quinta-feira, 25/06/2026

Rogo a Vossa Excelência…

Fernando Almeida
Quando era jovem, havia algum receio de interpelar um “agente da autoridade” na rua, nem que fosse para pedir uma simples informação. Nunca se sabia se o dito “agente da autoridade” podia estar nesse dia mal disposto e começar para ali a fazer perguntas, arranjar um pretexto qualquer para embirrar connosco, levar-nos para a esquadra… e depois tudo poderia acontecer. Isso era assim no tempo da “outra senhora”. Parece que alguns saudosistas já nem se lembram disso e até dão a entender que nessa época é que era tudo bom. Ele há gente de memória muito curta ou então muito ignorante…
O comportamento dos “agentes da autoridade” nesse tempo não era senão uma das faces visíveis de um poder distante e autoritário, que não se via a si mesmo como estando ao serviço da comunidade, mas antes como quem tem para gerir um rebanho de ovelhas submisso, obediente e sem vontade própria. Dessa relação são exemplo as fórmulas de requerimento, que curiosamente ainda subsistem na sua linguagem arcaica e totalmente desadequada da realidade da Europa moderna do nosso século, como o clássico (obsoleto e já ridículo) “rogo a Vossa Excelência que se digne mandar passar…”, que por vezes parece que ainda temos que usar. Neste aspeto do formalismo da administração, a evolução é desesperantemente lenta porque a burocracia é, pela sua natureza, conservadora e os burocratas que a fazem são, pela sua função e pela deformação profissional a que foram sujeitos, frequentemente tacanhos.
O país, entretanto, tem vindo a mudar e hoje os “agentes da autoridade” já começam a ser vistos com alguém que tem por função proteger-nos e cada vez são menos olhados como um perigo a evitar. Raros são agora os tiques de autoritarismo de outros tempos e a maioria dos novos agentes, porque com outra idade, outra formação e outra doutrina, têm efetivamente uma outra mentalidade e uma atitude de serviço à comunidade da qual se podem efetivamente orgulhar. As exceções, embora existam, são raras e cada vez menos são desculpadas pela antiga solidariedade corporativa que ocultava os crimes das forças de segurança e das entidades públicas no geral. Por estranho que possa parecer a um observador menos atento, as polícias acabaram por evoluir mais depressa em alguns aspetos que outros setores da administração pública que se poderia supor fossem mais ágeis na evolução.
A forma como o povo, que era geralmente iletrado, era tratado manteve-se até tarde nas mais variadas situações. Os departamentos de Estado responsáveis pela arrecadação de impostos, por exemplo, ainda não há muito tempo ameaçavam com o “penhora” aos bens dos contribuintes ao menor esquecimento de liquidar uma contribuição ou imposto. Mesmo o cidadão que fosse exemplar cumpridor das suas obrigações fiscais, se por um qualquer acaso não tivesse pago em devido tempo uma obrigação de “meia dúzia de euros”, era ameaçado de perda dos seus bens a favor do Estado. A atitude que se manteve até tarde demais fazia lembrar os cobradores de impostos do Império Romano, que, sempre escoltados pelos legionários capazes de qualquer barbaridade, espoliava os nossos avós dos seus bens em benefício do enriquecimento rápido e ilegítimo dos governadores romanos. Felizmente, hoje as mesmas entidades já se parecem mais com serviços públicos modernos com função de recolher e redistribuir a riqueza do país, em benefício do desenvolvimento e bem-estar do seu povo. Mas tem custado a mudar até a linguagem na relação entre o Estado e as pessoas que o sustentam, e deveriam ser mais respeitadas…
Na verdade, o povo ainda desconfia fortemente do Estado, achando frequentemente que ele não é “pessoa de bem”. Essa desconfiança tem, evidentemente, causas históricas, mas também outras mais atuais.
Campanhas várias e persistentes têm tentado dar a ideia que tudo o que é público funciona mal, desperdiça os recursos da comunidade, está pejado de gente incompetente e corrupta. Saberá quem seja mais atento às coisas do mundo, que essas campanhas não são ingénuas nem surgem por acaso, mas antes são caso estudado para privatizar tudo o que permitir bons lucros. Difama-se em especial a educação e a saúde, que são potencialmente duas “minas de ouro” para os grupos privados que querem sugar os recursos da nação. Pelas campanhas que se têm feito, as pessoas desacreditam os méritos de muitos destes serviços públicos e neles só vêm defeitos, porque é só isso que a comunicação social exalta. Mas hoje também se desconfia da justiça e seus agentes e para muitos de nós não há dúvidas que em Portugal há uma “justiça para ricos e outra para pobres” e que também parece que há uma agenda política em alguns atos judiciais. Tudo isso desacredita um setor que devia primar pela isenção e pela verdade e contar com a confiança plena dos cidadãos. A crescente desconfiança na justiça que se tem verificado é um dos mais graves fatores de enfraquecimento do regime democrático.
