quinta-feira, 04/04/2024

O futuro a Deus pertence!

Fernando Almeida
Costuma dizer-se que “o futuro a Deus pertence” e, na verdade, tentar adivinhar o futuro não é para o comum dos mortais. No entanto, desde a mais remota antiguidade se tenta prever o futuro, quer recorrendo a transes induzidos por substâncias químicas psicoativas, como fumos ou bebidas alucinogénias, quer pelo transe criado pelos movimentos e sons repetidos, quer pelas mais diversas artes divinatórias como o lançamento de pedras, ossos, leitura de vísceras, de cartas e o mais que a imaginação humana criou.
Eu não possuo artes divinatórias desse tipo, nem tão pouco utilizo substâncias que me façam alucinar, e quando tento antever o futuro em qualquer situação faço-o com base no que penso ser a mais estrita racionalidade. Ainda assim, o risco de falhar as previsões é, como se imagina, enorme, já que o futuro é pela sua natureza incerto. Esse risco atualmente aumenta, porque não só há sempre elementos para análise dos factos que se podem desconhecer, como porque o comportamento das pessoas e das sociedades parece ser cada vez menos racional e lógico, e logo mais imprevisível. Se prever o futuro de instituições mais simples e “caseiras” é complicado e difícil, a tentativa de adivinhar a evolução dos acontecimentos em cenários muito complexos como o futuro da Ucrânia (que arrasta consigo alterações em toda a ordem mundial) é missão quase impossível. É claro que se a minha vida dependesse do acerto dessas previsões, nem sequer tentava. Mas como a minha vida não depende de acertar neste exercício de adivinhação do futuro, vou “deitar as cartas”.
Para que tenha algum valor e interesse, a análise geopolítica deve ser despojada de paixões “clubísticas”, partidárias ou afetivas e cingir-se o mais possível a factos, à razão e à objetividade. Vamos então aos factos. Independentemente das razões que cada uma das partes em conflito na Ucrânia possa alegar, está visto que a Rússia tem muito mais recursos humanos, económicos e militares que a Ucrânia e isso parece ser indiscutível. Também se sabe que se a Ucrânia perder o apoio militar e económico do “Ocidente” não poderá resistir muito tempo aos avanços da Rússia no campo de batalha e sucumbirá em alguns meses (talvez poucos). É também necessário pensar que haverá eleições presidenciais nos EUA em novembro e Donald Trump, se não perder a eleição na “secretaria”, tem a vitória como provável. Sabemos que o objetivo essencial de ambos os candidatos às presidências americanas é conseguir usar os recursos da Rússia, enfraquecendo-a, e isolar a China, e que no essencial diferem apenas no modo de o atingir. Os democratas pretenderam uma “primavera” (leia-se “golpe de estado”) na Rússia, que lhes permitisse chegar ao poder em Moscovo, ou que dividisse o gigante euroasiático em vários estados mais fracos e controláveis; os republicanos entendem que a melhor via para o conseguir é fazer amizade com a elite russa (por isso Trump tenta ser amigo de Putin), para do mesmo modo ter acesso às imensas riquezas do maior país do mundo e isolar o verdadeiro adversário estratégico, que é a China. Ora, se Trump ganhar as presidenciais em novembro, como é possível que aconteça, a guerra terá provavelmente um fim relativamente rápido, tanto mais que a Ucrânia deverá estar nessa altura com os recursos exauridos e os europeus, que nos últimos anos andam a reboque dos EUA, não poderão suportar sozinhos os custos militares e financeiros do apoio à Ucrânia.
Em qualquer dos casos, não é de prever que a Rússia, a negociar com vantagem no terreno, prescinda dos territórios já conquistados e, pelo contrário, é de admitir que faça ainda um esforço militar ou negocial para dominar toda a margem do Mar Negro na região de Odessa, cidade fundada por Catarina a Grande e muito querida dos russos, tanto mais que a reclamam como parte da antiga “Nova Rússia”, que era parte do império russo desde o século XVIII. Além disso, a tomada da costa norte do Mar Negro permitiria à Rússia a ligação à Transnístria, parte russófona da Moldova que declarou unilateralmente a sua independência já no início dos anos 90 do século passado. Sabe-se, até porque já foi afirmado antes, que a Rússia não pretende avançar para lá dos territórios historicamente russos e onde a população é cultural e linguisticamente russa. A experiência do Afeganistão ensinou-os que não é fácil gerir e manter um território ocupado se a população é hostil e, por isso, só em último caso os russos ultrapassarão as áreas onde a população é maioritariamente russa ou russófila. É claro que a ideia que nos tentam passar de uma Rússia a invadir a Europa Ocidental não tem o menor sentido e serve apenas para nos atemorizar e para que aceitemos todo o tipo de despesas militares e outros disparates do género.
