quinta-feira, 01/05/2025

Da democracia à caquistocracia


António Martins Quaresma
Confesso, que, até há pouco tempo, não conhecia o termo. Nem imaginava que pudesse existir tal conceito. Tive conhecimento dele, recentemente, através da Internet, quanto buscava um sinónimo de outra palavra que não havia meio de me ocorrer. Foi um acaso. Trata-se de caquistocracia, que significa, segundo a Infopédia, “o governo exercido pelos menos capazes”, “o governo dos piores”. Etimologicamente, vem do grego kákistos, superlativo de kakós, “mau”. Ele foi utilizado, pela primeira vez, na língua inglesa (kakistocracy).
Caquistocracia não se confunde com cleptocracia, que indica um governo de corruptos, que enriquecem usando fraudulentamente o poder político. Não se confundem, mas podem acumular. Bem, atenhamo-nos à caquistocracia.
Há alguns anos, o termo foi, por exemplo, usado em chistes dirigidos a Ronald Reagan, autor de cinema de segunda categoria, convertido em dirigente máximo da maior potência do planeta. Recordo um divertido diálogo do filme “Regresso ao Futuro” (1985), em que o protagonista se mostrava incrédulo com a eleição como presidente de um sujeito como Reagan. Posteriormente, o próprio presidente Donald Trump foi objeto de chalaças e comentários nada abonatórios da sua capacidade política e, mesmo, da sua crença na democracia. Entretanto, na Europa, Macron foi, com graça, apodado de Micron, em que, mais do uma referência à sua estatura física, remete para a sua fraca envergadura enquanto homem de Estado.
Quando observo os países da Europa dos nossos dias não posso deixar de pensar em caquistrocracia. Como se fosse uma doença contagiosa que, depois da anterior pandemia Covid, tivesse agora contagiado a grande maioria dos dirigentes políticos, desde os eleitos aos altos funcionários da UE. Uma espécie de naipe de figuras de opereta em versão façanhuda.
Como uma desgraça nunca vem só, temos hoje, muito generalizada, a lepra belicista. Do léxico destes novos e estéreis mandantes, só ouvimos falas como “guerra”, “armamento”, “aumento de despesas militares”, “ameaças” (russa, chinesa...), embora tenhamos dúvidas de que eles quisessem arriscar a pele num confronto armado. E “paz” é quase uma expressão maldita, como no tempo da minha geração, quando opor-se à guerra em África era traição à Pátria. Quem viu e quem vê esta Europa!
Se, por exemplo, dos “chihuahuas” bálticos, no acertado dizer de um jornalista brasileiro, e de alguns dos seus vizinhos – os “novos-ricos” do neoliberalismo – vêm idióticos representantes, complexados e ressabiados, cujo nacionalismo e provincianismo dão origem a grotescas manifestações, já outros países nos deixam mais surpreendidos. E daí, talvez não, pois velhos fantasmas tendem a emergir quando há condições objetivas: ingleses, alemães, franceses conhecem bem a obsessão russófoba, por razão de atribuladas relações históricas, que nem sempre lhes correram bem. Quanto a Portugal, não risca coisa alguma e faz o que lhe mandam – o que pode ser muito preocupante, por exigir gastos de dinheiro, que escasseia no país e, no limite, levar os jovens portugueses a combater em guerras que não lhes dizem respeito. Para não dizer ainda pior.
E, assim, repentinamente, a democracia europeia iniciou uma deriva para uma caquistocracia, em que, curiosamente, pululam algumas estouvadas, mas bem penteadas, “damas pé-de-cabra”, que não ficam nada atrás dos seus desatinados colegas masculinos. Simultaneamente, vemos as opiniões públicas adormecidas ou coniventes, eficazmente manipuladas pelos media mainstream e, no fundo, acreditando no que querem acreditar. Já aconteceu antes e deu mau resultado.

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