00h00 - sábado, 21/11/2015

Fernando Évora apresenta
novo livro em Odemira

Fernando Évora apresenta novo livro em Odemira

Professor de História há duas décadas em São Teotónio, Fernando Évora apresenta este sábado, 21, às 16h00, na Biblioteca de Odemira, o seu novo livro, O Mel e as Vespas.
Em entrevista ao "SW", Fernando Évora revela que a obra começou a ser escrita em 2011 e diz esperar que a história por si imaginada faça rir e comover os leitores.

Qual o ponto de partida de O Mel e as Vespas?
Esta é uma obra em que o ponto de partida e o produto final são díspares, o que por vezes acontece. Na verdade pensei em escrever um livro que balançava entre dois personagens opostos: um homem da lei, guarda republicano dos anos 50-60 do século passado, instrumento do poder e da repressão, e um anarquista contestatário, que clandestinamente conspirava contra o regime. Ora acontecia que nenhum dos dois seria exatamente o que se esperava dele: o homem da lei transgredia-a na intimidade, onde se revelava um libertário. E o anarquista, por seu lado, estava marcado por preconceitos e moralismos. O nome do livro seria Os tios de César, narrado a partir de um sobrinho daqueles personagens. Acontece que quando comecei a escrever procurei identificar as origens familiares do tal guarda. E aí começaram a surgir personagens que não consegui controlar. Apareceram-me Aprígio, Tibério, Adelina, Maria Dulce. Encantei-me com a terra que criara para Aprígio, Cancino, e o livro parece que se escreveu a ele próprio. Tudo foi seguindo como se tivesse, de facto, acontecido, como se não fosse criação minha. Acabou por ser uma espécie de revisitação da História de Portugal do século passado, vista a partir de uma localidade perdida na serra algarvia.

Mas todo o enredo é ficção ou a realidade juntou-se aqui à ficção?
É um livro de ficção. Todavia, algumas das histórias aqui presentes foram adaptadas a partir de outros que me contaram. Há muito trabalho de campo e de investigação sobre a vivência da serra e do país dos Anos 30 a 60: como eram as relações entre as pessoas, como se casava, como se paria. Existem muitas histórias que eram contadas, abertamente ou apenas sussurradas na minha família. Aqueles que já leram o livro olham para estes acontecimentos como se fossem verdade, o que me deixa feliz. É bom quando a ficção assume ser realidade. Repare que isto é verdadeiro: personagens como Romeu e Julieta ou D. Quixote têm verdadeira influência histórica, quero acreditar.

Quanto tempo demorou o livro a ficar pronto?
A ideia surgiu-me em final de 2011. Terei começado a escrevê-lo no ano seguinte, ficou terminado no início de 2015. Mas pelo meio escrevi e colaborei noutras obras.

Que reacção espera dos leitores?
Gostava que olhassem para o livro e mergulhassem na história desta gente. Gostava que se encantassem com estas personagens. E gostaria muito que fizessem a sua interpretação. Pode não ser a minha, será no entanto tão válida como a minha. Há simbologias que aqui podem ser encontradas. Seria um escritor feliz se os leitores rissem e se comovessem nesta obra, se se irritassem e inquietassem. Um bom livro é quando um leitor já não é a mesma pessoa depois de o ler.

A escrita é uma paixão?
Desde criança, diria. Sempre gostei de escrever. Faço-o com intenções editoriais apenas há 15 anos. Admiro imenso os autores que escreveram muito jovens. Eu, todavia, sinto que só agora poderei escrever com qualidade, perdoem-me a imodéstia. Sobre se é uma paixão, diria que sim e não. Não porque é trabalho e dúvida. Penso-a mais como uma espécie de obrigação. Quando me surgiram os personagens que referi anteriormente, senti-me obrigado, por uma espécie de dever, a escrever a sua história da forma o mais honesta possível, como se eu tivesse sido o eleito para a escrever. Não senti os momentos de escrita como momentos de prazer, a não ser aqueles em que ia aprendendo mais qualquer coisa. No final, contudo, fico feliz pela sensação do dever cumprido. Este último prazer, contudo, nunca demora muito. Mas isso são coisas da vida… Vou depois tendo bons momentos quando os leitores me confessam o seu gosto pelos livros que escrevi.

Depois deste novo livro, que novos planos "literários" já tem em mente?
Este foi um projecto esgotante, acho que quem ler o livro o perceberá. Para já não estou a escrever nada. Tenho um livro pronto para editar, já feito há algum tempo, com o meu amigo Gonçalo Condeixa, uma obra muito interessante na nossa opinião. Não sei bem quando virá cá para fora. Quanto a nova produção, estou à espera de encontrar por aí uns personagens e uma história que me peçam, educadamente ou à bruta, para os escrever. O medo que me acompanha é um dia deixarem de me visitar estes homens e mulheres que vivem no mundo da ficção. Isso seria o fim do escritor.


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Data: 06/10/2017
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