quinta-feira, 14/05/2026

Rotas e trilhos

António Martins Quaresma
“Isto parece a peregrinação a Santiago (de Compostela)”, dizia-me o meu amigo Volker, alemão de Frankfurt e meu velho amigo, olhando as filas de caminhantes, de mochila às costas e bastão de caminhada na mão, todos com ar de gente do Centro e do Norte da Europa, ainda que de diferentes proveniências – há poucos dias um casal do Alasca fez-se fotografar junto ao barco da passagem do rio.
Estávamos na Costa Alentejana, no troço entre o Almograve e a Zambujeira, e os caminhantes não despegavam. O Volker conhece a costa, onde numa “outra vida”, como biólogo, esteve várias vezes, mas isto é algo novo para ele. Para mim também um pouco, embora comece a ficar habituado, pois este trânsito, embora tenha vindo a crescer, dura há alguns anos. Na Costa Alentejana, o primeiro grande obstáculo para os caminhantes é o rio Mira, em Milfontes: aqui, uns atravessam no barco, utilizando os serviços do ferry “Maresia do Mira”, outros escolhem dar a volta pela ponte; há quem pernoite na vila, em estabelecimentos hoteleiros previamente marcados. Curiosamente, grande número deles é gente simpática, cumprimentando cordialmente os autóctones que encontram; quase parece uma regra destes caminhantes, como eu, que moro perto de um dos pontos de entrada em Milfontes, tenho verificado.
Os vários itinerários da chamada Rota Vicentina, em especial este pela linha costeira, designado por Trilho dos Pescadores, têm sido um assinalável sucesso. A publicidade foi eficaz e o produto é bom. Na própria região, o termo “Vicentina”, artificialmente engendrado (eu sei por quem, mas agora não digo) aquando da criação da Área de Paisagem Protegida do Litoral Alentejano e Costa Vicentina, depois Parque Natural, para designar a faixa costeira em volta do Cabo de São Vicente, entre Odeceixe e Burgau, ganhou autonomia e, graças à insciência quase geral, não falta quem o aplique, tolamente, à Costa Alentejana, surgindo até, sob influência deste desconchavo, por exemplo em Milfontes, estabelecimentos comerciais com esse nome. A asneira tem muita força!
A cena dos caminhantes do Trilho dos Pescadores, em que, com aparente afã religioso, magotes de peregrinos se lançam por areais dunares, sobre altas arribas xistosas, que se despenham, negras (as arribas), sobre a imensidão azul das águas oceânicas, é assim uma nova e poderosa imagem que caracteriza esta área. Sucedeu aos grupos que, guiados pelo conhecedor Sebastião Pernes, faziam, há uns 20 anos, observação de aves, a internacional birdwatching, percorrendo o Parque Natural.
Este especialista, cujo portfólio fotográfico de parte do litoral Sudoeste é precioso e pode ser encontrado https://sebastiaopernes.photography/, reside no Algarve, onde tem a sua “base”. Aliás, esta costa tem sido alvo do interesse de bons fotógrafos de Natureza, como Rui Cunha, desaparecido algo prematuramente, em 2023 (ver, por exemplo, a colecção de postais, editada pela Liga para a Protecção da Natureza, ainda na década de 1980). Com ambos, Sebastião Pernes e Rui Cunha, e com outros, tenho gratas, mas já longínquas, memórias de percorrer caminhos, outro tipo de caminhos, que levaram ao estudo e à protecção da Costa Sudoeste.
Voltando aos caminhantes, eles enfrentam um “desafio ao contacto permanente com o vento do mar, à rudeza da paisagem costeira e à presença de uma natureza selvagem e persistente”, como diz a página da Rota Vicentina, na Internet, num espírito um pouco aventureiro, em que o convívio íntimo com a natureza, uma natureza algo agreste, mas de inegável beleza, se mescla com a superação de um assinalável desafio físico, mas não excessivo, pedido a cada um dos caminheiros. Pelo que tenho visto, há homens e mulheres, mais novos e mais velhos, de corpos mais ou menos afeitos ao exercício físico, mas aparentemente não abundam os atletas, até porque as etapas são equilibradas e os caminhantes dispõem de alojamentos e serviços de restauração, ao longo do percurso, onde podem descansar, pernoitar e alimentar-se convenientemente. Na realidade, o “cliente” do Trilho dos Pescadores” é o amante da natureza e do exercício físico, tão atento à observação da paisagem e da biodiversidade como em busca da introspecção e da reflexão.
