quinta-feira, 16/04/2026

A educação e o futuro

Fernando Almeida
A cultura dos povos é “imorredora”, como dizia o saudoso Professor Moisés Espirito Santo. Se bem o entendi, pretendia dizer com isso que as características mais profundas da forma de pensar e sentir dos povos, muito embora possam mudar em vários aspetos com o tempo, têm tendência a manter-se dentro de uma matriz distinta e identificadora dessa mesma cultura. No entanto todos sabemos que ela evolui e, pelo menos os mais velhos, são testemunhas de mudanças muito significativas que ocorreram entre nós na forma de viver, agir e até de falar. [...]
Mudando de assunto, ou talvez não: Miguel Nicolelis é um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro reconhecido mundialmente por ser um dos pioneiros mundiais no campo da comunicação entre o cérebro e o computador e das próteses criadas para a reabilitação de pessoas com paralisia. [...] Um destes dias assisti a uma entrevista deste investigador, feita a propósito de ter recebido do Governo chinês o “Prémio da Amizade”, que é uma das maiores honrarias que a China atribui a especialistas estrangeiros. De facto, nos últimos anos Miguel Nicolelis também tem participado no projeto chinês “Andar de Novo”, utilizando exosqueletos controlados pelo cérebro para reabilitar pacientes com lesões medulares (bem falta fazia em Portugal que esse conhecimento cá chegasse). O que me impressionou na entrevista, e que partilho convosco, foi o valor que na China se dá ao conhecimento, aos investigadores e professores, e à ciência no geral. [...]
Deixando agora esta entrevista, facilmente se pode verificar que o tratamento respeitoso e de exceção é estendido dos investigadores e professores no geral. De resto, a profissão de professor é uma das mais respeitadas na sociedade chinesa (e em muitos outros países do mundo) e os professores gozam de um tratamento elevado e especial, talvez fruto de uma longa tradição confucionista que valoriza profundamente a educação e o conhecimento. Por outro lado, o Governo atribui máxima prioridade à educação e frequentemente exalta a profissão, com o presidente Xi Jinping enviando saudações formais no Dia do Professor.
Outro aspeto interessante é a prova de acesso à universidade, o Gaokao. O Gaokao é um exame nacional para o ingresso no ensino superior da China, uma bateria de provas das mais difíceis do mundo, com mais de 13 milhões de candidatos anualmente. Claro que, tanto lá como cá, o acesso à universidade pode determinar o futuro dos jovens e daí a sua importância. No entanto na China o acesso às melhores universidades tornou-se de tal maneira pressionante para os jovens, que o Governo teve que aprovar uma lei proibindo aulas de reforço ao fim de semana e pede aos pais que preservem tempo para a diversão e descanso para os filhos. Na generalidade dos países do sudeste da Ásia, o esforço dos alunos por vezes vai longe demais (pelo menos na nossa visão ocidental), e tudo o que é demais…
Embora a cultura chinesa, ancorada nas filosofias tradicionais, condicione a forma de sentir, pensar e agir dos chineses, o poder atual também contribui para reforçar essa antiga forma de ver o mundo e isso parece ser evidente nas atitudes do poder chinês, sempre focado em desenvolver o conhecimento, a investigação, e a tecnologia. Repare-se que a China tem nos cargos de poder e decisão, sobretudo, engenheiros (não juristas como acontece por cá) e, naturalmente, eles valorizam tudo isso.
Há outro aspeto da cultura que influencia este comportamento “ultra trabalhador” dos estudantes chineses: a cultura chinesa e a norma social responsabilizam os filhos pelo sustento e segurança dos pais na velhice, ao mesmo tempo que cada indivíduo sente a responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento da comunidade onde vive. [...]
Tudo isto são bons princípios que se enquadravam bem na nossa cultura tradicional, mas parece que hoje já pouco se aplicam na sociedade moderna, influenciados que fomos pelas promessas de prosperidade do mundo cultural anglófono, onde o individualismo se sobrepõe à entreajuda e solidariedade, e onde a verdade e a honestidade são vencidas pela fraude e deslealdade. A cultura é “imorredora”, sim, mas evolui. [...]
Por último, e é este aspeto que me parece ter mais graves consequências tem para o nosso futuro: a desvalorização do conhecimento e de quem potencia a sua aquisição tem, para mal dos nossos pecados, várias causas distintas, complementares, e que se reforçam mutuamente. Na nossa cultura tradicional, o saber nunca foi muito valorizado, pelo analfabetismo proverbial dos portugueses, mas também porque a escola frequentemente ministra um saber demasiadamente teórico e desligado da realidade, por isso sentidos como pouco úteis. Por outro lado, o poder tem desqualificado a escola pública e seus atores por motivos inconfessáveis, que evidentemente não têm qualquer relação com o progresso do país e o bem-estar do seu povo. Por último, porque os nossos jovens cada vez têm menos sentido de responsabilidade e de obrigação para com os outros, sejam os familiares, seja a comunidade.
