quinta-feira, 22/01/2026

E a seguir será a Gronelândia!

Fernando Almeida
No mês passado escrevi um textinho para este espaço em que previa uma intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) na Venezuela. Parecia-me que de uma forma ou de outra não podia deixar de acontecer algum tipo de agressão, dado que esse país tem as maiores reservas de petróleo do mundo (além de muitos outros recursos no seu rico subsolo) e ao mesmo tempo está no Hemisfério Ocidental, que a administração Trump decidiu que seria o seu “quintal” privado.
Escandaloso desrespeito pelo direito internacional dirão uns, enquanto outros tentarão desculpar a invasão de um país soberano e o rapto do seu presidente com uma qualquer desculpa. No entanto, todos dão a entender que esta é uma forma de agir nova da responsabilidade de um “tresloucado” Donald Trump e que nada do mesmo tipo teria ocorrido com outras administrações dos EUA. É como se os EUA tivessem um passado irrepreensível, de respeito pelos outros povos e culturas (narrativa que a nossa comunicação social defende e propaga) e não tivessem um histórico de invasões e operações de mudança de regime um tanto por todo o mundo. Na verdade, os EUA levaram à prática dezenas de operações de mudança de regime em países estrangeiros, e a primeira terá provavelmente sido o derrube do reino do Havai ainda em 1893 – e assim o reino do Havai acabou anexado como mais um estado dos EUA. Mas ainda no século XIX invadiu as Filipinas, Porto Rico e Cuba. No século XX contam-se mais de quatro dezenas de países invadidos, atacados ou cujos regimes foram manipulados diretamente através de golpes de estado, e isto sem contar com a manipulação de eleições pelo financiamento massivo de partidos e candidatos pró-americanos, o controle da informação através do domínio da comunicação social, etc.. Portanto, esta operação na Venezuela não teve nada de especialmente novo, a não ser a maior frontalidade do presidente, porque na verdade invasões a outros países e operações de mudança de regime têm sido uma constante dos governos americanos desde há muito tempo.
Desta vez foi diferente, porque o objetivo da intervenção na Venezuela foi confessado sem receio de ficar mal visto no mundo: Trump, sem rodeios, afirmou que o objetivo é o petróleo venezuelano que, segundo ele, foi roubado aos americanos quando da sua nacionalização lá nos Anos 70 do século XX. É claro que não é só o petróleo que interessa a Trump, e isso ele não disse, porque a Venezuela é um território de mais de novecentos mil quilómetros quadrados (cerca de dez vezes o tamanho de Portugal) onde abunda o gás natural, o ouro, a bauxite, o crómio, o manganés, os diamantes… E tudo isso conta! Também não disse que a China estava a desenvolver fortes relações com aquele país da América do Sul, onde já tinha investido mais de sessenta mil milhões de dólares e que furava os bloqueios comerciais que são impostos à Venezuela, de modo que esta poderia voltar a ter a riqueza e a prosperidade de outros tempos. E isso já estava a acontecer, porque segundo a Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) o crescimento do PIB venezuelano terá sido em 2025 de 6,5%, o que o coloca como o segundo maior de todo o continente americano e muito acima de tudo o que se passa aqui na velha Europa. Era assim essencial tirar a China do caminho, antes que se estabelecesse com firmeza, tal como tomar posse dos recursos da Venezuela, e ainda mandar um recado aos países da América e do Mundo: há um novo xerife na cidade e este não respeita nada nem ninguém e não tem medo de ficar mal visto.
Mas a diferença em relação a tantas outras invasões e agressões que os EUA levaram a cabo no passado está, sobretudo, no estilo e na frontalidade com que foram assumidos os objetivos – assaltar os recursos da Venezuela – e desta vez não vieram com a conversa fiada que tem sido comum a anteriores administrações americanas e aos seus parceiros europeus. Não se tentaram fazer passar por grandes defensores dos direitos humanos, das liberdades, da democracia e do bem-estar dos povos, das mulheres ou dos homossexuais, como é hábito. É claro que Trump tentou passar a ideia vaga que os venezuelanos iriam ficar a ganhar com o roubo do seu petróleo, que Maduro era um traficante de droga, um ditador, etc., mas tudo dito sem convicção, tudo depois de mostrar um ar deleitado com as riquezas que irá subtrair àquele país e seu povo. Ainda é cedo para saber como vai terminar esta história, mas independentemente do seu desfecho, há recados que já ficaram dados. A partir de agora, obedeçam sem hesitações ao que os Estados Unidos da América ordenarem, porque caso contrário já sabem… E foi mais longe ao nomear países como a Colômbia, Cuba, o México e mesmo a Dinamarca (enquanto país que administra a Gronelândia) como potenciais alvos do seu jogo de poder global.
