quinta-feira, 26/06/2025

Do subjetivo ao objetivo


António Martins Quaresma
Todas as gerações viveram com a comparação negativa dos “novos tempos”, por parte dos mais velhos. Faz parte da incapacidade, ou dificuldade, das pessoas para, à medida que envelhecem, se adaptarem às mudanças na sociedade, mormente quando estas ocorrem com maior rapidez. É o clássico e nostálgico: “no meu tempo é que era bom!”. Obviamente que também recordam uma época que para elas foi feliz, pois tinham juventude e saúde, e isso influencia a sua percepção. Nada mais é do que um saudosismo, muito subjectivo. No entanto, temas como o da “decadência”, inscrito no hino nacional português, reflectem, num âmbito mais vasto, o sentimento de um passado áureo.
É óbvio que existem dimensões em que o “conflito de gerações” pode propiciar ou facilitar mudanças importantes: lembremos os casos das correntes artísticas ou literárias. Exemplificando, o surgimento do Realismo e do Naturalismo partiu da crítica ao Romantismo. Avanços tecnológicos há que determinam alterações socioculturais significativas, como é o caso da difusão da informática e do acesso à internet, hoje tão influentes no dia-a-dia.
Independentemente do que atrás foi dito, há, efetivamente, períodos distintos: é hoje evidente que, por exemplo, os anos entre 1920 e 1945 foram muito negativos para a população da Europa, com o surgimento de ideologias racistas e violentas e de uma guerra sangrenta praticamente generalizada. Também Portugal, nos anos antes da instauração da democracia, em 1974, viveu sob um regime, que, entre vários pecados, insistiu em manter uma guerra em África, que, apesar de baixa intensidade, teve forte e nocivo impacto na vida de muitos milhares de jovens, de cá e de lá. Portanto, pode existir uma visão objectiva na comparação valorativa dos tempos. Nem sempre um certo passado é melhor que certo presente, e vice-versa, o que contraria certa ideia optimista de “progresso”. Este não é simples e linear, como, entre outros, bem acentuou Walter Benjamin.
Se olharmos a conjuntura que corre, é evidente para muita gente que há claros indícios de que estamos numa fase perniciosa. À escala europeia, olhamos para a geopolítica e vemos os governos entregues a um naipe de caquistocratas pseudo virtuosos (starmers, macrons, merzs, kallas...), que instigam a guerra na Europa e são compreensivos e colaboradores em relação ao massacre de um povo, praticado pelo sionismo.
No plano nacional, o governo faz o que lhe mandam do exterior, sendo, por vezes, a nossa irrelevância uma espécie de vantagem. Mas a chamada “opinião púbica” alinha entusiástica e acriticamente nos argumentos da propaganda mais caricatural, conquanto eficaz, veiculada mormente pelos canais de televisão e amplificada nas redes sociais. Arriscamo-nos, por exemplo, a vir a ter um Presidente da República da mais bera formatação NATO, que, em particular, como chefe supremo das Forças Armadas, não augura nada de bom.
À escala local e regional, um paradisíaco Litoral Alentejano faz lembrar a velha anedota, em que São Pedro se espantava com o desigual e favorável tratamento, na distribuição das belezas naturais, dado por Deus a este pedaço litorâneo, e o Criador respondia: “Espera que já vais ver a gente que lá vou pôr”. E, assim, uma certa agremiação partidária ganha, de rompante, as eleições, o racismo e a xenofobia campeiam entre o vulgo, a propaganda mediática infecta as mentes mais estreitas (e outras menos estreitas...) – e as redes sociais comprovam que os padrões são agora a ignorância e a arrogância, tudo muito exacerbado, mesmo histérico.
Logo, afirmar que os tempos que correm apresentam características degenerativas, mesmo de grande risco para a humanidade não é simples saudosismo da época anterior ou uma atitude meramente pessimista, mas decorre da análise fria da situação em que nos encontramos. Como a história nos mostra, há alturas em que, parece, quase toda a gente perde a razão e toma, ou aceita, decisões irracionais e, até, autodestrutivas.

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