quinta-feira, 02/04/2026

Augusto


António Martins Quaresma
Encontrei o Augusto, que já não via há um bom par de anos, apesar de vivermos na mesma terra, a escassas centenas de metros um do outro. Sabem, o Augusto, o que tem como alcunha identificadora, o nome de uma pequena ave da charneca, apodo que herdou do pai. Como é hábito, não se sabe bem a razão de tal agnome. Para mim, ressoa como som antigo, nesta vila ribeirinha, que os últimos tempos têm vindo a transformar, em todos os aspetos, mais sensivelmente, estou convencido, do que a média de transformações que todas as terras estão a atravessar.
No plano sociodemográfico, abunda gente de fora, fazendo dos naturais uma espécie quase exótica, e não me refiro aos imigrantes estrangeiros, apesar de tudo mais discretos, mas aos portugueses que aqui têm afluído, alguns deles bem ruidosos como que a marcarem o seu lugar. Claro que pessoas da minha idade também notam a presença das novas gerações, cujas raízes familiares muitas vezes dificilmente identificam; os novos têm representado sempre a mudança.
Apesar dos seus 87 anos, pode dizer-se bem conservados, física e mentalmente, a conversa com o Augusto deu quase imediatamente o regime habitual, que lhe conheço desde jovem: divagação histórico-filosófica sobre vários temas. Não tendo uma escolaridade muito longa, ele compensa com muitas leituras e uma curiosidade insaciável pela cultura no sentido tradicional do termo. Frequentemente, porém, as nossas diferentes metodologias levam-nos a diferentes aproximações aos assuntos. Aliás, a conversa é sobretudo um monólogo, em que ele, na raridade de interlocutores disponíveis, aproveita para expor os seus pensamentos e o seu conhecimento, a quem se dispõe a ouvi-lo. É como que um momento catártico para ele. Mas não se julgue que, apesar do discurso unidirecional e algo cerrado, o interlocutor atento não aproveita do seu saber. O Augusto é personalidade única no quadro da sociedade milfontense, já pelos seus interesses, já pela vontade com que se ilustra, sem utilizar os novos meios de informação, como a internet. Ultimamente, porém, com as alterações quantitativas e qualitativas da sociedade, passa muito despercebido. Pior para a sociedade!
Desta vez, começou por falar, em tom crítico, na política e em alguns políticos danosos, nos padres e na religião, reprovando certo sacerdote que aqui viveu e de quem teve razões, no futebol e, até, em certo “ilusionista” (sic), que aqui deixou uma lembrança bem forjada. No fundo, uma crítica aos valores e à futilidade sociais dos nossos tempos, nesta vila de facebook.
Entrando depois no seu modo habitual, abordou, entre a temática variada, o assunto da batalha de Alcácer-Quibir, em que um louco conduziu um país ao desastre e iniciou uma saga de devaneios quiméricos com que se entreteve um povo. Tentei fazer a ponte com que o que está a acontecer agora, em que políticos (ir)responsáveis, desde logo na nossa Europa, parecem querer conduzir a humanidade a um trágico destino, mas acho que não me ouviu de tão empolgado estava na sua exposição. Foi ele que se despediu de mim, depois de uns 40 minutos de conversa, ao contrário do que geralmente acontecia, em que era eu a desistir, por exaustão.
Lembrei-me, enquanto caminhava para casa, de algumas histórias passadas na sua típica taberna, que também herdou do pai, na Rua da Estalagem, perto da descida para o rio, onde ele tinha o seu bote. Era daquelas famílias tradicionais, que viviam com “um pé no rio e outro em terra”. O pé da terra oscilava entre o comércio e a horticultura de um brejo nos arredores da vila. Constava-se, afiançou-me o Zé Manel “Charrinho” (que a terra lhe seja leve!), que o Joaquim “Viola”, pescador e barqueiro pela década de 1960, se queixava de que o gato do Augusto, de nome Rajá, aproveitava os aparelhos de anzol, já iscados, para, sub-repticiamente, lhes roubar as iscas, geralmente pedaços de carapau bem cortados e apetitosos, já espetados nos anzóis. A mãe do Augusto, senhora idosa, recusava liminarmente a acusação, garantindo que o seu gato era incapaz de tal ação. Um dia, o Rajá deu em ficar maldisposto e, coitado, acabou por morrer. Impelido pela emoção e pela curiosidade científica, o Augusto afiou um canivete e autopsiou o pobre bicho, encontrando-lhe no estômago – pasme-se! – uma dúzia de anzóis, prova, provada, do delito do roubo das iscas dos aparelhos do Joaquim Viola. O “crime” tinha, contudo, prescrito, e não se falou mais nisso. Hoje, é apenas exemplo de pequenos casos anedóticos de um mundo desaparecido.
Pessoas como o Augusto continuam, apesar da idade, entre nós, e isso é importante para os que os conhecemos e lhes reconhecemos o valor que possuem. Sendo certo que dentro de pouco anos, nem ele, nem nós aqui estaremos – e as próprias histórias que lhes / nos marcaram a vida estarão esquecidas.


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