Se isto (ou algo próximo disto) acontecer, o mais certo é que a liderança política do atual presidente ucraniano não sobreviva e seja substituída por alguém capaz de negociar a paz com a Rússia. No entanto, a situação no terreno pode mudar, com as tropas remanescentes do exército da ucraniano e de alguns países do Ocidente a ocupar o oeste da Ucrânia (onde desde logo se sabe que os russos não querem chegar) mas que os polacos, os romenos e os húngaros, reclamam (com razão) como territórios históricos dos respetivos países, porque só foram anexados para a atual Ucrânia na sequência da segunda guerra mundial. Podemos assim chegar a uma situação de uma Ucrânia reduzida e retalhada entre a Rússia, no leste e no sul, e a Polónia, a Hungria e a Roménia no Ocidente. Ao centro pode remanescer um Estado que ainda se chame Ucrânia, mas que será uma sombra daquilo que foi.
Se sobreviver um Estado que ainda se chame Ucrânia (o que é provável que aconteça nos territórios do centro da atual Ucrânia e eventualmente nos do ocidente), esse será um Estado pária, falido e inviável por muitas gerações. Terá certamente que assumir a dívida descomunal acumulada por uma guerra que em nada beneficiou os seus habitantes; terá que recuperar da destruição das suas infraestruturas e do aparelho económico provocada pela própria guerra; por certo não terá alternativa senão vender os seus recursos naturais e tudo o que tenha valor (terras agrícolas, empresas e tudo o mais) para pagar as dívidas e assegurar a gestão corrente de um Estado na miséria. Nessa altura, veremos se a generosidade dos que hoje mandam armas para matar russos e ucranianos e destruir o país se mantém ou se, pelo contrário, as empresas da Europa e dos EUA vão ainda explorar mais a infelicidade de um povo já destruído, recolhendo os lucros provenientes da sua reconstrução. Se eu fosse ucraniano, iria tentar ficar sob o domínio russo ou polaco, para não viver eternamente com a corda na garganta num país falido que possa manter o nome de “Ucrânia”, mas que não possa ser senhor do seu destino.
Por fim, se nada daquilo que eu aqui prevejo se concretizar, e tudo decorrer de forma contrária ao que hoje me parece ser o futuro, sei que estou desculpado porque, como avisei, não sei lançar cartas para adivinhar o futuro, nem consumo substâncias que me permitam contactar o além.
Eu não possuo artes divinatórias desse tipo, nem tão pouco utilizo substâncias que me façam alucinar, e quando tento antever o futuro em qualquer situação faço-o com base no que penso ser a mais estrita racionalidade. Ainda assim, o risco de falhar as previsões é, como se imagina, enorme, já que o futuro é pela sua natureza incerto. Esse risco atualmente aumenta, porque não só há sempre elementos para análise dos factos que se podem desconhecer, como porque o comportamento das pessoas e das sociedades parece ser cada vez menos racional e lógico, e logo mais imprevisível. Se prever o futuro de instituições mais simples e “caseiras” é complicado e difícil, a tentativa de adivinhar a evolução dos acontecimentos em cenários muito complexos como o futuro da Ucrânia (que arrasta consigo alterações em toda a ordem mundial) é missão quase impossível. É claro que se a minha vida dependesse do acerto dessas previsões, nem sequer tentava. Mas como a minha vida não depende de acertar neste exercício de adivinhação do futuro, vou “deitar as cartas”.
