quinta-feira, 11/06/2026

As damas de pé-de-cabra e a herança de Satanás


António Martins Quaresma
Tinha ido dar uma volta até à Angra da Cerva, a cerca de 4 Km a norte da foz do Mira, para (re)admirar o sítio e fazer um teste à capacidade das minhas já débeis pernas de octogenário. Encontrei inúmeros caminhantes, isolados e em grupos, coisa inusual nos tempos em que, ainda jovem, para ali ia com alguma frequência, mas é actualmente a “imagem e marca” deste pedaço de costa. Na última crónica, falei no assunto.
Repentinamente, enquanto me arrastava pelo areal, conjecturei, como numa epifania, o prenúncio de uma invasão, que alguns, sábia e prudentemente, já temem todos os dias de manhã, ainda ensonados. Quem sabe se entre os caminhantes não se encontram espiões, com a missão de obter informações no terreno para a posterior invasão? Quem sabe até se alguns, ou muitos, dos bastões de caminhada que seguram não serão armas ou outros instrumentos secretos e, talvez, mortíferos da indústria militar?
Esta horrível suspeita, embora de todo especulativa, pareceu-me confirmada por via do último relatório do SIS, o admirável e eficiente serviço de “inteligência” português, em que se acham escarrapachados, para que ninguém possa alegar desconhecimento, os nomes dos países que representam ameaça para o nosso pobre rincão, a saber, Rússia, China, Coreia do Norte e Irão. Nem mais, nem menos.
Dir-se-á que é uma lista incongruente, pré-fabricada e encomendada, e que ninguém, no seu perfeito juízo, sente que esses países constituem qualquer ameaça – a menos, obviamente, que os ameacemos. Mas essa é uma posição perigosamente dissolvente, que não entende, desde logo, o que representa o “perigo amarelo”, nas versões chinesa e coreana, que, embora geograficamente pareçam estar longe e não deem sinais de agressividade, podem sempre, insidiosamente, gerar a nossa desgraça, aliás como compete a qualquer perigo que se preze. Nem percebe que o Irão, esse país malévolo, que suscitou a justa ira dos nossos queridos aliados Israel e EUA, pode pedir a Alá que fuzile Portugal com mil raios, para, embora retardadamente, vingar a humilhação do velho domínio português sobre o Estreito de Ormuz, conseguido por Afonso de Albuquerque já lá vão uns anitos. E o que dizer da Rússia, o país que a cada momento pode desembarcar nas praias do Malhão, do Carreiro da Fazenda, do Almograve ou da Zambujeira do Mar, aproveitando uma altura em que o mar não esteja bravo, não para fazer turismo balnear, mas para dar livre curso à sua irresistível e malevolente predisposição invasora de povos pacíficos e democráticos.
É verdade que a última vez conhecida em que alguém elaborou um plano para invadir Portugal foi já no século XX, não há assim tanto tempo, pela mão do ditador espanhol Francisco Franco, que, embora não se tivesse concretizado, indicia que, lá no fundo, há um sector de pensamento espanhol/castelhano apegado à ideia de uma Espanha de Lisboa aos Pirenéus. Além disso, Espanha ocupa os municípios portugueses de Olivença e Talega, ocupação que o Estado português nunca reconheceu. Mas isso, no quadro presente, não interessa, até é desconversa. É verdade, também, que as duas guerras mundiais que incendiaram o mundo no século XX tiveram na Alemanha, na França e na Inglaterra os seus principais autores, mas isso são águas passadas.
Não obstante, a sagacidade de um governo como o português, através de maviosos ministros, como o Negócios Estrangeiros e o da Defesa, apoiados por valorosos generais e almirantes de invariável formato NATO, para ver profundamente a realidade, embora, justo é dizê-lo, haja na Europa outros esclarecidíssimos líderes políticos, em que sobressaem algumas fadas, tipo damas de pé-de-cabra, como nunca houve neste velho recanto ocidental da Eurásia. Duas delas, de cabeleiras bem penteadas, fizeram, com toda a certeza, um pacto com o demónio: de uma tal kalas, ouvi dizer há dias, a quem sabe, que tem a inteligência de “um tijolo partido”, mas o diabo, cumprindo a sua parte do pacto, impô-la, em glória, no areópago da política comunitária, função que, no actual estado de coisas, devemos reconhecer, não exige muito melhor.
Percebemos que os nossos sábios e prudentes governantes preparam a nossa defesa, a defesa da democracia e do ocidental way of life, enfim da grei lusitana e da civilização judaico-cristã, contra todas as formas de barbárie. Como? Desde logo, “fazendo a cabeça” do pessoal, para o que contam com os nossos independentes órgãos de comunicação de massas. A partir daí, é mais fácil que o people, ignaro, mas amedrontado, tenha consciência do risco e da necessidade de organizar a resistência armada, bem assim iniciar, ou, melhor dizendo, continuar, disciplinadamente, manobras provocatórias, no quadro dos planos das organizações militares a que Portugal pertence.
Deixemos as lucubrações basto fantasiosas – que alguns leitores considerarão despropositadas e até de duvidoso gosto – acerca da cena dos caminhantes do Trilho dos Pescadores, considerada quase como uma ocorrência metafórica. Seja como for, influenciado pela incontestável informação do SIS, pela narrativa dominante e pela sapiente opinião da maioria dos portugueses – o que confere simultaneamente dimensão técnica e confirmação democrática à minha opinião – não tenho dúvidas que vários inimigos de Portugal, esses que o SIS identificou, estão à espreita da melhor ocasião para nos fazer a folha.
Sei que há críticas: que se gasta um excessivo balúrdio em armas e munições e, agora, até se quer decretar um dispendioso e belicoso recrutamento geral; que na Europa mandam os warmongers, qual deles o mais louco e irresponsável. O problema maior é que aqueles contra quem nos armamos e que vamos vigiar nos seus mares e fronteiras, em missões claramente hostis, têm todo o direito, eles sim, de sentir-se ameaçados. E nesse caso, parecemos o miúdo lingrinhas que, fiado na protecção do mano mais velho, passa a vida a provocar o matulão até este perder a paciência e dar-lhe uma sova; só que, na situação corrente, com mísseis poderosos, ou – o diabo seja cego, surdo e mudo! – com armas nucleares.

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