18h18 - quinta, 02/01/2020

De Portugal a Macau


António Martins Quaresma
Quando o ano de 2019 se esvai, ocorre-me um facto da história do concelho de Odemira e, especialmente, da freguesia de Vila Nova de Milfontes: a viagem aérea Portugal-Macau, realizada em 1924, por José Manuel Sarmento de Beires, António Brito Pais e Manuel Gouveia. Fez este ano 95 anos.
Numa altura em que viajar de avião se tornou banal, esquecemos, facilmente, o longo trajecto que o transporte aéreo percorreu para chegar onde nos encontramos. O desenvolvimento técnico, com raízes no século XIX, o papel dos pioneiros, esses "gloriosos malucos das máquinas voadoras" (parafraseando o título do filme realizado por Ken Annakin, em 1965), o mundo de Santos Dumont, de Charles Lindbergh, de Amelia Earhart, uma mulher que lutou pela igualdade de género, do "nosso" Brito Pais – fazem parte desse percurso.
O avião, um Breguet 16 BN2, de fabricação francesa – excedente da 1ª Guerra Mundial que poucos anos antes se travara –, partiu do campo dos Coitos, em Milfontes, na manhã enevoada de 7 de Abril de 1924, levando a bordo Pais e Beires. Alguns meses passados, em Setembro, concluída a aventurosa viagem, realizou-se em Milfontes uma festa de homenagem aos aviadores, um dos quais, António Brito Pais, era natural do concelho (na realidade, nasceu no Monte dos Malveiros, em Santa Luzia, pertencente à família, e foi baptizado em Colos).
Essa festa incluiu o assentamento da primeira pedra de um monumento, na Barbacã, que acabaria esquecido, ele e a viagem, entre os milfontenses, em particular, e os odemirenses, em geral.
Só em 1984, na sequência do surgimento de estudos históricos sobre Milfontes, houve condições para se evocar o 60º aniversário da viagem e aqueles que a realizaram. A população de Milfontes, que, com excepção dos mais velhos, ignorava o acontecimento, teve assim oportunidade de o conhecer e celebrar. Tendo sido lançada, então, a ideia de retomar o projecto do monumento, este seria erigido em Setembro de 1993, no lugar onde algumas décadas antes tinha sido assentada a primeira pedra. Sem procurar revelar os factos que, entre 1984 e 1993, envolveram o extenso processo da concretização do monumento, realço que, desta vez, não caiu no esquecimento, tendo o arranque final contado com os meios da Junta de Freguesia de Milfontes.
A viagem aérea de Portugal a Macau foi um acontecimento algo "estranho" no quadro da história local, pois até àquele momento nada ligara Milfontes à aviação. Na realidade, os aviadores escolheram esta vila para darem início à expedição por motivos mais ou menos fortuitos, sabendo, aliás, que uma abalada de Milfontes dificilmente teria a perceptibilidade de uma partida de Lisboa, com diferentes repercussões, desde logo no próprio financiamento da viagem.
Como é sabido, o infortúnio atingiria, mais tarde, os principais autores desta viagem: em 1934, Brito Pais morreu num acidente de avião e Sarmento de Beires era preso por se opor ao regime salazarista, acabando por se exilar no estrangeiro. E na terra que os viu partir para Macau foi-se esfumando a lembrança dos exaltantes dias de 1924...
No 95º aniversário deste evento histórico, a caminho de perfazer um século, a viagem aérea que, com partida de Milfontes, ligou Portugal a Macau fica aqui modestamente recordada.

Nota
Relativamente à última crónica sobre o arquivo da antiga Casa do Povo de Sabóia, apraz esclarecer que a Junta de Freguesia de Sabóia disponibilizou as suas instalações para guardar a documentação, Junta que, gentilmente, já havia facilitado o seu acesso.



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