez mais pessoas de poucas letras e ainda menos especialização técnica pretenderem dar lições a professores que, geralmente, fizeram a sua licenciatura universitária numa área específica do conhecimento, que depois disso fizeram mais dois anos de profissionalização, em que estudaram didática específica das disciplinas que lecionam, estudaram psicologia das crianças e jovens e pedagogia, fazem todos, ou quase todos os anos, formação nestas ou outras matérias relacionadas com o ensino e a educação. Muitos também já levam dezenas de anos de experiência profissional, o que evidentemente confere uma capacidade e um conhecimento do real de grande importância. É claro que quando isto acontece, quando alguém de poucas letras, ainda menos formação técnica e científica em determinada área do conhecimento, total ausência de formação em pedagogia e sem nunca ter passado por uma sala de aula enquanto professor, pretende dar lições ao professor experiente e com formação específica, me lembro do meu jovem aluno e amigo “Zé” e das suas críticas enfurecidas e ridículas ao sir Bobby Robson.
[...] A sociedade altamente classista em que os mais pobres (e menos escolarizados) receavam afrontar as pequenas elites, mesmo que provincianas, criava essa relação com a escola, o que evidentemente não era bom. Mas a situação atual caiu no extremo oposto, o que é talvez (nunca pensei ter que dizer isto) ainda pior. O total desrespeito da sociedade pela escola enquanto instituição e pelos seus principais atores – os professores – torna o processo de ensino-aprendizagem ineficaz e muitas vezes intolerável para quem pretenda conseguir realmente ajudar os alunos a melhorar capacidades e somar conhecimentos.
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