Alguém dizia que os jovens na China tentam aprender o mais possível, para serem investigadores, cientistas, inventores ou professores, obter sucesso pessoal para ajudar os pais na velhice e a sua comunidade. Por cá, tanto em Portugal como na maioria da Europa Ocidental, muitos dos nossos jovens querem aprender o menos possível, viver de expedientes vários que permitam bons resultados sem esforço e confiam que o sucesso profissional pode beneficiar mais com “cunhas” e “maroscas”, que com trabalho sério e responsabilidade. Os ídolos por cá não são os inventores, cientistas, académicos e professores, como acontece na China e em muitos outros países da Ásia. Por cá os ídolos são os cantores rock (muitas vezes ostensivamente alcoólicos e drogados), os atores, os jogadores de futebol, os influencers e outra gente de utilidade duvidosa e secundária. As consequências desta diferença estão à vista de todos, com a evidente decadência da Europa e a ascensão da Ásia. Resta o conforto de saber que, se quisermos, a situação ainda pode ser revertida.
Mudando de assunto, ou talvez não: Miguel Nicolelis é um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro reconhecido mundialmente por ser um dos pioneiros mundiais no campo da comunicação entre o cérebro e o computador e das próteses criadas para a reabilitação de pessoas com paralisia. [...] Um destes dias assisti a uma entrevista deste investigador, feita a propósito de ter recebido do Governo chinês o “Prémio da Amizade”, que é uma das maiores honrarias que a China atribui a especialistas estrangeiros. De facto, nos últimos anos Miguel Nicolelis também tem participado no projeto chinês “Andar de Novo”, utilizando exosqueletos controlados pelo cérebro para reabilitar pacientes com lesões medulares (bem falta fazia em Portugal que esse conhecimento cá chegasse). O que me impressionou na entrevista, e que partilho convosco, foi o valor que na China se dá ao conhecimento, aos investigadores e professores, e à ciência no geral. [...]
Deixando agora esta entrevista, facilmente se pode verificar que o tratamento respeitoso e de exceção é estendido dos investigadores e professores no geral. De resto, a profissão de professor é uma das mais respeitadas na sociedade chinesa (e em muitos outros países do mundo) e os professores gozam de um tratamento elevado e especial, talvez fruto de uma longa tradição confucionista que valoriza profundamente a educação e o conhecimento. Por outro lado, o Governo atribui máxima prioridade à educação e frequentemente exalta a profissão, com o presidente Xi Jinping enviando saudações formais no Dia do Professor.
Outro aspeto interessante é a prova de acesso à universidade, o Gaokao. O Gaokao é um exame nacional para o ingresso no ensino superior da China, uma bateria de provas das mais difíceis do mundo, com mais de 13 milhões de candidatos anualmente. Claro que, tanto lá como cá, o acesso à universidade pode determinar o futuro dos jovens e daí a sua importância. No entanto na China o acesso às melhores universidades tornou-se de tal maneira pressionante para os jovens, que o Governo teve que aprovar uma lei proibindo aulas de reforço ao fim de semana e pede aos pais que preservem tempo para a diversão e descanso para os filhos. Na generalidade dos países do sudeste da Ásia, o esforço dos alunos por vezes vai longe demais (pelo menos na nossa visão ocidental), e tudo o que é demais…
Embora a cultura chinesa, ancorada nas filosofias tradicionais, condicione a forma de sentir, pensar e agir dos chineses, o poder atual também contribui para reforçar essa antiga forma de ver o mundo e isso parece ser evidente nas atitudes do poder chinês, sempre focado em desenvolver o conhecimento, a investigação, e a tecnologia. Repare-se que a China tem nos cargos de poder e decisão, sobretudo, engenheiros (não juristas como acontece por cá) e, naturalmente, eles valorizam tudo isso.
Há outro aspeto da cultura que influencia este comportamento “ultra trabalhador” dos estudantes chineses: a cultura chinesa e a norma social responsabilizam os filhos pelo sustento e segurança dos pais na velhice, ao mesmo tempo que cada indivíduo sente a responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento da comunidade onde vive. [...]
Tudo isto são bons princípios que se enquadravam bem na nossa cultura tradicional, mas parece que hoje já pouco se aplicam na sociedade moderna, influenciados que fomos pelas promessas de prosperidade do mundo cultural anglófono, onde o individualismo se sobrepõe à entreajuda e solidariedade, e onde a verdade e a honestidade são vencidas pela fraude e deslealdade. A cultura é “imorredora”, sim, mas evolui. [...]
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