quinta-feira, 06/02/2025

Opiniões


António Martins Quaresma
À mesa do café, nas redes sociais da Internet, nos órgãos de comunicação social, enfim, em todas as instâncias, os cidadãos debitam, por vezes acerrimamente, opiniões diferentes, contraditórias mesmo, sobre qualquer assunto concreto que está na berra. Desde as coisas da vida corrente, como as que têm a ver com a imigração oriental, tão presente no Alentejo Litoral, à complexidade da geopolítica a uma escala planetária.
Dir-se-á que é normal, pois, além de cada um ter direito à sua opinião, as perspectivas podem ser legitimamente diferentes na análise das questões. Sem negar a bondade deste direito e deste princípio, penso que, não obstante, também é mais ou menos pacífico afirmar que nem todas as opiniões valem o mesmo. Cultura, conhecimento, disciplina de pensamento, honestidade intelectual variam de indivíduo para indivíduo. No fundo, os indivíduos analisam e avaliam as questões como lhes é possível.
Suponhamos um caso dominante, da área internacional, o da guerra que decorre na Ucrânia. Quase me atrevo a dizer que não há português que não tenha, sobre o assunto, uma opinião, quantas vezes assanhada. De facto, o pequeno opinante, exaltado, é, todo ele, certezas. Como obtiveram a informação que moldou a sua opinião? Naturalmente, a maioria através dos órgãos de comunicação, particularmente da televisão, consumindo as versões tantas vezes tendenciosas, que lhe são apresentadas. “Na guerra a primeira vítima é a verdade”, como assevera a velha máxima.
Para além do poderoso efeito propagandístico dos media mainstream – que, no fundo, prolongam a posição oficial do País, publicamente expressa pelo Governo e por altos cargos militares, aliás traduzida na participação, ainda que secundária, na guerra, seguindo o padrão corrente nos países da UE –, parece-me haver um fator pessoal básico. Cada um forma a sua opinião conforme as versões que está mais disponível para acolher. Aquilo que cada um é torna-se decisivo na sua posição face ao assunto, conferindo à dimensão subjetiva um papel preponderante.
Desde logo, as diferenças podem ser explicadas por disposições ideológicas prévias e condicionantes. Por exemplo, a posição anti-russa, a que parece largamente dominante, é perfilhada por ampla maioria da direita política, que, no fundo, a modo de reflexo condicionado, identifica Rússia com União Soviética e com comunismo, inclusive associando as figuras de Putin e Estaline. Entronca na russofobia clássica. Uma parte da esquerda é também anti-russa, por considerar que o atual Estado russo é conservador e nacionalista, surgindo Putin, mais uma vez, como um líder autocrático e maquiavélico. Mas esta dicotomia não esgota as hipóteses de teor político-ideológico, pois entre a fação minoritária que, mais ou menos, de uma forma ou de outra, entende a posição russa, existe gente originária de ambas as correntes que valoriza aspetos como o expansionismo da NATO e a confrangedora falta de talento das atuais elites políticas nos países da UE.
Claro que também há quem procure entender o conflito em toda a sua complexidade, na suposição de que as coisas não são tão simples como as pintam, e queira ultrapassar o maniqueísmo das posições vulgares – o que não significa, necessariamente, neutralidade sobre a questão.
Estes diversificam as fontes de informação e buscam ultrapassar a pirotecnia da demonização. Existem exemplos entre alguns conhecidos cronistas de jornais, aliás logo apodados de “putinistas”.
Depois desta breve, parcial – e simplista – apreciação sobre opiniões correntes, resta confessar que também eu não fujo à regra enunciada do condicionamento, mas, juro, tento perceber, até para não ser enganado. Quem quer compreender estuda, quem não quer acredita.

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