quinta-feira, 09/07/2026

Ainda briga!?

António Martins Quaresma
1.Há dias, quando me encontrava em Sabóia, freguesia de Odemira, em missão relacionada com o património industrial, encontrei um conhecido, um arquitecto ainda jovem, que já não via há uns tempos. À laia de cumprimento, atirou-me, entre surpreendido e inquisitivo: “Ainda briga!?”
A expressão que usou é uma espécie de regionalismo que dá ao verbo “brigar” um sentido diferente daquele que frequentemente tem; de facto, não significa “lutar”, como confronto físico ou verbal entre pessoas, mas o de manter uma actividade, mais ou menos árdua, na vida, ainda mais se essa actividade não é obrigada pela necessidade de angariar subsistência.
Já comecei a habituar-me que algumas pessoas se surpreendam quando me veem a “brigar”, tendo em conta a minha provecta idade, que não sendo assim tão provecta, começa a mostrar visíveis sinais exteriores. Ainda há dois ou três dias, um grupo que eu ia guiar numa visita ao castelo de Milfontes, ao chegar ao local do encontro, dirigiu-se a um jovem com quem eu estava supondo que ele era o guia, pois, disseram-me, esperavam encontrar uma pessoa mais nova. “Ainda briga!?” é um veredito da sociedade, que no caso presente se dirige a mim, mas que pode contemplar qualquer um. Eu próprio já me vou lamuriando, por aqui e por ali, face a uma certa falta de energia e a algumas dificuldades em realizar tarefas que não há muito tempo eram fáceis.
A inexorável passagem do tempo e os seus efeitos sobre os organismos vivos, em particular sobre os humanos, sempre preocupou a humanidade, que congeminou “fontes de juventude”, cuja água rejuvenesce quem a bebe, como a que pintou Lucas Cranach, o Velho, pintor renascentista alemão. Por outro lado, há visões mais positivas da velhice: Platão, em A República, disse que a velhice é um estado de repouso e de liberdade no que respeita aos sentidos; mas o mesmo filósofo reconhece que a velhice nunca vem só, pois traz com ela enfermidades e limitações.
Uma vez que as palavras são como as cerejas, lembrei-me que a palavra “velho”/“velha”, aplicada a uma pessoa, aparece geralmente repleta de carga negativa. Diz-se que “velhos são os trapos” e arranja-se um eufemismo respeitoso, como “idoso”/“idosa”, para designar alguém cuja idade anda pelos 80, mais coisa menos coisa. Há tempos um programa de televisão tinha como tema “a velhice e os homens e mulheres sem idade que não deixam que o passar do tempo lhes manipule a vida, e mostram que é possível ser feliz depois dos 70 anos”. Isto leva a um discurso moralista que põe a tónica não na idade cronológica, mas na idade mental e na capacidade de cada um de se manter “jovem”, sendo a juventude um ideal pleno de positividade, alcançável com vontade e bom espírito optimista.
A verdade é que se ainda “brigo”, isso deve-se a que me resta ainda alguma energia para fazer, afinal, aquilo que gosto – e que tenho compromissos que não posso, nem quero, alijar.
2. Uma coisa que se adquire, ou pode adquirir-se, com o andar dos anos, é um certo distanciamento, ao avaliarem-se situações ou problemas. O que não significa alheamento ou desinteresse. Nestas crónicas, tenho, por exemplo, discorrido, com alguma amargura, sobre as elites políticas, nomeadamente as europeias, que julgo inaptas, incultas, inconscientes e, até, com falta de carácter, a um grau tal que julgo estarem a pôr em perigo a própria segurança dos povos. Isso já aconteceu antes no século XX, mais do que uma vez e sempre deu péssimos resultados. Apetece repetir a sentença da autoria, talvez de Axel Oxenstierna, figura da nobreza e da política, da Suécia, na primeira metade do século XVII, em missiva enviada a seu filho, em latim como era uso: “Na nescis, mi fili, quantilla prudentia mundus regatur?”, que vertido para português dá: “Não sabes, meu filho, com quão pouca sabedoria o mundo é governado?”