E não posso deixar de anotar aqui as fracas reações dos governos europeus face ao descomunal atropelo ao direito internacional que foi o ataque à Venezuela. A Europa Ocidental é, nesta matéria, pouco crítica e nada veemente, e verdadeiramente cúmplice nos desmandos dos Estados Unidos da América. E é aqui que os europeus como um todo, mas particularmente a União Europeia e a maioria dos países que a constituem, perderam o pouco crédito que ainda tinham face à maioria de países do mundo, a que se vai chamando “Sul Global”. Na verdade, o crédito que tinham junto desses países já era muito pouco, depois da Jugoslávia, do Iraque, da Líbia e de muitos outros episódios em que a Europa mostrou o cinismo da sua política externa. De resto, a recente e ainda atual cumplicidade da maioria destes países europeus com o estado de Israel, que invade e bombardeia vários países e assassina dezenas de milhar de pessoas, mostra o cinismo dos europeus, coisa que os países do sul observam e registam.
Mas a história não vai acabar por aqui, porque Trump já afirmou que quer também a Gronelândia, e até explicou também que o devem levar a sério. Por isso, se eu não tinha dúvidas que os americanos iam deitar a mão à Venezuela, também não tenho grandes dúvidas de uma forma ou de outra que vão dominar a Gronelândia, e que isso decorrerá por certo ainda em 2026, antes das eleições intercalares para o congresso dos EUA.
Convém explicar, para quem ainda não reparou, que o aquecimento global está a alterar profundamente as características do Ártico, o que vai viabilizar novos usos da Gronelândia e seus recursos terrestres, mas também que aquela grande ilha tem uma enorme zona económica exclusiva com enorme potencial mineral e biológico. Mas além disso, e principalmente, o aquecimento dos mares está a tornar viáveis novas rotas marítimas entre o oceano Pacífico e o Atlântico, que são percursos muito mais curtos que os tradicionalmente usados entre a Ásia Oriental e o Ocidente europeu. A distância, por exemplo, entre Londres e Pequim, usando a rota do Ártico, é quase 40% mais curta que a tradicional rota do Suez e ainda muito mais curta que a velha rota do Cabo. O domínio da Gronelândia que os Estados Unidos da América pretendem terá não só interesse comercial, mas também valor militar. Tal como em tempos os portugueses conquistaram e fortificaram os estreitos e outros pontos da costa africana e asiática para controlar os mares, também atualmente o domínio dos mares implica o domínio de pontos estratégicos das costas. Enquanto o Ártico era um mar gelado impenetrável e a Gronelândia era uma ilha gelada quase inabitável, o seu interesse era pouco, mas agora tudo está a mudar…
Fica claro que a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, divulgada no final de 2025, considera necessário restaurar a hegemonia americana no Hemisfério Ocidental, impedindo nele a influência de outras potências, mas também que o Hemisfério Ocidental inclui a Gronelândia. Portanto, os Estados Unidos da América pretendem ter domínio absoluto em todos os territórios que vão desde a Gronelândia até à Terra do Fogo, bem como nos seus mares envolventes, e que isso será feito a bem ou a mal. Assim, a Gronelândia será a “guarda avançada” dos Estados Unidos da América no Ártico, tal como o Havai tem a mesma função no Pacífico. Em ambos os casos, a pouco mais de três mil quilómetros da costa americana.
Vamos a ver se depois do Havai e da Gronelândia não insiste com o Canadá ou se lembra que os Açores também podem fazer falta à segurança nacional americana e, simplesmente, arranjam um qualquer esquema para se apropriar do território. É que os Açores também estão a pouco mais de três mil quilómetros da costa americana, mas agora no Atlântico Norte. Se assim for, pode ser que os portugueses finalmente percebam que se calhar temos andado com os amigos errados.
Escandaloso desrespeito pelo direito internacional dirão uns, enquanto outros tentarão desculpar a invasão de um país soberano e o rapto do seu presidente com uma qualquer desculpa. No entanto, todos dão a entender que esta é uma forma de agir nova da responsabilidade de um “tresloucado” Donald Trump e que nada do mesmo tipo teria ocorrido com outras administrações dos EUA. É como se os EUA tivessem um passado irrepreensível, de respeito pelos outros povos e culturas (narrativa que a nossa comunicação social defende e propaga) e não tivessem um histórico de invasões e operações de mudança de regime um tanto por todo o mundo. Na verdade, os EUA levaram à prática dezenas de operações de mudança de regime em países estrangeiros, e a primeira terá provavelmente sido o derrube do reino do Havai ainda em 1893 – e assim o reino do Havai acabou anexado como mais um estado dos EUA. Mas ainda no século XIX invadiu as Filipinas, Porto Rico e Cuba. No século XX contam-se mais de quatro dezenas de países invadidos, atacados ou cujos regimes foram manipulados diretamente através de golpes de estado, e isto sem contar com a manipulação de eleições pelo financiamento massivo de partidos e candidatos pró-americanos, o controle da informação através do domínio da comunicação social, etc.. Portanto, esta operação na Venezuela não teve nada de especialmente novo, a não ser a maior frontalidade do presidente, porque na verdade invasões a outros países e operações de mudança de regime têm sido uma constante dos governos americanos desde há muito tempo.