Apesar de certa intrusão mercantil de que enfermou a criação a Rota, dita Vicentina, desde logo no nome afunilante e exclusivo, a verdade é que o seu objecto principal, a Costa Sudoeste, tem esta virtude múltipla: é lugar de ciência e de contemplação, de razão e de emoção; é lugar de comunhão com a Natureza; e é lugar de Cultura – ou não fosse o “natural” uma “categoria cultural”.
Estávamos na Costa Alentejana, no troço entre o Almograve e a Zambujeira, e os caminhantes não despegavam. O Volker conhece a costa, onde numa “outra vida”, como biólogo, esteve várias vezes, mas isto é algo novo para ele. Para mim também um pouco, embora comece a ficar habituado, pois este trânsito, embora tenha vindo a crescer, dura há alguns anos. Na Costa Alentejana, o primeiro grande obstáculo para os caminhantes é o rio Mira, em Milfontes: aqui, uns atravessam no barco, utilizando os serviços do ferry “Maresia do Mira”, outros escolhem dar a volta pela ponte; há quem pernoite na vila, em estabelecimentos hoteleiros previamente marcados. Curiosamente, grande número deles é gente simpática, cumprimentando cordialmente os autóctones que encontram; quase parece uma regra destes caminhantes, como eu, que moro perto de um dos pontos de entrada em Milfontes, tenho verificado.
Os vários itinerários da chamada Rota Vicentina, em especial este pela linha costeira, designado por Trilho dos Pescadores, têm sido um assinalável sucesso. A publicidade foi eficaz e o produto é bom. Na própria região, o termo “Vicentina”, artificialmente engendrado (eu sei por quem, mas agora não digo) aquando da criação da Área de Paisagem Protegida do Litoral Alentejano e Costa Vicentina, depois Parque Natural, para designar a faixa costeira em volta do Cabo de São Vicente, entre Odeceixe e Burgau, ganhou autonomia e, graças à insciência quase geral, não falta quem o aplique, tolamente, à Costa Alentejana, surgindo até, sob influência deste desconchavo, por exemplo em Milfontes, estabelecimentos comerciais com esse nome. A asneira tem muita força!
A cena dos caminhantes do Trilho dos Pescadores, em que, com aparente afã religioso, magotes de peregrinos se lançam por areais dunares, sobre altas arribas xistosas, que se despenham, negras (as arribas), sobre a imensidão azul das águas oceânicas, é assim uma nova e poderosa imagem que caracteriza esta área. Sucedeu aos grupos que, guiados pelo conhecedor Sebastião Pernes, faziam, há uns 20 anos, observação de aves, a internacional birdwatching, percorrendo o Parque Natural.
Este especialista, cujo portfólio fotográfico de parte do litoral Sudoeste é precioso e pode ser encontrado https://sebastiaopernes.photography/, reside no Algarve, onde tem a sua “base”. Aliás, esta costa tem sido alvo do interesse de bons fotógrafos de Natureza, como Rui Cunha, desaparecido algo prematuramente, em 2023 (ver, por exemplo, a colecção de postais, editada pela Liga para a Protecção da Natureza, ainda na década de 1980). Com ambos, Sebastião Pernes e Rui Cunha, e com outros, tenho gratas, mas já longínquas, memórias de percorrer caminhos, outro tipo de caminhos, que levaram ao estudo e à protecção da Costa Sudoeste.
Voltando aos caminhantes, eles enfrentam um “desafio ao contacto permanente com o vento do mar, à rudeza da paisagem costeira e à presença de uma natureza selvagem e persistente”, como diz a página da Rota Vicentina, na Internet, num espírito um pouco aventureiro, em que o convívio íntimo com a natureza, uma natureza algo agreste, mas de inegável beleza, se mescla com a superação de um assinalável desafio físico, mas não excessivo, pedido a cada um dos caminheiros. Pelo que tenho visto, há homens e mulheres, mais novos e mais velhos, de corpos mais ou menos afeitos ao exercício físico, mas aparentemente não abundam os atletas, até porque as etapas são equilibradas e os caminhantes dispõem de alojamentos e serviços de restauração, ao longo do percurso, onde podem descansar, pernoitar e alimentar-se convenientemente. Na realidade, o “cliente” do Trilho dos Pescadores” é o amante da natureza e do exercício físico, tão atento à observação da paisagem e da biodiversidade como em busca da introspecção e da reflexão.
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