3. Tudo isto veio a propósito de uma curta frase com sabor antigo: “Ainda briga!?”. No entanto, uma frase que contém um entendimento da vida e, nessa medida, abriga um pensamento profundo, que o contexto em que foi dita reforça.
A expressão que usou é uma espécie de regionalismo que dá ao verbo “brigar” um sentido diferente daquele que frequentemente tem; de facto, não significa “lutar”, como confronto físico ou verbal entre pessoas, mas o de manter uma actividade, mais ou menos árdua, na vida, ainda mais se essa actividade não é obrigada pela necessidade de angariar subsistência.
Já comecei a habituar-me que algumas pessoas se surpreendam quando me veem a “brigar”, tendo em conta a minha provecta idade, que não sendo assim tão provecta, começa a mostrar visíveis sinais exteriores. Ainda há dois ou três dias, um grupo que eu ia guiar numa visita ao castelo de Milfontes, ao chegar ao local do encontro, dirigiu-se a um jovem com quem eu estava supondo que ele era o guia, pois, disseram-me, esperavam encontrar uma pessoa mais nova. “Ainda briga!?” é um veredito da sociedade, que no caso presente se dirige a mim, mas que pode contemplar qualquer um. Eu próprio já me vou lamuriando, por aqui e por ali, face a uma certa falta de energia e a algumas dificuldades em realizar tarefas que não há muito tempo eram fáceis.
A inexorável passagem do tempo e os seus efeitos sobre os organismos vivos, em particular sobre os humanos, sempre preocupou a humanidade, que congeminou “fontes de juventude”, cuja água rejuvenesce quem a bebe, como a que pintou Lucas Cranach, o Velho, pintor renascentista alemão. Por outro lado, há visões mais positivas da velhice: Platão, em A República, disse que a velhice é um estado de repouso e de liberdade no que respeita aos sentidos; mas o mesmo filósofo reconhece que a velhice nunca vem só, pois traz com ela enfermidades e limitações.
Uma vez que as palavras são como as cerejas, lembrei-me que a palavra “velho”/“velha”, aplicada a uma pessoa, aparece geralmente repleta de carga negativa. Diz-se que “velhos são os trapos” e arranja-se um eufemismo respeitoso, como “idoso”/“idosa”, para designar alguém cuja idade anda pelos 80, mais coisa menos coisa. Há tempos um programa de televisão tinha como tema “a velhice e os homens e mulheres sem idade que não deixam que o passar do tempo lhes manipule a vida, e mostram que é possível ser feliz depois dos 70 anos”. Isto leva a um discurso moralista que põe a tónica não na idade cronológica, mas na idade mental e na capacidade de cada um de se manter “jovem”, sendo a juventude um ideal pleno de positividade, alcançável com vontade e bom espírito optimista.
A verdade é que se ainda “brigo”, isso deve-se a que me resta ainda alguma energia para fazer, afinal, aquilo que gosto – e que tenho compromissos que não posso, nem quero, alijar.
2. Uma coisa que se adquire, ou pode adquirir-se, com o andar dos anos, é um certo distanciamento, ao avaliarem-se situações ou problemas. O que não significa alheamento ou desinteresse. Nestas crónicas, tenho, por exemplo, discorrido, com alguma amargura, sobre as elites políticas, nomeadamente as europeias, que julgo inaptas, incultas, inconscientes e, até, com falta de carácter, a um grau tal que julgo estarem a pôr em perigo a própria segurança dos povos. Isso já aconteceu antes no século XX, mais do que uma vez e sempre deu péssimos resultados. Apetece repetir a sentença da autoria, talvez de Axel Oxenstierna, figura da nobreza e da política, da Suécia, na primeira metade do século XVII, em missiva enviada a seu filho, em latim como era uso: “Na nescis, mi fili, quantilla prudentia mundus regatur?”, que vertido para português dá: “Não sabes, meu filho, com quão pouca sabedoria o mundo é governado?”
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