Desta vez foi diferente, porque o objetivo da intervenção na Venezuela foi confessado sem receio de ficar mal visto no mundo: Trump, sem rodeios, afirmou que o objetivo é o petróleo venezuelano que, segundo ele, foi roubado aos americanos quando da sua nacionalização lá nos Anos 70 do século XX. É claro que não é só o petróleo que interessa a Trump, e isso ele não disse, porque a Venezuela é um território de mais de novecentos mil quilómetros quadrados (cerca de dez vezes o tamanho de Portugal) onde abunda o gás natural, o ouro, a bauxite, o crómio, o manganés, os diamantes… E tudo isso conta! Também não disse que a China estava a desenvolver fortes relações com aquele país da América do Sul, onde já tinha investido mais de sessenta mil milhões de dólares e que furava os bloqueios comerciais que são impostos à Venezuela, de modo que esta poderia voltar a ter a riqueza e a prosperidade de outros tempos. E isso já estava a acontecer, porque segundo a Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) o crescimento do PIB venezuelano terá sido em 2025 de 6,5%, o que o coloca como o segundo maior de todo o continente americano e muito acima de tudo o que se passa aqui na velha Europa. Era assim essencial tirar a China do caminho, antes que se estabelecesse com firmeza, tal como tomar posse dos recursos da Venezuela, e ainda mandar um recado aos países da América e do Mundo: há um novo xerife na cidade e este não respeita nada nem ninguém e não tem medo de ficar mal visto.
Mas a diferença em relação a tantas outras invasões e agressões que os EUA levaram a cabo no passado está, sobretudo, no estilo e na frontalidade com que foram assumidos os objetivos – assaltar os recursos da Venezuela – e desta vez não vieram com a conversa fiada que tem sido comum a anteriores administrações americanas e aos seus parceiros europeus. Não se tentaram fazer passar por grandes defensores dos direitos humanos, das liberdades, da democracia e do bem-estar dos povos, das mulheres ou dos homossexuais, como é hábito. É claro que Trump tentou passar a ideia vaga que os venezuelanos iriam ficar a ganhar com o roubo do seu petróleo, que Maduro era um traficante de droga, um ditador, etc., mas tudo dito sem convicção, tudo depois de mostrar um ar deleitado com as riquezas que irá subtrair àquele país e seu povo. Ainda é cedo para saber como vai terminar esta história, mas independentemente do seu desfecho, há recados que já ficaram dados. A partir de agora, obedeçam sem hesitações ao que os Estados Unidos da América ordenarem, porque caso contrário já sabem… E foi mais longe ao nomear países como a Colômbia, Cuba, o México e mesmo a Dinamarca (enquanto país que administra a Gronelândia) como potenciais alvos do seu jogo de poder global.
E não posso deixar de anotar aqui as fracas reações dos governos europeus face ao descomunal atropelo ao direito internacional que foi o ataque à Venezuela. A Europa Ocidental é, nesta matéria, pouco crítica e nada veemente, e verdadeiramente cúmplice nos desmandos dos Estados Unidos da América. E é aqui que os europeus como um todo, mas particularmente a União Europeia e a maioria dos países que a constituem, perderam o pouco crédito que ainda tinham face à maioria de países do mundo, a que se vai chamando “Sul Global”. Na verdade, o crédito que tinham junto desses países já era muito pouco, depois da Jugoslávia, do Iraque, da Líbia e de muitos outros episódios em que a Europa mostrou o cinismo da sua política externa. De resto, a recente e ainda atual cumplicidade da maioria destes países europeus com o estado de Israel, que invade e bombardeia vários países e assassina dezenas de milhar de pessoas, mostra o cinismo dos europeus, coisa que os países do sul observam e registam.
Mas a história não vai acabar por aqui, porque Trump já afirmou que quer também a Gronelândia, e até explicou também que o devem levar a sério. Por isso, se eu não tinha dúvidas que os americanos iam deitar a mão à Venezuela, também não tenho grandes dúvidas de uma forma ou de outra que vão dominar a Gronelândia, e que isso decorrerá por certo ainda em 2026, antes das eleições intercalares para o congresso dos EUA.
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