Mas principalmente as pessoas desacreditam a política e desconfiam dos políticos. Acham que eles não têm motivações generosas de servir a comunidade, mas antes pelo contrário, são carreiristas que nunca produziram nada na vida e procuram o poder para disso tirar benefícios para si próprios e para os grupos que os suportam.
No que respeita às polícias, a agenda tem sido dupla, em consequência de dois grupos de interesse e duas visões do mundo contraditórias. Alguns querem que as polícias sejam modernas e, por exemplo, não perdoam o uso injustificado de violência; outros querem voltar a utilizar as polícias como instrumento de controlo do povo pelas elites e, assim, gostariam de ter polícias violentos que as pessoas comuns temessem como antigamente. São os que querem um povo submisso que possam manipular a seu bel-prazer. São os mesmos que gostam das fórmulas administrativas arcaicas como a do “rogo a Vossa Excelência…”.
O comportamento dos “agentes da autoridade” nesse tempo não era senão uma das faces visíveis de um poder distante e autoritário, que não se via a si mesmo como estando ao serviço da comunidade, mas antes como quem tem para gerir um rebanho de ovelhas submisso, obediente e sem vontade própria. Dessa relação são exemplo as fórmulas de requerimento, que curiosamente ainda subsistem na sua linguagem arcaica e totalmente desadequada da realidade da Europa moderna do nosso século, como o clássico (obsoleto e já ridículo) “rogo a Vossa Excelência que se digne mandar passar…”, que por vezes parece que ainda temos que usar. Neste aspeto do formalismo da administração, a evolução é desesperantemente lenta porque a burocracia é, pela sua natureza, conservadora e os burocratas que a fazem são, pela sua função e pela deformação profissional a que foram sujeitos, frequentemente tacanhos.
O país, entretanto, tem vindo a mudar e hoje os “agentes da autoridade” já começam a ser vistos com alguém que tem por função proteger-nos e cada vez são menos olhados como um perigo a evitar. Raros são agora os tiques de autoritarismo de outros tempos e a maioria dos novos agentes, porque com outra idade, outra formação e outra doutrina, têm efetivamente uma outra mentalidade e uma atitude de serviço à comunidade da qual se podem efetivamente orgulhar. As exceções, embora existam, são raras e cada vez menos são desculpadas pela antiga solidariedade corporativa que ocultava os crimes das forças de segurança e das entidades públicas no geral. Por estranho que possa parecer a um observador menos atento, as polícias acabaram por evoluir mais depressa em alguns aspetos que outros setores da administração pública que se poderia supor fossem mais ágeis na evolução.
A forma como o povo, que era geralmente iletrado, era tratado manteve-se até tarde nas mais variadas situações. Os departamentos de Estado responsáveis pela arrecadação de impostos, por exemplo, ainda não há muito tempo ameaçavam com o “penhora” aos bens dos contribuintes ao menor esquecimento de liquidar uma contribuição ou imposto. Mesmo o cidadão que fosse exemplar cumpridor das suas obrigações fiscais, se por um qualquer acaso não tivesse pago em devido tempo uma obrigação de “meia dúzia de euros”, era ameaçado de perda dos seus bens a favor do Estado. A atitude que se manteve até tarde demais fazia lembrar os cobradores de impostos do Império Romano, que, sempre escoltados pelos legionários capazes de qualquer barbaridade, espoliava os nossos avós dos seus bens em benefício do enriquecimento rápido e ilegítimo dos governadores romanos. Felizmente, hoje as mesmas entidades já se parecem mais com serviços públicos modernos com função de recolher e redistribuir a riqueza do país, em benefício do desenvolvimento e bem-estar do seu povo. Mas tem custado a mudar até a linguagem na relação entre o Estado e as pessoas que o sustentam, e deveriam ser mais respeitadas…
Na verdade, o povo ainda desconfia fortemente do Estado, achando frequentemente que ele não é “pessoa de bem”. Essa desconfiança tem, evidentemente, causas históricas, mas também outras mais atuais.