Para que tenha algum valor e interesse, a análise geopolítica deve ser despojada de paixões “clubísticas”, partidárias ou afetivas e cingir-se o mais possível a factos, à razão e à objetividade. Vamos então aos factos. Independentemente das razões que cada uma das partes em conflito na Ucrânia possa alegar, está visto que a Rússia tem muito mais recursos humanos, económicos e militares que a Ucrânia e isso parece ser indiscutível. Também se sabe que se a Ucrânia perder o apoio militar e económico do “Ocidente” não poderá resistir muito tempo aos avanços da Rússia no campo de batalha e sucumbirá em alguns meses (talvez poucos). É também necessário pensar que haverá eleições presidenciais nos EUA em novembro e Donald Trump, se não perder a eleição na “secretaria”, tem a vitória como provável. Sabemos que o objetivo essencial de ambos os candidatos às presidências americanas é conseguir usar os recursos da Rússia, enfraquecendo-a, e isolar a China, e que no essencial diferem apenas no modo de o atingir. Os democratas pretenderam uma “primavera” (leia-se “golpe de estado”) na Rússia, que lhes permitisse chegar ao poder em Moscovo, ou que dividisse o gigante euroasiático em vários estados mais fracos e controláveis; os republicanos entendem que a melhor via para o conseguir é fazer amizade com a elite russa (por isso Trump tenta ser amigo de Putin), para do mesmo modo ter acesso às imensas riquezas do maior país do mundo e isolar o verdadeiro adversário estratégico, que é a China. Ora, se Trump ganhar as presidenciais em novembro, como é possível que aconteça, a guerra terá provavelmente um fim relativamente rápido, tanto mais que a Ucrânia deverá estar nessa altura com os recursos exauridos e os europeus, que nos últimos anos andam a reboque dos EUA, não poderão suportar sozinhos os custos militares e financeiros do apoio à Ucrânia.
Em qualquer dos casos, não é de prever que a Rússia, a negociar com vantagem no terreno, prescinda dos territórios já conquistados e, pelo contrário, é de admitir que faça ainda um esforço militar ou negocial para dominar toda a margem do Mar Negro na região de Odessa, cidade fundada por Catarina a Grande e muito querida dos russos, tanto mais que a reclamam como parte da antiga “Nova Rússia”, que era parte do império russo desde o século XVIII. Além disso, a tomada da costa norte do Mar Negro permitiria à Rússia a ligação à Transnístria, parte russófona da Moldova que declarou unilateralmente a sua independência já no início dos anos 90 do século passado. Sabe-se, até porque já foi afirmado antes, que a Rússia não pretende avançar para lá dos territórios historicamente russos e onde a população é cultural e linguisticamente russa. A experiência do Afeganistão ensinou-os que não é fácil gerir e manter um território ocupado se a população é hostil e, por isso, só em último caso os russos ultrapassarão as áreas onde a população é maioritariamente russa ou russófila. É claro que a ideia que nos tentam passar de uma Rússia a invadir a Europa Ocidental não tem o menor sentido e serve apenas para nos atemorizar e para que aceitemos todo o tipo de despesas militares e outros disparates do género.
Se isto (ou algo próximo disto) acontecer, o mais certo é que a liderança política do atual presidente ucraniano não sobreviva e seja substituída por alguém capaz de negociar a paz com a Rússia. No entanto, a situação no terreno pode mudar, com as tropas remanescentes do exército da ucraniano e de alguns países do Ocidente a ocupar o oeste da Ucrânia (onde desde logo se sabe que os russos não querem chegar) mas que os polacos, os romenos e os húngaros, reclamam (com razão) como territórios históricos dos respetivos países, porque só foram anexados para a atual Ucrânia na sequência da segunda guerra mundial. Podemos assim chegar a uma situação de uma Ucrânia reduzida e retalhada entre a Rússia, no leste e no sul, e a Polónia, a Hungria e a Roménia no Ocidente. Ao centro pode remanescer um Estado que ainda se chame Ucrânia, mas que será uma sombra daquilo que foi.
Se sobreviver um Estado que ainda se chame Ucrânia (o que é provável que aconteça nos territórios do centro da atual Ucrânia e eventualmente nos do ocidente), esse será um Estado pária, falido e inviável por muitas gerações. Terá certamente que assumir a dívida descomunal acumulada por uma guerra que em nada beneficiou os seus habitantes; terá que recuperar da destruição das suas infraestruturas e do aparelho económico provocada pela própria guerra; por certo não terá alternativa senão vender os seus recursos naturais e tudo o que tenha valor (terras agrícolas, empresas e tudo o mais) para pagar as dívidas e assegurar a gestão corrente de um Estado na miséria. Nessa altura, veremos se a generosidade dos que hoje mandam armas para matar russos e ucranianos e destruir o país se mantém ou se, pelo contrário, as empresas da Europa e dos EUA vão ainda explorar mais a infelicidade de um povo já destruído, recolhendo os lucros provenientes da sua reconstrução. Se eu fosse ucraniano, iria tentar ficar sob o domínio russo ou polaco, para não viver eternamente com a corda na garganta num país falido que possa manter o nome de “Ucrânia”, mas que não possa ser senhor do seu destino.
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