Campanhas várias e persistentes têm tentado dar a ideia que tudo o que é público funciona mal, desperdiça os recursos da comunidade, está pejado de gente incompetente e corrupta. Saberá quem seja mais atento às coisas do mundo, que essas campanhas não são ingénuas nem surgem por acaso, mas antes são caso estudado para privatizar tudo o que permitir bons lucros. Difama-se em especial a educação e a saúde, que são potencialmente duas “minas de ouro” para os grupos privados que querem sugar os recursos da nação. Pelas campanhas que se têm feito, as pessoas desacreditam os méritos de muitos destes serviços públicos e neles só vêm defeitos, porque é só isso que a comunicação social exalta. Mas hoje também se desconfia da justiça e seus agentes e para muitos de nós não há dúvidas que em Portugal há uma “justiça para ricos e outra para pobres” e que também parece que há uma agenda política em alguns atos judiciais. Tudo isso desacredita um setor que devia primar pela isenção e pela verdade e contar com a confiança plena dos cidadãos. A crescente desconfiança na justiça que se tem verificado é um dos mais graves fatores de enfraquecimento do regime democrático.
Mas principalmente as pessoas desacreditam a política e desconfiam dos políticos. Acham que eles não têm motivações generosas de servir a comunidade, mas antes pelo contrário, são carreiristas que nunca produziram nada na vida e procuram o poder para disso tirar benefícios para si próprios e para os grupos que os suportam.
No que respeita às polícias, a agenda tem sido dupla, em consequência de dois grupos de interesse e duas visões do mundo contraditórias. Alguns querem que as polícias sejam modernas e, por exemplo, não perdoam o uso injustificado de violência; outros querem voltar a utilizar as polícias como instrumento de controlo do povo pelas elites e, assim, gostariam de ter polícias violentos que as pessoas comuns temessem como antigamente. São os que querem um povo submisso que possam manipular a seu bel-prazer. São os mesmos que gostam das fórmulas administrativas arcaicas como a do “rogo a Vossa Excelência…”.
COMENTÁRIOS
Não há comentários para este artigo
07h00 - quinta, 25/06/2026
Nova escola superior do IPS
A futura Escola Superior de Sustentabilidade, Indústria e Tecnologias Digitais (ESSITD), que o Instituto Politécnico de Setubal (IPS) está a criar em Sines, pretende ser um fator de valorização da região.
Nova escola superior do IPS
em Sines quer valorizar região
A futura Escola Superior de Sustentabilidade, Indústria e Tecnologias Digitais (ESSITD), que o Instituto Politécnico de Setubal (IPS) está a criar em Sines, pretende ser um fator de valorização da região.
07h00 - quinta, 25/06/2026
LIDL e Amanhecer
Os grupos de retalho LIDL e Amanhecer inauguram, nos últimos dias, novas lojas nos concelhos de Grândola e de Alcácer do Sal, respetivamente.
LIDL e Amanhecer
abrem novas lojas em
Grândola e Alcácer do Sal
Os grupos de retalho LIDL e Amanhecer inauguram, nos últimos dias, novas lojas nos concelhos de Grândola e de Alcácer do Sal, respetivamente.
07h00 - quarta, 24/06/2026
Utentes em protesto contra problemas
A Comissão de Utentes dos Serviços Públicos do Concelho de Grândola considera que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) no município “encontra-se nas ‘ruas da amargura’” e vai promover, nesta quarta-feira, 24, uma ação de luta.
Utentes em protesto contra problemas
no Centro de Saúde de Grândola
A Comissão de Utentes dos Serviços Públicos do Concelho de Grândola considera que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) no município “encontra-se nas ‘ruas da amargura’” e vai promover, nesta quarta-feira, 24, uma ação de luta.
07h00 - quarta, 24/06/2026
Alcácer do Sal celebra
A Câmara de Alcácer do Sal assinala nesta quarta-feira, 24, o Dia do Concelho, com uma cerimónia solene, que contará com intervenções políticas e momentos musicais.
Alcácer do Sal celebra
feriado municipal
nesta quarta-feira
A Câmara de Alcácer do Sal assinala nesta quarta-feira, 24, o Dia do Concelho, com uma cerimónia solene, que contará com intervenções políticas e momentos musicais.
07h00 - quarta, 24/06/2026
Nova campanha de
O sítio arqueológico do Porto da Lama, localizado nas proximidades de Santa Catarina de Sítimos, no concelho de Alcácer do Sal, está novamente a ser palco de uma campanha de escavações.
Nova campanha de
escavações no Sítio do
Porto da Lama
O sítio arqueológico do Porto da Lama, localizado nas proximidades de Santa Catarina de Sítimos, no concelho de Alcácer do Sal, está novamente a ser palco de uma campanha de escavações.
MAIS VISTAS

